Calor extremo, secas, incêndios. O Verão tornou-se perigoso?
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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Calor extremo, secas, incêndios. O verão tornou-se perigoso?
Não vos escondo que nos preocupa muito esta onda de calor e outras que se avizinharão. Obviamente que acusa aqui a possibilidade de um impacto na mortalidade, tal como está a acontecer noutros países. Eu recordo França, que tem sido um dos países muito fustigados.
Calor extremo, secas, incêndios, tempestades e furacões. Nos últimos anos, os dias de verão deixaram de ser apenas sinónimo de dias mais longos e de férias para passarem a trazer fenômenos climáticos extremos e perigosos que se sobrepõem e reforçam mutuamente. Os cientistas americanos consideram-na já uma nova estação do ano, um verão alargado de maio a outubro. É a estação do perigo, o período que concentra a maior parte dos fenômenos com impactos humanos, naturais e econômicos. Por cá, preparamo-nos para enfrentar mais uma onda de calor, a oitava deste ano. Está o país preparado para estas temperaturas? Estamos a falar de uma alteração climática? O nosso verão está também a tornar-se uma estação de perigo? Vou falar com Filomena Martins, redatora principal do Observador. Eu sou a Teresa Bacich e esta é a história do dia de quarta-feira, 01 de julho. Bem-vinda, Filomena Martins.
Olá, Teresa.
Estamos no início de julho. O verão começou oficialmente há 10 dias, mas já vamos para a oitava onda de calor do ano.
Estivesse a fazer contas, eu não sei fazer contas, mas deve ser isso. Pelo menos em termos de ondas de calor. Tenho aqui um papel à frente que me diz rigorosamente isso e é do IPMA. E começámos em fevereiro, as ondas de calor, imagine-se, logo depois das tempestades, depois da Cristina. Houve uma onda de calor em fevereiro, depois em março, duas, e em abril, também. Aquela dos últimos 15 dias de maio, ainda em plena primavera. Esta, que ainda está a abranger parte da Europa, está agora nos países bálticos e que bateu recordes de temperatura em França, que foi o país mais atingido. Também no Reino Unido, nos Países Baixos, na Bélgica, em Itália, na Alemanha, na Noruega. É preciso dizer que derreteram semáforos, derreteram estradas, sei lá o que é que aconteceu. Felizmente, essa passou-nos de raspão, foi mais no interior do que no litoral. E esta quinta-feira começa uma outra cuja dimensão ainda está por definir, mas não vai ser bonito. As temperaturas mínimas não vão baixar dos 20 graus em todo o país durante uma semana, pelo menos. As máximas não vão baixar dos 30 graus e haverá zonas com 43, 44.
Ainda não acabou uma e já estamos a pensar na outra. Precisamente, o verão aumentou e também está mais perigoso. Há quem lhe chame agora a estação do perigo. Que conceito é este?
O conceito é danger season. Foi criado por uma série de cientistas nos Estados Unidos. Eles são da Union of Concerned Scientists nos Estados Unidos. É um período que, para eles, nos Estados Unidos, se reúnem furacões, tornados, calor extremo, grandes incêndios. São um país enorme, portanto, é fácil reunir isto tudo. São vários riscos ao mesmo tempo, que eles acham que não devem continuar a ser estudados em separado, porque eles acham que todos estes fenômenos se reforçam e têm implicações mútuas. O calor favorece a seca, a seca aumenta o risco de incêndios, os incêndios agravam a poluição do ar, o calor e o fumo depois aumentam os problemas de saúde, a falta de chuva reduz as reservas d’água e aumenta a pressão sobre a agricultura e a produção de energia. Portanto, é um ciclo contínuo, uma rodinha. E por isso eles acham que isto devia ser visto como um todo e daí darem-lhe um nome e começarem a estudar isto como um todo e não cada fenômeno por si.
E só pra ficar claro, estamos a falar de uma alteração consistente na estação e não apenas de fenômenos raros e espaçados. E é importante sublinhar isto porque esta nova configuração requer também uma nova forma de preparar esta época do ano.
É isso que eles defendem. Nós temos andado a falar de já não existirem estações do ano bem definidas aqui em Portugal e na Europa. O que eles defendem é um bocadinho diferente, é que o verão aumentou, ou melhor, que o verão abarca já um bocadinho da primavera, o fim da primavera, e um bocadinho do outono, o início do outono. Os fenômenos extremos começam mais cedo e acabam mais tarde. E eles defendem isso, que devem ser estudados em conjunto e não em separado, tal como devem ser preparados em conjunto e não em separado. Um exemplo: não deve haver a preparação pra época de incêndios, outra preparação pra época do calor, outra preparação pra época balnear. É todo um conjunto de coisas numa mesma estação que deve ser preparada em conjunto, porque de facto elas se influenciam, os fenômenos se influenciam uns aos outros. E não importa que ainda seja outono ou que seja ainda primavera, não importa nada disto. Importa preparar ou chamar-lhe o que quer que seja. A estação de risco abrange este fim de primavera, abrange o verão, abrange o início do outono. É um verão cada vez maior e mais perigoso, mas não é necessário mudar-lhe o nome. É preciso preparar esta estação do perigo, este tempo em que eles acham que existem estes fenômenos todos, de uma forma conjunta, porque todos eles são fenômenos que se influenciam uns aos outros e que têm implicações depois pra várias áreas, desde a saúde ao ambiente, todos eles juntos.
Como disseste, o conceito nasceu nos Estados Unidos, mas será que se pode aplicar também em Portugal? O que caracteriza este fenómeno no nosso país? O que nós temos visto e sentido nos últimos anos?
Nós não temos os furacões que os Estados Unidos têm, nem temos aqueles tornados devastadores que a gente vê, nem sequer aqueles incêndios da Califórnia que destroem tudo à sua frente. Mas, olhando para os números, e não trouxe aqui os números todos, porque eles são tantos que ficávamos aqui a tarde toda. Nós temos tido cada vez mais ondas de calor, cada vez mais secas, cada vez mais problemas hídricos. Este ano não é o caso, porque choveu o que choveu no inverno, e cada vez mais fenómenos extremos que não tínhamos. Os grandes fogos do ano passado, já não falo de 2017, mas os do ano passado. O ano passado quase não demos conta, mas foi o ano com a maior área ardida em Portugal. E aconteceram os fogos no ano passado, sobretudo à noite e por ignição, os maiores deles, de uma trovoada. Trovoada que obviamente tinha sido provocada pelo calor. As noites nunca tinham sido tão quentes, cada vez há mais noites tropicais, que são aquelas acima de 20 graus, ou tórridas, que são aquelas acima de 25 graus. E isso faz com que os solos não arrefeçam, nem os corpos humanos, mas os solos não arrefeçam. A humidade deixa de existir, não evapora e por causa disso o calor é ainda mais sufocante e ficam assim criadas mais condições para incêndios, numa sequência de fenómenos que não para. Se juntarmos a isto, ao fato da Europa ser o continente que está a aquecer mais depressa e ao fato do Mediterrâneo estar mais quente que todos os outros oceanos ou mares, como lhe queiramos chamar, eu acho que temos aqui o caldinho perfeito. Sim, acho que nós podemos estar a entrar numa estação de risco em Portugal e na Europa. Não sei é quando é que entrámos. Não entrámos já há algum tempo e não demos por isso.
Explorando melhor este conceito da estação de perigo, quando falamos de calor, falamos de um calor que mata. Por exemplo, a França registou um excesso de mil mortes nesta última vaga de calor. A Europa ainda não está preparada para estas novas temperaturas?
Não, não está. Nem a Europa, nem Portugal. Nós, na onda de calor do ano passado, no verão, no início de agosto, tivemos 1330 mortes, se eu não estou em erro. Em excesso, devido ao calor. Em todas as regiões do país e sobretudo em pessoas com mais de 75 anos. As autoridades de saúde chamam-lhe as mortes silenciosas. Ninguém morre pelo calor. O calor produz uma série de doenças, normalmente a quem já as tem, que afeta muito, desde AVC, problemas do coração. Há uma série de doenças que se-
Manifestam mais?
Sim, aparecem muito quando há calor, sobretudo em pessoas idosas, pessoas que já estão debilitadas ou então em crianças. Quanto ao calor, a Europa andou anos a preparar-se para o frio. Portugal também. Nós dizemos sempre que as nossas casas, as nossas escolas, não estão preparadas quando faz muito frio, que os alunos têm de estar de mantas, que têm de levar aquecedores de casa. Há imensas notícias com isso. Com o calor, até porque é altura de férias, normalmente não há notícias sobre isso, não se fala nisso. Só agora é que se pediu, em maio, porque ainda havia aulas, para fechar escolas. Nós, em Portugal e até no sul de Espanha ou no sul de Itália, os países do sul estão habituados a mais calor, mas os países do centro e do norte da Europa não imaginam o que é passar por 38 graus ou 40 graus ou mais. Agora aconteceu, está a acontecer ainda, e está a tornar-se sufocante. A Europa não está preparada para este calor, não se preparou para este calor, preparou-se para o frio. Em Portugal, a mesma coisa. Nós estamos preparados, nas zonas do Alentejo, estar em 42 graus ou 40 graus não é nada do outro mundo. Estar em 24 graus ou 25 graus à noite é a coisa mais normal. Agora, isso acontecer muitos dias sucessivos e acontecer com frequência, e isso acontecer também já no norte, e acontecer também já em Lisboa, como vai acontecer esta semana. Sim, isso não é normal e não estamos preparados para isso.
Há bocado, quando estavas a falar desta caseia de acontecimentos, falavas quase de um fenômeno que se vai alimentando. Altas temperaturas agravam a seca, a seca reduz a umidade dos solos e favorece a propagação de incêndios, que por si degradam a qualidade do ar e também afetam a saúde. Isto parece um círculo vicioso.
É, parece aquelas carambolas de palavras que a gente diz, mas é mesmo um ciclo. Uma das cientistas que batizou esta proteção de risco, Danger Season, descreveu que, por exemplo, um desses ciclos, descreveu muito bem. Uma onda de calor agrava a seca, a seca reduz a umidade dos solos, favorece a propagação dos incêndios e aumenta o estresse sobre a vegetação. Depois os incêndios degradam a qualidade do ar, afetam a saúde e podem até alterar a própria atmosfera. E o calor extremo aumenta simultaneamente o consumo de água e de eletricidade. E nenhum destes fenômenos atua sozinho. Juntos, são um enorme problema e por isso eles começaram a chamar a estas coisas todas, riscos compostos ou compound events. São situações em que vários fenômenos extremos acontecem em simultâneo e se reforçam uns aos outros, multiplicando os impactos que todos eles têm. E de facto, se nós pensarmos nisto, faz todo o sentido. E se pensarmos que tudo isto ao mesmo tempo está a acontecer e que tem acontecido, imaginemos o impacto que isto tem nos hospitais e tem nos centros de saúde, tem para a saúde, tem para uma série de coisas que acontece tudo ao mesmo tempo. Estão bombeiros ali, estão os outros a correr para o outro lado, estão os outros a ver se a erva já está cortada. Tudo isto é um
Em Portugal, temos vindo a aprender com estas ondas de calor. Há bocado falámos pela primeira vez de fechar as escolas agora nestas alturas e também quais são as zonas mais vulneráveis do país?
Nós ainda não estudamos estes fenómenos em conjunto. Estudamos tudo em separado e normalmente nós atuamos sempre depois, não por antecipação. É um problema deste país e viu-se isso na tempestade, na Kristen, em que se disse que não esperavam nada assim, que aquilo foi completamente uma surpresa. E não é verdade, não faltavam avisos. A proteção tinha avisado, o IPMA tinha avisado. Agora também não faltam avisos, há vários avisos do IPMA neste momento. E o IPMA, que é por norma cauteloso, avisou com tempo, que é sobre a Kristen, como está a avisar para esta onda de calor. A DGS também está a colocar avisos. A Proteção Civil também, até porque estamos não só em alerta laranja para o calor, o país está todo em alerta laranja, como estamos em risco máximo de incêndio, exatamente porque os dois fenómenos se sobrepõem. A ministra da Saúde, que eu ouvi ontem, mostrou-se preocupada, disse que era um fenómeno preocupante que íamos assistir e disse que os hospitais e centros de saúde estão de sobreaviso. Eu quero acreditar que sim, vou ser otimista. Mas eu, sendo otimista, sou desconfiada. E não vou pensar que as urgências vão estar fechadas, que o INEM não vai responder, que vai ser preciso tocar numa campainha. No entanto, quero ver para crer e perceber que isto vai estar tudo mesmo a funcionar se o país começar a arder, se as pessoas começarem a ter problemas de respiração, que acontece sempre nestas alturas, e perceber que isto realmente vai funcionar. As zonas mais vulneráveis são sempre as zonas do interior Sul, portanto, o Alentejo, e a parte toda da fronteira, que é sempre a zona mais vulnerável, onde as coisas acontecem mais. Apesar de todo o país estar em alerta laranja.
Mesmo para terminar, até ao final da semana, os termómetros vão voltar a subir demais em Portugal. Quais é que são os conselhos que os especialistas deixam para enfrentar estes dias?
Os mesmos de sempre. Proteger os mais vulneráveis, os idosos, as crianças e os doentes. Não andar ao sol nas horas de mais calor, nem fazer exercício físico ao ar livre nessas horas, procurar zonas frescas e beber muita água. Um conselho de boa alentejana habituada a calor: a ideia de andar com muito pouca roupa não é boa ideia. No Alentejo, nós tapamo-nos todos e isso tem um certo sentido, porque assim fica mais fresco.
Obrigada, Filomena Martins.
Ora de nada e refresca-te.
Filomena Martins é redatora principal do Observador. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Rafael Pego, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacasis. Até amanhã.










