MAR: "Nunca ouviram uma rapper de Monte Gordo?"
▲ “O poema é o mais importante para mim”, assume. Foi essa ligação a uma língua visceral, por oposição ao inglês, que também lhe permitiu construir "Cuíca" como disco íntimo
De raízes espanholas, criada em Monte Gordo, MAR assume-se orgulhosamente como Cuíca no álbum de estreia que lançou em março. Autora de uma música íntima que percorre a fronteira entre o R&B e o rap — com muitas nuances pelo meio, entre os códigos do trap e uma sensibilidade pop — esta é a história da menina que cresceu cedo, obrigada a enfrentar uma série de adversidades, e que ousou experimentar e falhar para aos 27 anos estar segura de si mesma, convicta da identidade artística vincada há relativamente pouco tempo, quando nos últimos três anos descobriu a importância de escrever em português e como poderia ser a sua própria compositora e produtora.
MAR é uma das vozes frescas da música contemporânea portuguesa, mas também uma das produtoras que têm feito a diferença nos bastidores da indústria. Compôs e produziu, por exemplo, oito faixas do mais recente álbum de Carolina Deslandes, Chorar no Club, editado em 2025. Este ano, a artista é um dos destaques no cartaz do Sumol Summer Fest, que se realiza a 3 e 4 de julho no parque de campismo da Costa da Caparica.Filha de pais espanhóis, Mar Sazatornil Gonzalez cresceu em Monte Gordo, a vila algarvia que define muito da sua personalidade e da vida que tem hoje. Apesar do sangue espanhol, a ligação familiar à terra é antiga. Quando Monte Gordo era um sítio de cabanas de pescadores, dunas e pouco mais, a sua bisavó abriu a Pensão Espanhola, anos antes da inauguração do primeiro hotel e de a vila se tornar um destino turístico de verão. A vivência entre os dois lados da fronteira era comum, tendo em conta a proximidade geográfica — Monte Gordo e Ayamonte, a terra espanhola mais próxima, estão a 20 minutos de carro.
Os habitantes de Monte Gordo são popularmente conhecidos como “cuícos”. Acredita-se que a palavra tenha origem na maneira como os vizinhos espanhóis chamavam os pescadores portugueses que zarpavam nas embarcações designadas de caíques. “Os cuícos são uma mistura de muitas coisas: alentejanos, espanhóis e ciganos”, sublinha MAR.Apresentar-se como Cuíca no título do seu álbum de estreia não estava nos planos, mas uma conversa com o seu companheiro — o também músico Kasha, dos D.A.M.A, que participa no disco, na faixa Livro Aberto — acabou por resultar numa certa revelação. “O Kasha estava a perguntar-me como se chamavam as pessoas de Monte Gordo e achou que Cuíca era uma grande palavra, um grande nome para o projeto. Eu disse que não, não era nada. Aquilo causou-me uma certa rejeição e percebi, logo a seguir, que essa era a razão pela qual tinha de se chamar Cuíca. Porque a palavra tem um certo toque pejorativo. Apesar de o cuíco ser muito orgulhoso, há ali um julgamento, sempre carregámos isso, era utilizado de forma pejorativa pelas pessoas das vilas ao lado.”MAR apercebeu-se de que precisava de ressignificar o termo, de lhe retirar quaisquer contornos depreciativos, e assumir-se plenamente como aquilo que é (e sempre foi): uma cuíca de Monte Gordo. A artista descreve uma terra de gente “rija” que leva uma vida “dura”. “Estamos ali a trabalhar o verão todo, para pouco, para nada. A pescar de madrugada… São pessoas que têm mesmo de trabalhar e há ali uma dureza lixada. É um sítio muito pequeno, meio perdido, ali num canto. Até as coisas se terem desenvolvido, estamos a falar mesmo de um sítio meio selvagem, havia muita pancada. Aquilo deu-me outra visão sobre a vida.”
Começou a ajudar no restaurante da família ainda em criança, aos 12 anos estava a servir às mesas durante um verão inteiro. “Não há folgas, é todos os dias de manhã à noite, e o que se faz tem de durar o inverno”, aponta, destacando a sazonalidade típica da região, que provoca uma série de precariedades socioeconómicas. “Só íamos às compras de roupa uma ou duas vezes por ano, porque tínhamos de ir até Faro, era uma verdadeira excursão. A minha mãe também não tinha carro, como muitas outras famílias. Por isso é que continuo a usar os ténis até abrir a sola”, brinca.Cresceu numa casa onde se falava castelhano, onde se ouvia música espanhola, embora tivesse outras paixões musicais — das divas pop como Britney Spears ao metalcore e screamo, passou por diferentes fases até dar os primeiros passos como cantora. Tinha apenas 11 ou 12 anos quando começou a gravar covers que publicava online — a primeira foi uma versão de um tema de Katy Perry. Pela mesma altura, apaixonou-se pelo universo R&B e hip hop da viragem dos anos 90 para os 2000, com as produções pulsantes de Timbaland, Missy Elliott ou Pharrell Williams. Acabou por se juntar, espontaneamente, a um núcleo local de jovens artistas mais ligados ao hip hop, vários dos quais agrupados numa editora independente. O ilustrador hoje conhecido como Another Angelo — que assinou os grafismos de Cuíca — foi o principal catalisador nesse momento tão seminal.










