Seremos todos Nick Cave?
▲“O Nick Cave é uma espécie de artista total do nosso tempo”, reforça o diretor artístico do TEP, Gonçalo Amorim. E, mesmo quando se brinca com a figura, ela não deixa de ter “uma aura magnífica”
@José Sérgio
Ainda de fato, pouco depois de um ensaio, Amorim explica que “a peça não é propriamente sobre o Nick Cave, é mais sobre a complexidade da existência, principalmente quando estamos na área das artes, do teatro; jogamos com sombras, com espectros, com ideias de futuro, com ideias de nós mesmos”. E continua: “Andamos sempre um bocadinho neste sítio, com a agravante de que são figuras um bocadinho trágicas, porque não são uns grandes imitadores do Nick Cave; fazem o melhor que podem, mas também são uma espécie de arquétipos de uma sociedade demasiado preocupada com querer parecer sempre alguma coisa”.
Os outros atores são Ivo Alexandre, João Miguel Mota, Rodrigo Santos e Ana Brandão. Esta última dá corpo a uma mulher do norte (isso transparece no chorrilho de palavrões), atriz de profissão, que se candidata àquele papel porque precisa de pagar as contas. A etiqueta do fato, à mostra, é sinal de que pretende devolvê-lo à loja.No início do espetáculo – circunscrito a uma sala de espera impessoal, como que suspensa no tempo –, nenhuma das personagens quebra o silêncio. Porém, com o passar das horas, a partilha de um pacote de snacks e uns cochichos, as características pessoais e motivações de cada imitador vão aflorando. Surgem passos de dança e desabafos. Vai-se da devoção ao cinismo. Alude-se à caverna de Platão e ao filme A sombra de Deus. Esboça-se um retrato fragmentado de Nick Cave, esse “tipo inquieto”, “criador solitário”, “magro e triste quanto baste”; também um “gajo influente e complexo, com um ego do c*****o”, que “tem um sucesso do c*****o a cantar baladas” (aqui, a personagem é facilmente identificável). Aponta-se ainda ao “lado selvagem” do “menino bem”, filho de professores, que nasceu em 22 de setembro, “mesmo na fronteira de Virgem; mais um dia e seria Balança”.










