CIÊNCIA

Do fado ao NOS Alive: o desafio de Diana Vilarinho


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Ao vivo, na Rádio Observador.
Eu queria cantar em tom feliz. Sobre o tanto que a vida dá. Mas vem sempre uma perdiz. Com notícias dum país. Que em choro dormirá. Eu que guardo em contos de amor. Tantas graças e alegrias. Ponho em vestes de condor. Ranjo os dentes em rancor. Pra cantar sobre injustiças. Que a janela traz aos olhares felizes. Todo o mundo e seus deslizes. E há quem escolha a ilusão. De que o mal é só de uns e não de todos. Acontece sempre aos outros. E é só na televisão. E eu que hoje vi o sol nascer. Pela fresta da portagem. Dei o luto aos pardais. Que eles já não voam mais. Para onde não há nada. Peço à noite que venha apagar. Cada sombra e seu rastilho. Porque o corvo há de pairar. Numa terra doutro mar. Onde hoje morre o frio. Que a janela traz aos olhares felizes. Todo o mundo e seus deslizes. E há quem escolha a ilusão. De que o mal é só de uns e não de todos. Acontece sempre aos outros. E é só na televisão. Que a janela traz aos olhares felizes. Todo o mundo e seus deslizes. E há quem escolha a ilusão. De que o mal é só de uns e não de todos. Acontece sempre aos outros. E é só na televisão. E cai um beija-flor. Deitado ao chão.
Diana Vilarinho é nossa convidada no ao vivo desta semana da Rádio Observador. Muito obrigado por teres vindo.
Obrigada eu pelo convite.
Principalmente numa altura interessante, em que já temos cá fora “Uma Carta Escrita”, o teu novo disco, e também daqui a alguns dias vais estar no palco fado do Festival NOS Alive. Se calhar começaria por aqui, porque atuar num festival da dimensão do NOS Alive parece-me também um desafio, vindo de um ambiente que o fado está mais habituado a ser mais íntimo, diria, das casas de fado e dos teatros. Como é que se prepara um repertório para cantar fado para uma audiência que até se calhar está mais ali para ver rock e pop do que propriamente fado? Sentes que o público do festival estará mais também permeável a ser surpreendido nesse palco fado?
Eu sinto que sim, imagino que sim, até porque eu sinto que as gerações mais novas estão cada vez mais interessadas no fado. Portanto, eu acho que isto é uma vantagem pra nós que trazemos este estilo musical tão diferente da temática deste festival. Eu acho que mais não seja por curiosidade, as pessoas param e ficam um bocadinho a ouvir. É um festival, portanto, tem muitos outros palcos e o público vai rodando pra que o público consiga chegar um bocadinho a todos. Ainda assim, acredito que há sempre alguma curiosidade e eu fico muito contente, primeiro em fazer parte deste festival, porque acho que esta iniciativa de inserir este estilo musical, que à partida é muito pouco provável se inserir neste contexto, mas que ainda assim aconteça e que o fado esteja presente. Portanto, estou muito contente poder participar e fazer parte. No fundo, o que nós vamos fazer no nosso alinhamento é dentro dos temas que temos e principalmente apresentando este segundo disco. Vamos tentar, de alguma forma, trazer os temas que nos parecem um bocadinho mais possíveis de se adaptar à circunstância. Portanto, eventualmente, se calhar, não trazemos o fado mais tradicional possível ou o fado mais triste, por assim dizer. Vamos tentar que hoje também seja um ambiente de festa, porque estamos efetivamente num festival.
Claro!
Mas é sempre encontrar um meio-meio pra que também conheçam efetivamente o que o fado é e como ele é.
Falemos um bocadinho deste “Uma Carta Escrita”, numa era que é tão digital, de mensagens instantâneas e depressa, em que tudo é muito rápido. Dar um título a este disco também sugere uma espécie de manifesto de intimidade e de maior lentidão. Para quem é que estás afinal a escrever esta carta?
Eu escrevo esta carta quase como um diário. Este disco surge numa altura em que eu decido que não me apetecia cantar sobre amor, que me apetecia muito mais, e sentia alguma necessidade, de certa forma, em cantar algumas inquietações que tenho vindo a sentir nos últimos anos. Portanto, este disco tem 11 temas em que todos eles, eu diria, ou pelo menos a grande maioria, têm temáticas diferentes, mas sempre nesta visão de várias inquietações que eu fui tendo. Portanto, servem como desabafos. É escrever quase que num diário. Num pensamento ou numa tentativa de pensar em voz alta, neste caso, de pensar enquanto canto. E surge exatamente dessa forma, traz uma influência grande por trás e, por consequência, homenageio também a minha avó, que é um ponto de partida para que algumas peças se liguem, porque no meio destas inquietações percebi que histórias de vida que têm muitas inquietações, é a da minha avó. E a verdade é que a história de vida dela sempre me serviu como exemplo e referência.
É por isso que escreveste “Pamplona 1978”, que vamos ouvir daqui a pouco.
Sim, esse tema fala sobre precisamente a história de vida da minha avó e, na altura, a minha avó é nascida e criada numa aldeia de Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes. Com nove filhos, a dada altura, muito comum na época, o marido era um marido difícil, que como muitos outros homens achavam que era normal desvalorizarmos o papel da mulher. E a dada altura, a minha avó decidiu não aceitar mais esse posicionamento e decidiu fugir para Pamplona.
Em 1978.
Exatamente. E levou alguns filhos, todos eles já têm nacionalidade espanhola, todos os outros depois nasceram e foram criados por lá. Esse é o sítio e o ano para onde ela foi.
“Onde Não Há Nada”, foi a canção que ouvimos há pouco, da Mimi Froes, e olhando aqui para a ficha técnica deste “Uma Carta Escrita”, vemos aqui nomes: Salvador Sobral, Joana Espadinha, Sérgio Godinho. Depois também vais buscar compositores contemporâneos e poemas de Alexandre O’Neill, Natália Correia, de Maria Teresa Horta. Há aqui uma mescla entre uma nova geração e uma geração já mais conceituada. Como é que foi o desafio de interpretar canções escritas e que vêm de universos que parecem que são bastante distintos uns dos outros?
Essa para mim é das fases mais bonitas do processo. E eu acho que é uma vantagem no fado também, e uma prova de que efetivamente o fado não pode morrer, porque tem esta capacidade de se adaptar àquilo que parecem extremos opostos, como compositores contemporâneos e poetas consagrados. Portanto, deixa-me muito contente que isso tenha acontecido. Eu parti do princípio que iria neste disco me sentar com compositores contemporâneos e partilhar um bocadinho da intenção.
Como é que foi esse trabalho com esses em particular? Tiveste de alguma forma que, entre aspas, fadistar as composições que eles te fizeram chegar ou não?
Sim, eu acho que temos sempre que afadistar um bocadinho, mas não é uma coisa propositada. Eu acho que quando aquele compositor nos entrega a canção, quando é cantado por uma fadista e tocado por três músicos de fado, vamos sempre, querendo ou não, afadistar a coisa. Portanto, são efetivamente canções e não fados. Ainda assim, estes compositores, Salvador, João Espadinha, Joana Espadinha, Mimi, estão de alguma forma muito próximos ao fado também e mesmo não pertencendo de forma direta, eles conhecem muito bem a linguagem e sabem muito bem como é que o meio funciona, por assim dizer. E quando me trazem estas canções, eu sinto, de uma forma muito óbvia, que têm sempre um espírito afadistado e que depois se concretiza quando nós cantamos e tocamos concretamente. Mas vem exatamente neste processo de me sentar com eles e de partilhar com eles algumas destas inquietações e depois permitir que a criatividade de cada um-
Que a pena deles.
Sim, também.
Que a caneta deles vá a esse encontro. Diana, tenho uma pergunta que pode ser um bocadinho mais complicada, que é: se tivesses de escolher um selo para colar nesta tua carta escrita antes de a enviares para o teu público e se calhar até para o público do Nós Alive, que é com quem vais estar mais brevemente, que imagem é que estaria desenhada nesse selo?
Uma imagem? Que bonito, lá está, coisa de tecnologia, já não vejo há muito tempo essas cartas com o selo.
Claro.
Não sei.
Pensaste nessa imagem, por exemplo, na composição gráfica do teu disco, as fotos que tiraste ou o tipo de imagem que projetas também com este disco?
Sim, as imagens deste disco não foram concretamente muito diretas sobre a temática do disco, foram para me apresentar a mim, para que as pessoas de alguma forma me conhecessem.
Podias ter um busto da tua avó nesse selo.
Isso era incrível. Eu ia para uma coisa mais básica, mas vou adotar essa, porque é muito mais giro.
Fica vendido.
Perfeito.
Obrigado, Diana Alvelino veio ao ao vivo desta semana aqui da Rádio Observador. Vamos também ouvi-la agora em Pamplona 1978, com o Bernardo Saldanha na viola e o Bernardo Couto na guitarra portuguesa, a quem agradeço também terem vindo aqui e podem vê-la, estava aqui a confirmar, no dia 9 de julho, no palco Fado Café do Festival Nós Alive. Muitos parabéns por este disco e obrigado por teres vindo.
Obrigada eu. De olhos azuis transparentes, brava e firme como a terra. Vinda de longe, de trás da serra, mãe das mães da minha gente. Fugiu em noite violenta, prisão aberta sem grades, pra longe de estranhas verdades, fugiu da maior tormenta. Sangue do meu corpo, da minha história a raiz e por cada cicatriz, um rumo pra outro porto. Tem olhos azuis de dor, que de mim andam cientes. Esses olhos transparentes são estrelas brilhantes de amor. Tem rugas que contam vidas, a sua, a de outros também. Mãe da minha mãe, mulher sem medo de feridas. Sangue do meu corpo, da minha história a raiz e por cada cicatriz, um rumo pra outro porto. Sangue do meu corpo, da minha história a raiz e por cada cicatriz, um rumo pra outro porto. Sangue do meu corpo, da minha história a raiz e por cada cicatriz, um rumo pra outro porto.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.

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