José Luís Carneiro é especialista em escavar buracos?
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“You Vence Doré”, na Rádio Observador e em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com o Alexandre Borges, o Anselmo Crespo e o António Costa. Vamos falar sobre Venezuela, Ronaldo, também se fala de futebol por aqui no “You Vence Doré”. Também vamos falar de Amália, mas começamos pelo Zé Luís, Anselmo.
Começamos pelo Zé Luís.
Ronaldo, Amália, Zé Luís.
Zé Luís, o construtor.
Zé Luís Carneiro.
Ora bem, há uma velha máxima que diz que quando estás a escavar um buraco e não consegues chegar ao outro lado, o melhor é parar de escavar. E eu acho que José Luís Carneiro devia seguir essa máxima, porque esta patetice, que não tem outro nome, da história das casas que dura há uma semana e que, felizmente, o país não parou por causa disso, porque está parado por coisas bem mais importantes, nomeadamente a seleção e a onda de calor. Podia ter sido só um tiro no pé, toda a gente seguia em frente e não acontecia mais nada. Mas José Luís Carneiro acha que tem que insistir ou tem que tentar sair minimamente bem disso. E quando eu escolhi este tema, estava a ater-me, sobretudo, às últimas declarações de Sebastião Bugalho, quando veio explicar para que essas casas que o José Luís Carneiro foi mostrar serviam, que seriam casas de abrigo, já agora, para lembrar, seria alojamento urgente e temporário, nomeadamente para vítimas de violência doméstica, por exemplo, ou para situações deste gênero, e que era essa a explicação para as casas estarem vazias. Ora, já seria estranho que José Luís Carneiro não soubesse isso, sendo o PS um partido da dimensão que é, tendo uma capilaridade no país que tem. Aliás, o artigo do Observador e o trabalho que o Observador fez, eu presumo que seria o trabalho que José Luís Carneiro ou a equipa de José Luís Carneiro deveria ter feito.
Falar com os autarcas.
Que era falar com os autarcas locais, se calhar alguns até são do Partido Socialista, portanto, não deve ser difícil arranjar o número de telefone deles, e tentar perceber exatamente qual era a explicação antes de virem prestar declarações públicas sobre isto. Não uma, não duas, não três, mas quatro ou cinco vezes, o líder da bancada parlamentar do Partido Socialista, o próprio secretário-geral do Partido Socialista, que andaram uma semana nisto. Feita a explicação por parte do porta-voz do PSD, eu pensei: “Pronto, o PS vai tentar sair disto fininho, reconhecendo que cometeu aqui um erro e vai tentar que o assunto morra.” Eis não quando, hoje à tarde, eu recebo uma nota de esclarecimento sobre as habitações de Azinheira dos Barros. Por parte de quem? Do Partido Socialista. Diz esta nota: “Na sequência da visita do secretário-geral do partido às habitações de Azinheira dos Barros e tendo surgido algumas dúvidas sobre o enquadramento deste processo, importa esclarecer que as 10 habitações se encontram, neste momento, enquadradas no programa Primeiro Direito.” Portanto, ao fim de uma semana, o Partido Socialista descobriu, finalmente, onde é que estavam estas habitações. E depois explica que inicialmente, de facto, estas habitações estavam inseridas na tal Bolsa Nacional de Alojamento Urgente e Temporário, mas que como não houve condições por parte de nenhuma IPSS para assegurar a ocupação destas habitações, elas foram transferidas para o Primeiro Direito. Ora bem.
Isto é no Conselho de Grândola.
No Conselho de Grândola. Como é que o PS sai disto? O objetivo continua a ser o mesmo, diz o Partido Socialista: contribuir para que estas habitações sejam rapidamente disponibilizadas para quem delas necessita. E foi esse, diz o secretário-geral, o objetivo do PS.
Mas não começou exatamente assim. Todo este processo não começou exatamente assim.
É exatamente esse o ponto. Nós não andamos todos aqui acenolados com a testa. Tenham algum respeito intelectual pelas pessoas. O Partido Socialista, a única forma que tinha de sair disto era reconhecer que cometeu um erro. Era só isto. Mas o Partido Socialista não acaba aqui. Diz: “Na próxima semana mostraremos mais casas concluídas e fechadas.” Portanto, teremos mais comentário.
António.
Eu acho que, obviamente, é um ato falhado, a partir do qual agora há muita dificuldade em sair. Portanto, percebe-se que o secretário-geral socialista vai tentar transformar isto numa análise mais macro sobre o problema do país que não tem casas e das casas que necessitam ser construídas, tendo que começar de facto pelo pior sítio, porque obviamente é muito mau que tendo apontado casos e dizendo: “Eu tenho conhecimento, eu vou demonstrar casos”, que não tivesse feito o trabalho de casa, identificando exatamente os casos e as condições em que eles estavam.
Não, António, desculpa, com a acusação de que as casas estavam a ser guardadas para um momento eleitoral.
Eleitoral.
A acusação política inicial é esta.
E insiste. No dia em que José Luís Carneiro falou nisto a primeira vez, falámos disto aqui.
É verdade.
E eu disse: “Se isto é eleitoralismo, é completamente incompetente. Despeçam estas pessoas. No último ano e meio, o que não faltou foram eleições pra aproveitar isto. E tinham ficado caladinhos à espera destes três anos em que não se vai passar nada.” Portanto, não se compreendia. E ficámos à espera de ver onde eram as casas. Além de serem estas que o Anselmo explicou, é todo um louco total de 14 14 habitações. O que tu fazias com isto? O que tu resolvias com isto?
Em Grândola.
Exatamente, 10 em Grândola, em Azera dos Barros.
Respeito pelas pessoas que precisam de casa em Grândola.
Exatamente, que eu confesso que inacreditavelmente conheço Azera dos Barros. Estive lá há 15 dias e lembro-me que já há dois anos. As pessoas de lá sabiam para que serviam aquelas casas. Portanto, é absurdo que o José Luís Carneiro não soubesse, porque tinha esta coisa que não costumamos ouvir falar disso. Quer dizer, alojamento temporário para vítimas de violência doméstica, como o PS depois disse.
Por regra, tem de ser alojamento discreto.
Exatamente. Portanto, naquele local pequeníssimo, as pessoas sabiam disto.
E toda a gente sabe onde é.
Mas fora, claro que ninguém sabia. Isto fazia sentido, agora sabemos. E depois quatro casas em Vila Velha de Ródão, onde o presidente da câmara também é do PS, não alinha na teoria do PS e explica que o atraso se deve apenas às burocracias do costume, típicas do país, e que se lamentam, em todo o caso. E dessas loucas quatro de Vila Velha de Ródão, na verdade, duas ficaram prontas em fevereiro. Portanto, em fevereiro, quer dizer, há quatro meses. E está o José Luís Carneiro indignado com isso.
Fosse esse calendário, esse tempo nosso problema, ao invés de deles.
Exatamente.
Vamos ter mais casos para a semana. Queres dar uma nota a isto, Alexandre, Anselmo?
Eu dou um quatro destas casas de Vila Velha de Ródão.
Eu vou no quatro também, mas o conselho é para descavar.
António?
Mais do que uma nota, fica a nota. É um conselho, de facto. Antes de voltar ao tema, é preciso estudar.
Vamos deixar o Ronaldo e o futebol para a segunda parte de “O Vencedor é…”. Agora vamos falar de Amália. Será que a Amália nos safa? António.
A Amália é uma boa iniciativa.
Estou-te a sentir um pouco desiludido com a Amália.
Não, a Amália, o projeto de inteligência artificial não tem culpa nenhuma.
Não a senhora dona Amália.
Não, não é a senhora dona Amália, mas o projeto de inteligência artificial desenvolvido pelo Técnico e com mais um conjunto de universidades portuguesas, institutos, não tem problema nenhum. Não é a Amália projeto que tem problema, é a forma como a política estraga os bons projetos. Convém recordar que ele foi anunciado em 2024 como o ChatGPT português. À data, quando isto foi anunciado, admitamos aquele voluntarismo e entusiasmo do Web Summit, do país todo mobilizado. Foi anunciado o estonteante investimento de € 5 bilhões. E nós percebemos, obviamente, que quando estamos a olhar para operações de capital, não dos Estados Unidos e da China, mas dos Estados Unidos, de aumentos de capital de milhares de milhões, de centenas de milhares de milhões de euros, da OpenAI, da Anthropic, nós percebemos que obviamente isto pode resultar muito bem num título, ChatGPT português, mas o projeto não tem nada de ChatGPT. O que não tem mal nenhum, porque nós temos a nossa escala e, portanto, obviamente, isto servirá para muita coisa, mas não é um chat com o qual nós possamos interagir e fazer perguntas. Nestes dias, o projeto Amália foi apresentado esta semana, e bem. Estuda língua, alguma informação pode ser útil, mas obviamente, tendo em conta como foi apresentado, há quem se tenha entretido a fazer perguntas à Amália, como se faz ao ChatGPT, como se faz ao Claude. Obviamente que as respostas são tudo menos as que se podem esperar de um chat que funcione em condições. Mas a culpa não é da Amália, porque não é suposto ser um chat que responda a perguntas.
Então serve para? Já agora, se puderes ajudar a explicar.
Tem funções de desenvolvimento e investigação. Para desenvolver de base os chamados LLM, Language Models, Large Language Model, para fazer trabalho de desenvolvimento para outros produtos, para terceiros produtos de desenvolvimento, imediatamente para a investigação, para as faculdades, para empresas que possam querer trabalhar nisto. Não vale a pena é, como se viu nestes dias, o Luís Montenegro anunciar que estamos no centro do mundo com o desenvolvimento tecnológico. Creio que fez um tweet também nesse registo por causa do Amália. Porque é deslocado, porque nós não comemos gelados com a testa, como gosta de dizer o Anselmo, e porque destrói um projeto que é interessante para a comunidade científica portuguesa à escala do que nós temos e do que podemos e do capital que temos. Vamos lá ver, nós estamos a discutir a Europa, não é Portugal. A Europa está muito longe dos investimentos massivos dos Estados Unidos, das empresas americanas e das empresas chinesas. Ora, Portugal está ainda mais longe. Estamos longe de Bruxelas. Estamos muito longe de Berlim, estamos muito longe de Paris, estamos muito longe de Londres. Estamos a milhares de quilômetros de distância de Nova Iorque, de San Francisco e de Pequim. Não vale a pena venderem-nos gato por lebre. Por quê? Porque destrói e faz com que o país ande a brincar e a glosar com um projeto que é importante e que acaba por perder credibilidade sem necessidade. Eu dou um seis, não é à Amália, é aos políticos que vendem o que a Amália não é suposto dar.
Antes de mais, se ela se devia chamar Amália, para ser Amália mesmo, devíamos perguntar: quem foi o primeiro rei de Portugal? E ela dizia: “Já não me lembra, já não me lembra. Obrigada.”
Muito obrigado.
Depois, de facto, há uma atitude assim um bocadinho, não sei bem o que lhe chamar sem ser ofensivo. Tonto vá agir como se fosse um projeto português, quando ela realmente custa 5 milhões, porque é uma adaptação a Portugal de um projeto europeu que se chama Euro LLM 9B, tem este nome catchy, rolls off the tongue, como se diz. É difícil, mas 9B será baseado em nove bilhões de parâmetros. É o projeto europeu de ter um modelo de linguagem de grande escala como os americanos, e que é trabalhado no conjunto das línguas europeias, no conjunto da cultura europeia. São 35 línguas, 24 línguas europeias, mais 11 do mundo. Que depois em cada país tende a encontrar a sua própria versão pra cumprir a tarefa a que se propõe. Justamente ser fiel a cada uma das culturas e não uma versão americanizada do pensamento e américo-cêntrico. É aqui que está. Essa investigação levou apenas 18 meses cá. É claro que nunca se faria uma coisa de arquitetura destas de raiz, de outro modo, e vai continuar essa investigação, de fato, pra quem a queira usar. E em princípio, acredito eu, é esta a base, se tudo correr bem, da reforma do Estado que Gonçalo Matias quer fazer, porque a ideia é que isto esteja- Sim, disponibilizado pra serviços públicos. Repara, o Instituto Superior Técnico, a Universidade de Coimbra, a Universidade de Minho, a Universidade do Porto. Centenas de investigadores. Há trabalho sério feito nisto, não é uma brincadeira. Agora, a política estraga isto.
Eu pego exatamente por isso que o António estava a dizer, que eu não quero menorizar este trabalho, eu acho que ele é importante. Acho que é importante, sobretudo, começar por algum lado, tendo em conta o atraso tecnológico da Europa nesta matéria. Eu registo apenas que, ao contrário do que está acontecendo nos Estados Unidos, a China não é comparável, até porque tem uma outra lógica, e já agora, não é propriamente uma democracia. Nos Estados Unidos, a preocupação é criar condições para que os privados, as startups e a iniciativa privada possam ter condições para desenvolver este tipo de tecnologias e possa inovar. E na Europa, isto parece tudo muito a reboque dos Estados. Já que os cérebros que existiam na Europa fugiram todos pros Estados Unidos, parece que têm que ser os Estados a dar um empurrão. E depois, acontece isto que o António sublinhava bem no início, que isto transforma-se em marketing político. Nós sabemos que o marketing faz parte da política, mas acaba por cair um bocadinho no ridículo. E é sobretudo arriscado, porque daqui a uns tempos vamos andar todos a perguntar onde é que andou o Amália, e de facto, qual foi a evolução do Amália, e o feitiço virar-se contra o feiticeiro e portanto era o chamado não havia necessidade.
Alexandre Borges, tu queres falar sobre o dilema de um homem só? Quero. É muito chato se eu começar pela Venezuela? Estrago teu alinhamento? Não. Então, começava pela Venezuela porque- Eu dou liberdade criativa. Espanta-me. E és célebre por isso. Sim, é verdade. Choca-te que eu tivesse duvidado. Não, obrigado. É porque esta semana, muitos de nós terão acompanhado a notícia, mas também muitos correm o risco de, entre futebol e incêndio em Santa Clara, não ter reparado bem na história épica da equipe portuguesa, que em conjunto com um consórcio de equipes internacional, mas com um papel muito especial nesse trabalho, salvou um homem na Venezuela que estava enterrado há mais de uma semana, debaixo de 140 toneladas de escombros, na cabine do estacionamento de um centro comercial que ruiu. Tudo isto é impressionante. E essa equipe portuguesa, Força Operacional Conjunta, encontra primeiro a equipe costarriquenha, que consegue perceber que está ali alguém. Já agora, também tem este detalhe um bocadinho vulgar na história, se calhar, aquilo que nós habitualmente vemos de meritório em Portugal, que começou por ter a ver com tecnologia. É o sensor levado pela equipe portuguesa que é capaz de localizar com precisão onde é que estava aquela pessoa ainda viva. Portanto, começa por aqui. E depois esta equipe, em conjunto com os americanos, costarriquenhos, salvadorenhos e mais uma nacionalidade ou duas, vai estar três dias a trabalhar no resgate desta pessoa, pra tirá-la de lá, já agora, inteira, sem que tudo desmoronasse sobre ela, e consegue retirar, é só o 13º resgate que acontece neste processo, ainda por cima, de algum modo simbólico e belo nos tempos que vivemos, porque é um processo de cooperação internacional, que tantas vezes tem faltado, e num país onde o Estado, particularmente, está a falhar no socorro a estas pessoas. A Força Operacional Conjunta é composta, já agora, por algumas equipes que às vezes ficam debaixo de fogo cá, literal e metaforicamente. Pela Proteção Civil, pela GNR, pelo INEM, pelos Sapadores de Lisboa, um total de mais de 60 operacionais e cães. Levaram seis cães daqui, transportados pela Força Aérea Portuguesa. E depois, onde é que estas duas histórias, onde é que os temas se ligam? Onde é que as duas equipes se ligam? Exatamente. Fazendo aqui primeiro o elogio da equipe, pra depois chegar onde eu gostaria de chegar. Há um detalhe curioso ou pitoresco da história, que é quando a equipe portuguesa consegue estabelecer contato com o Hernán Gil, o nome da vítima. Identificam-se, de onde são, aparentemente isto é procedimento típico. Começam a conversar com ele, dizem: “Ok, nós somos fulano e tal, estamos aqui pra te retirar e somos de Portugal.” E Hernán Gil, quando ouve isto, diz: “Cristiano Ronaldo.” E ele jarrinha e tal e dizem: “Sim, Cristiano Ronaldo. Sabes o grito de guerra dele?” E ele responde lá debaixo dos cobertores e diz: “Sim”. E a história é bonita e tocante, sem dúvida. E diz isto bem ao vento do símbolo que é Ronaldo e do que representa. Enfim, dito isso, passamos para a segunda parte. Não querendo discutiri futebol, não falta na Rádio Observador gente mais habilitada a fazê-lo. Gosto de olhar para o fenómeno sociológico, de facto, e a propósito do jogo de ontem à noite e do que percorre tudo isto ao longo destes dias do mundial. Acho que temos assistido a um fenómeno curioso com o Ronaldo, a que chamaria de ronaldismo. Esse fenómeno vem muito de trás, mas que nos colocou perante uma coisa que eu nunca tinha visto, que é uma espécie de sebastianismo invertido. Porque é a primeira vez. Reparem que Portugal tem em grande parte o sebastianismo.
É a primeira vez que nos queremos livrar de um-
Exatamente, de um messias
…de um messias.
Nós até hoje estamos sempre à espera do homem providencial, que ele chegue. É a primeira vez que nos vemos perante o dilema do: “Eu quero que o homem providencial vá embora”. E não para que venha outro. Isto é muito novo na nossa cultura, não para que venha outro, mas para deixar o coletivo funcionar.
Isso é espetacular.
Não é? Isto é extraordinário.
É o anti-messianismo.
O anti-messianismo. E nós enfermamos deste mal há séculos. O Ronaldo é só a última contradição.
Somos alemães, na verdade.
Achas que somos?
Não, estamos a caminhar para aí.
Estamos a caminhar para aí.
Já não queremos messias. E estamos a apostar no coletivo.
Eu acho inacreditável não haver tremoços para continuarmos esta discussão.
Continuamos esta bela conversa. Continuas a manifestar. Eu sinto que isto vai acontecer. É engraçado que, para quem não está a ver, o Ricardo manifesta isto e olha para a nossa produtora. A tentar que o universo entenda.
Acho que não está a entender.
Acho que não está. Visto daqui, não está a entender.
Mas Ronaldo é só a última materialização disto. Nós fomos isto desde o princípio, os Afonso Henriques, os Viriatos, os Nuno Álvares Pereiras. Nós temos culturalmente qualquer coisa muito difícil quando comparado com outros países, que não é só a Alemanha. A China sendo o exemplo máximo. A China é o coletivo, o indivíduo não importa coisa alguma. Mas há muitos países onde o grupo, a tribo, particularmente representa, na Alemanha e em muitos outros sítios, a ideia da equipa. E de facto, em Portugal, nós temos, no caso concreto, Ronaldo alimentado uma ideia que nem sequer se deve ensinar às crianças, que é dizer que há aqui alguém que está acima do coletivo. E portanto, de repente, nesta cisão que agora se passa, eu serei rapidamente acusado de meio-dia qualquer. Alguém tocar neste assunto, estávamos aqui a conversar no intervalo, ou se é pró ou se é contra. É muito difícil observar o fenómeno de fora, mas alguém imediatamente vai dizer: “O Ronaldo, como podes? Tanta coisa que nós devemos ao Ronaldo”. Sobre esse aspeto em particular, nós também devemos imenso ao Carlos Lopes. Devemos imenso ao Carlos Lopes. E não levamos o Carlos Lopes aos jogos olímpicos.
Não é bola. António, há uma coisa que é certa.
Parece que é o último tango. Há uma coisa que é certa, parece que é o último tango.
Sim, parece que é o último tango.
Última dança.
Última dança. Cátia Aveiro ontem não sei se falou demais ou não.
“The last dance”.
Sim, falou da última dança. Mas há uma divisão nacional.
Isso é óbvio.
Mas é uma coisa-
Sejamos honestos. Ele transformou-se nessa dimensão messiânica pela sua própria competência e qualidade. Não foi exatamente o país que o transformou nisso. Obviamente, temos nós todos coletivamente essa responsabilidade de ter encontrado aqui um nome, mas a verdade é que não somos só nós. Isso também nos pode valer alguma coisa. Nós vemos todos os dias, nas imagens de televisões que nos chegam dos Estados Unidos, provavelmente mais não portugueses do que portugueses com a camisola do Ronaldo.
E que têm dinheiro para ir ao estádio ver o jogo.
Mas mais, vídeos daqueles vídeos partilhados, famílias de todas as partes do mundo com as crianças, os miúdos a gritarem por Portugal e a festejarem gols e Portugal por causa do Ronaldo. Portanto, ele próprio transformou-se nessa dimensão. A discussão que se pode ter, que eu diria mais responsabilidade nossa, de quem lidera, é como é que se faz este phasing out. E o phasing out está a ser feito de tal forma que é um bocado como nas empresas, não é muito diferente.
Quando o próprio não está a promover isso.
Como é que se faz esta transição? Como é que se prepara o próprio e a organização? Isto falto numa empresa. Olha, é um bom tema para tu falares com os teus convidados.
Já falei disso várias vezes no “Querido Líder”. É um belo programa.
Mas para falar de Ronaldo.
Exato.
Neste contexto.
É o Amália do Ricardo.
A Amália do Ricardo é o Ronaldo.
Não estamos a saber preparar, e é no projeto de jogo, no modelo de jogo que Portugal tem, que anos após anos, é sucessivamente montado em torno da existência daquele jogador a jogar naquelas características. Já ouvi colegas nossos dizer: “O problema não é o Ronaldo, o problema é que não estamos a adaptar”, colegas jornalistas e comentadores, “a adaptar o modelo e, portanto, temos que mudar o modelo para adaptar”. Ele já não está, obviamente, com as suas faculdades físicas, que eu considero um atleta superior, de facto, até mais do que um jogador de futebol no sentido da habilidade que outros tinham. É um atleta completo.
Tem 41 anos.
Mas sim.
Posso dizer, tomara eu aos 46.
Não, mas sempre foi.
Ter o que ele tem aos 41.
Tomara eu aos 20.
Mas sempre foi um atleta, mais do que um
Jogou de futebol no sentido mais artístico do tema. Foi um atleta, sempre, e continua a ser. E o problema do país é esse lado de transição que eu acho que me preocupa e que é refletido neste tema do Ronaldo.
Anselmo.
Eu acho que há duas marcas do país que se refletem na discussão em torno do Ronaldo, como se refletem em muitas outras discussões. Uma é o provincianismo e outra é a inveja, que eu acho que depois faz com que seja muito difícil ver de fora ou ter um debate visto de fora. Eu, sendo adepto de futebol, não sou propriamente o adepto doente. Já fui, passou-me. Mas parece-me relativamente evidente que: um, Cristiano Ronaldo ainda é importante para a seleção portuguesa enquanto marca, também enquanto jogador.
Enquanto jogador, sim.
No outro dia, acho que até foi aqui na Rádio Observador, ouvi que um jogo particular da seleção portuguesa com Ronaldo ou sem Ronaldo é a diferença de 1 milhão de encaixe. Portanto, enquanto marca, é obviamente relevante.
Enquanto jogador, no campo, também.
Mas isto não invalida. E é importante enquanto jogador no campo, agora, não invalida que seja mais ou menos óbvio para toda a gente que Cristiano Ronaldo, hoje em dia, por muito bem fisicamente que esteja para a idade que tem e para a carreira que tem, não faça muito sentido estar os 90 minutos em campo ou haver um medo e um receio de o tirar do jogo, com medo que ele amue, como aconteceu ontem, quando ele é substituído. Este é o lado do provincianismo, que nós andamos aqui com medo, e a paparicar, e a adorar o menino como se ele fosse intocável. Não é, é uma pessoa com muitas qualidades, com muitos méritos. Ele é supranacional, eu diria mesmo. Ele, neste momento, não é uma marca nacional, ele é uma marca supranacional.
É muito curioso. Já tens de concluir, Alexandre, mas pegando também no que o António estava a dizer.
Podes deixar o Anselmo e o Alexandre.
Sim. Agora fiquei trocado. Eu ainda vi a primeira parte.
Vêm três que começam com a mesma letra. É que é António, Anselmo e Alexandre, e depois brilha-se com o jogo.
Eu ainda tenho muito a fazer. Ia só recordar aqui uma história.
Diz, Pedro.
Que teve muita graça.
Rafael.
O Miguel Cordeiro, que é o nosso enviado especial aos Estados Unidos, ao Mundial, estava em Houston, à porta do estádio, e estava a tentar, num jornal das 17:00, em direto, fazer aquela coisa que os repórteres fazem: tentar apanhar um adepto. E fez cinco tentativas para apanhar um adepto português. Eles estavam todos de camisola da seleção portuguesa e nenhum era português. Às tantas, levou-me a dizer: “Ó Miguel, procura um que tenha bigode”. E ele disse: “Este último tinha bigode”, mas nem este era. Essa dimensão planetária.
É uma dimensão supranacional, sim, e que transcende o próprio país, mas que eu acho que deve encher o país de orgulho, sinceramente. E o lado provinciano tem muitas vezes a ver com uma outra dimensão, que é: toda a gente é boa depois de morrer. São todos incríveis. Passam todos a ser só qualidades, zero defeitos. Enquanto são vivos, nós andamos aqui numa coisa que muitas vezes resulta da inveja. A inveja não é necessariamente a inveja material de que eu falo. Falo de uma inveja mesquinha, de uma certa mesquinhez que existe.
Uma mesquinhez.
Que eu acho que é quase inerente à condição humana, se quisermos, porque se calhar não é só em Portugal que é assim, se calhar é em todo lado.
Mas cá sente-se particularmente.
Eu acho que cá se sente particularmente. E isto chateia-me por uma razão, porque obviamente o Ronaldo não está acima das críticas, ele pode e deve ser criticado, mas muitas das críticas que vejo são essas críticas que o Alexandre falava há bocadinho, que é uma coisa muito polarizada, muito vivida, muito acérrima, dos que acham que o Cristiano Ronaldo nem sequer devia entrar em campo, devia ficar no banco, ou se calhar nem devia ter sido convocado. E eu acho isso um claro exagero. Como acho um claro exagero aqueles que acham que ele deve estar lá em campo mesmo que esteja coxo de uma perna e cego de um olho. Não faz o menor sentido o debate colocado desta maneira. Ele pode-se dar um luxo que muitos jogadores de futebol não se puderam dar, que foi escolher o timing da saída dele. Se vocês pensarem, há poucos jogadores que chegam a esta idade a jogar o Mundial, e no topo como ele está. E, portanto, apesar de tudo, eu acho que o país deve-lhe mais do que aquilo que ele deve ao país, sinceramente, e acho que o devia tratar com uma outra dignidade, que não trata, sem a subserviência, também, que muitas vezes nós tendemos a ter perante estas figuras.
Alexandre. Sim, não tenho já muito mais a acrescentar a isso. Concordo tirando isso. O Rafael, exato, é verdade, deixa-me voltar aqui. Ninguém me respeita. Se o Ronaldo estava aqui, vocês não estavam a fazer isso. Tudo direitinho.
Deixa-me só acrescentar uma história. Tu começaste com a história da Venezuela e ontem a CNN fez uma conferência onde esteve o ministro da Administração Interna e o presidente da Autoridade Nacional de Proteção Civil. E o presidente da Autoridade de Proteção Civil foi logo o primeiro de manhã e a primeira coisa que ele diz, assim que abre a boca, é: “Tenho uma boa notícia para vos dar. Acabamos de resgatar uma pessoa na Venezuela, a equipa portuguesa”. E à hora que ele diz isso, o senhor ainda não tinha sido resgatado. Ainda lá estava dentro. E eu só pensava: “Ainda bem que foi mesmo resgatado”. Só mais tarde é que ele foi. E à tarde o ministro conta outra vez essa história e diz que quando perceberam que ele era adepto do Cristiano Ronaldo, estou a contar isto porque isto foi numa conferência e é público, ligou ao presidente da federação e tentou organizar uma chamada a três entre o venezuelano que foi salvo, o Ronaldo, e não sei se era o próprio ministro, não faço ideia, uma chamada a três para que o Ronaldo pudesse falar com ele e que estava ali na dúvida sobre o fuso horário e as diferenças horárias, se conseguia ou não conseguia. Mas isso dá bem nota do orgulho que eu acho que, neste caso, foi o membro do governo, mas eu acho que é uma coisa que nos orgulha a todos, é saber que a nossa marca, o nome Portugal, é conhecido lá fora muitas vezes precisamente pelo cartão de visita que é Cristiano Ronaldo.
Sem dúvida. Mas esta questão do saber sair é uma- É fundamental. Eu já pensei para mim que devia haver limitação de mandatos também no futebol. Também levá-la para a seleção, pelo menos. Mas sim, sem dúvida que é muito importante saber sair.
Ele saberá, de facto, pode marcar os seus timings. Na minha modestíssima opinião, poderia já o ter feito, mas é com ele. Agora, há essa cultura que o António também falava e que eu acho que cá, às vezes, reflete de facto até nas empresas. Há muitas vezes aquela ideia: “Quando este fundador for embora, a empresa perde-se. Este lugar houve aquele senhor que fez tudo por esta terra”.
Ou o próprio acha isso também.
E às vezes o próprio. E provavelmente, talvez o próprio ache e talvez tenha cultivado isso. Acho que isso nos está muito entranhado em detrimento da ideia da escola, da regra, do grupo, do que tu deixas e que deve ser superior a ti, que deve continuar.
Obviamente, é sempre mais fácil quando os líderes, ou o Ronaldo, trabalham nessa transição. É mais fácil, torna tudo muito mais fácil.
Exatamente, é isso mesmo. Durante muitos anos, agora parece que já não, mesmo no caso do futebol, era o Figo. Íamos aos treinos, as pessoas falavam do Figo. Antes do Figo, as pessoas diziam Benfica, dizias que eras Portugal, as pessoas viam que era o Benfica. Aí já era um coletivo.
E o Eusébio.
O Eusébio, exato. Era isso mesmo. Mas o futebol é essa linguagem global. Mas é interessante, como o Anselmo agora falava na Marca Portugal. Mas aqui, muitas vezes, de facto, é a marca Ronaldo, realmente, não há dúvida.
Desculpa, Ricardo, há uma outra dimensão que eu acho muito relevante do legado que eu acho que o Ronaldo deixa, que não tem a ver apenas com a prática do desporto, tem a ver com um estilo de vida que ele leva, eu diria, ao extremo, no bom sentido. Ele próprio já deu várias entrevistas a dizer: “Não sejam como eu, porque eu sou maluquinho da cabeça com a dieta e com a alimentação e com os treinos”. Mas há um lado de estilo de vida saudável, que eu acho que também serve de exemplo e de inspiração, ou devia servir de exemplo e de inspiração pra muita gente. Nós normalmente temos muito o tema de os Ronaldos, os Eusébios, os Messis, são aquilo que fazem muitas vezes os miúdos querer praticar futebol, e os pais dos miúdos, que é a parte mais preocupante, acharem todos que têm lá em casa um Messi e um Ronaldo. Essa é a parte um bocadinho mais doentia.
Multimilionários.
Mas pra além da atração pelo desporto, eu acho que há ali também um exemplo de estilo de vida, que é muito menos falado, mas há um exemplo de estilo de vida saudável, que eu acho que também serve de exemplo pra muita gente.
Metemos alguma nota no meio disto tudo, ó Sandro?
Que nota?
Depois desta discussão tão filosófica a partir da realidade.
Eu dou uma boa nota ao Ronaldo.
O Ronaldo tem que ter uma boa nota, é verdade.
Eu dou-lhe um 20.
Esse tem que ter.
Um 20? Mas o Ronaldo como pessoa?
Dou-lhe um 20 pelo Ronaldismo.
Mas o jogo não acabou.
O torneio acaba agora, a seguir, não é a última dança?
Ainda cabe a Aveiro.
Mas pelo menos com o Modrić já era a última dança. Porque o Modrić também já não vai pra novo.
Não, eu dou-lhe um 17.
17? É porque estava a achar ontem o Modrić um bocado acabado.
Estava fisicamente, mas estava em grande.
Mas estás a ver, olhas pro Modrić e olhas pro Ronaldo e é uma diferença.
Estava com um ar de velhinho, o Modrić.
E a tua nota para o Ronaldismo?
Para o Ronaldismo, eu acho uma doença. O Ronaldismo eu acho um pouco uma doença. O Ronaldismo leva o sete do ídolo.
Isto foi meia hora de alto pensamento. Foi incrível. Amanhã há mais “E o Vencedor é?”, nas manhãs 360, mas na sua versão fim de semana, não sei se vou estar à altura. Fica o desafio pra Eunice Lourenço e pro Henrique Morgadó, que vão dar notas amanhã no “E o Vencedor é?”









