O leitor e a dor alheia
▲O livro de Paola D'Agostino inscreve-se na tendência recente – ou pelo menos cada vez mais visível – de se levar o "eu" para o campo literário
Não é que o livro seja mau, que a prosa seja má, mas trata-se de um texto que parece não ir para parte alguma. Optando pela solução fácil, de entregar ao leitor uma escrita fragmentária, a autora toca em vários pontos, mas não chega a colar nenhum. É essa falta de sustentação que gera a distância.
Há uma parte da auto-ficção que nunca deveria ter saído do divã. Este livro de Paola D’Agostino inscreve-se nesta tendência recente – ou pelo menos cada vez mais visível – de se levar o “eu” para o campo literário, numa clara obsessão com as dores próprias, sem que se manifeste qualquer capacidade de se transformar a vida ou a emoção. Ou sequer de depurá-la.No cerne do livro, temos a ausência da mãe como presença: a mãe de Paola engravidou na década de 1970, a meio de tratamentos oncológicos. Perante a nova condição, teve de escolher entre parar os tratamentos para ter a filha ou parar a gravidez para poder continuar os tratamentos. Com a filha a escrever um livro sobre o assunto, fica clara qual foi a opção, e o livro sabe a dívida, a dor de coisa que morreu na raiz, a história por concluir.Daí, a autora parte para o território à volta, metendo a política e a arte da altura ao barulho, mas tudo parece muito escusado, até despropositado. O resultado é uma sucessão de elementos que parecem introduzidos sem necessidade narrativa e, por isso, de fragmento em fragmento, há uma permanente sensação de se estar perante digressões textuais inócuas, sem função no enredo.
Título: “Ocupação da mãe” | Autora: Paola D’Agostino | Editora: Companhia das Letras | Páginas: 144Logo à cabeça, o livro mostra que tem tendência para ceder à auto-justificação, o que não deixa de ser irritante, uma vez que o leitor sai do plano do texto para ter de encarar, sem grande pó de arroz, o propósito do texto:Esta não é somente a história da minha mãe e não é uma questão privada, já que com esta circunstância se deparam – e virão a deparar-se – muitíssimas outras mulheres, em todo o mundo. Não é só a nossa história que conto aqui, mas qualquer outra história que poderia ter sido a nossa.” (p. 16)A autora tece considerações, mas tudo parece cair no vácuo, já que a prosa se faz por meio de pensamentos soltos que carecem de densidade. Ou seja, falta a parte difícil de um livro, que é a entrega de um produto coeso. Em vez disso, Ocupação da mãe parece consistir em apontamentos, entregando matéria leve em momentos em que devia arranjar tónus.
Por exemplo, há uma parte em que D’Agostino escreve uma cena na escola, em que dizia que a mãe tinha morrido e fugia para a casa de banho logo a seguir: “Quando voltava do meu passeio pelo corredor, já todas as crianças se tinham esquecido de ter pena de mim. Foi a primeira estratégia de fuga que concebi” (p. 18). Isto é material de relevo, mas o leitor não tem tempo para lá estar, ou sequer para ganhar intimidade com a criança, ou sequer para lhe sentir o desconforto, e por isso sente que está perante um resumo ou um protótipo.Ao optar por rasgos de prosa, a autora abdicou da ligação directa com o leitor, a quem tudo cai de forma mais ou menos indiferente. Mais adiante, volta a haver referência a um desconforto, mas uma vez tudo cai no vácuo. Leia-se:Viver no estrangeiro, numa cidade grande onde ninguém conhecia o meu passado, foi a forma de me libertar do fantasma de Ida Maria, da sensação de domínio ilógico que era ela ocupar-me o rosto, como uma vingança póstuma. Porque fora eu a matá-la, afinal, aparecendo-lhe na barriga no momento menos oportuno.” (p. 65)Tudo parece o predomínio do “eu” sobre a história, e é isso que dá a tal sensação de divã, de assunto da intimidade exposto sem ser transformado, o que implica que o leitor não possa ter um papel activo. Em vez disso, ouve. Não junta os bocados, não preenche silêncios, não precisa de ter jogo de cintura. O leitor é um depósito da dor ou da mágoa alheia, existindo enquanto objecto estático onde o texto alheio cai. É verdade que o livro não está mal escrito, mas a única coisa que tem são frases arranjadinhas. E, ao faltar-lhe o resto, falta-lhe tudo.
A autora escreve de acordo com a antiga ortografia.










