CIÊNCIA

O Instituto. Por dentro da Mossad

 

Um passaporte falsificado, um par de luvas de pele, uma máquina fotográfica Leica. Estes eram alguns dos objetos que os visitantes podiam ver atrás das vitrines naquela exposição itinerante, que passou por várias cidades do mundo, sobre o rapto e julgamento de Adolf Eichmann. Estávamos em 2017 e a captura do dirigente nazi e oficial das SS na Argentina — e a sua posterior condenação à morte em Israel — continuava a ser relevante, quase 60 anos depois de Hannah Arendt ter eternizado o processo em Eichmann em Jerusalém (ed. Ítaca).

Agulha feita à mão, composta por peças de metal encaixadas e um pequeno cabo improvisado de couro. Foi desenvolvida pelo médico anestesista Yonah Elian e foi essencial para a execução de uma das operações mais eficazes da Mossad, que cristalizou a imagem de um serviço secreto capaz de feitos quase impossíveis.

Mas, para além daqueles objetos previsíveis numa operação do género, os visitantes puderam também cruzar-se com um mais inesperado: uma agulha feita à mão, composta por peças de metal encaixadas e um pequeno cabo improvisado de couro. Parecia mais uma ferramenta de bricolage do que um instrumento médico delicado. E, no entanto, aquele pequeno objeto foi essencial para a execução de uma das operações mais eficazes da Mossad, que cristalizou a imagem de um serviço secreto capaz de feitos quase impossíveis.
A agulha fora emprestada à exposição por Danny Elian e Miri Halperin Wernli, filhos do criador daquele instrumento, o médico anestesista Yonah Elian. “Esteve no museu durante uns anos, mas depois dissemos ‘Não, não, nós queremo-la na família e queremos dá-la aos nossos filhos’. É muito especial”, relata ao Observador a filha, quase dez anos mais tarde. O trabalho do seu pai na captura de Eichmann foi essencial, mas, ao contrário de vários dos homens e mulheres que participaram no rapto, o Dr. Elian não era oficialmente um agente da Mossad. Nem nunca fez alarido do papel que teve na Operação Finale.

Miri Halperin Wernli é filha de Yonah Elian, o médico responsável por drogar Adolf Eichmann. Mantém até hoje que tem muito orgulho no papel do pai na Operação Finale
Nicole Chan Loeb

Uma equipa de sobreviventesdo Holocausto e uma operação desenhada ao pormenor

Tudo começa com uma pista vinda da Alemanha.
Um procurador do país passa à Mossad a informação de que uma jovem em Buenos Aires tinha conhecido um rapaz chamado Nicolas Eichmann, cujo pai usava o nome falso de Ricardo Klement. Eichmann era um apelido inconfundível: batia certo com o de um oficial das SS que tinha participado no planeamento da Solução Final. Desde o final da II Guerra Mundial que Eichmann usava nomes falsos e, por isso, o seu paradeiro deixou de ser conhecido. Em 1950, tinha conseguido chegar à Argentina com o nome de Klement, mas o mundo ainda não o sabia.
Quando a informação chega a Isser Harel, diretor da Mossad, este acha de imediato que a agência não deve procurar Eichmann para o assassinar, mas sim para o capturar e levar para Israel a fim de ser julgado publicamente, numa grande operação mediática. É essa a proposta que apresenta ao primeiro-ministro. “Gostava de ter luz verde para o trazer de volta para Israel”, diz-lhe. “Fá-lo”, responde David Ben-Gurion.
O comandante escolhido para liderar a operação é Rafi Eitan. À altura, Eitan é ainda um espião quase desconhecido e não adivinha que esta operação o tornará num dos agentes mais conhecidos da Mossad. É ele quem escolhe um a um os agentes que participariam na operação. “Eles eram os melhores para esta missão. Para outros trabalhos seriam melhores outras pessoas”, recordaria décadas mais tarde. “A minha primeira escolha foi Malkin.”
Peter Zvi Malkin era um agente da Mossad especialista em explosivos e era também um artista. “Na arte, como na espionagem, é preciso inspiração, diligência e uma capacidade de concentração que é necessário preservar até ao último milímetro”, disse em tempos. Ao longo da operação para raptar Eichmann, passaria os tempos mortos a desenhar num caderno; essas ilustrações acabariam também na exposição onde se podia ver a agulha do médico Elian.

Peter Zvi Malkin foi um dos operativos da Mossad que participou na Operação Finale. Foi ele quem abordou Eichmann pela primeira vez e depois o dominou fisicamente
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Rafi Eitan foi o comandante responsável pela Operação Finale, que escolheu a equipa e desenhou o plano para raptar o antigo oficial das SS
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A irmã e três sobrinhos de Malkin tinham sido mortos numa câmara de gás. Muitos outros dos seus colegas escolhidos para esta operação tinham sido afetados pelo Holocausto. Avraham Shalom, nascido em Viena, tinha sido espancado pelos colegas de escola aos nove anos por ser judeu; Moshe Tavor também tinha perdido familiares na Shoah e juntara-se a um grupo de caçadores de nazis após a guerra; Yaakov Medad, responsável pela logística, perdera o pai no gueto de Theresienstadt e a mãe em Auschwitz; o falsificador Shalom Dani Weiss tinha sobrevivido a um campo de concentração, de onde se murmurava que tinha fugido falsificando uma autorização em papel higiénico. O diretor da Mossad avisa-os a todos: têm de controlar os seus impulsos nesta missão, porque Eichmann tem de chegar a Israel vivo.
Arrancam então os preparativos. A 24 de março de 1960, os primeiros operacionais aterram na capital argentina, todos vindos em voos diferentes. Weiss já tinha tratado dos passaportes falsos para os agentes e agora era a vez de Meidad arranjar carros e casas-abrigo. “Eu tinha quatro carros e dois apartamentos, mas era difícil arranjar um carro grande o suficiente em Buenos Aires”, contará mais tarde numa entrevista, a propósito da necessidade de arranjar um automóvel onde pudessem levar o refém de forma discreta. “Finalmente encontrei um Chevrolet numa garagem. Não queriam que eu ficasse com ele porque iam desmontá-lo para peças. Ao fim de uma hora, apareci com um depósito de cinco mil dólares. Duzentas e cinquenta notas de 20 dólares. Levaram-me ao banco, verificaram se as notas eram verdadeiras e disseram ‘OK’. Fiquei com o carro.”
É então altura de os outros agentes aterrarem e começarem a vigiar o alvo. Com uma câmara fotográfica Leica, registam os seus movimentos. Revelam as fotos numa loja e começam a tentar verificar se o suspeito é de facto o verdadeiro Eichmann, comparando a orelha esquerda das fotografias com uma antiga foto de Eichmann de perfil, quando era soldado. Pensam ter encontrado o seu homem e começam a desenhar uma estratégia.
“O plano era raptar Eichmann enquanto ele ia a pé para casa da paragem de autocarro”, conta Rafi Eitan. “À medida que ele andasse, o Zvi Malkin ia em direção a ele, como se fosse por acaso. Eu queria que o Tavor fosse atrás. Depois, para não levantar suspeitas, o Malkin ia dirigir-se a ele com uma pergunta: ‘Un momentito, señor’. E depois agarrá-lo e apertar-lhe as artérias carótidas.”

A frase combinada

No dia 11 de maio, o plano é posto em ação. Os operacionais aguardam num carro perto da casa de Eichmann, na Rua Garibaldi, pelo autocarro que “Ricardo Klement” apanha todos os dias para vir do trabalho, numa fábrica da Mercedes-Benz, e que costuma chegar entre as 19h20 e as 19h30. Nessa tarde, Eichmann atrasa-se — será preciso esperar até às 20h para que os agentes da Mossad o vejam chegar. Malkin, que tem a incumbência de agarrar nele, trouxe um par de luvas de pele. “A ideia de colocar as minhas mãos nuas por cima da boca que tinha ordenado a morte de milhões, de sentir a respiração quente e a saliva na minha pele, enchia-me de um sentimento assoberbante de repulsa”, explicaria mais tarde o agente no seu livro de memórias Eichmann in My Hands (sem edição em português).

Réplica das luvas usadas pelo agente Malkin durante a captura de Adolf Eichmann
AFP via Getty Images

Malkin aproxima-se então e diz a frase combinada: “Un momentito, señor”. De seguida agarra-o e dois outros agentes ajudam-no a levá-lo para dentro do carro — sentam-se os três no banco de trás e colocam-no deitado em cima das suas pernas. “Ali estava eu, a segurar a cabeça de um assassino em massa nos meus joelhos”, recordou Eitan. “O [Zvi] Aharoni estava a conduzir e eu pus um pano por cima da cabeça de Eichmann.”
A equipa leva Eichmann para a casa-abrigo principal, uma vivenda perto do aeroporto. Malkin e Aharoni fecham-se com ele num dos quartos. Perguntam-lhe três vezes como se chama e três vezes ele responde “Ricardo Klement”. Medem-lhe a altura, o tamanho da circunferência do crânio (56 centímetros), analisam a orelha e as cicatrizes no corpo que sabem ter. Tudo bate certo, excepto os dentes (Eichmann agora usa dentadura).

Cédula de identidade de Adolf Eichmann na Argentina. Pode ver-se o nome falso que usou enquanto esteve no país, Ricardo Klement, e a profissão de “Mecânico”
Bettmann Archive

Aharoni volta a perguntar-lhe como se chama. Desta vez, Eichmann responde “Otto Heninger”, outro nome falso que usou antes de vir para a Argentina. “O seu número nas SS era o 45526”, diz o agente da Mossad. “Não. Era o 45326.” Aharoni insiste: “Boa. Agora: Was ist dein Name?” (“Qual é o seu nome?”) E o homem finalmente responde “Ich bin Adolf Eichmann.”

“Reconheces a estrela?”

É então que entra em cena o médico. O doutor Yonah Elian é chamado para fazer uma avaliação ao alemão. Primeiro que tudo, examina-lhe a boca, para ter a certeza que não tem nenhuma cápsula de cianeto para se tentar suicidar. Depois, mede-lhe a tensão. “Não se preocupem. Ele é forte como um cavalo”, diz aos agentes.

Miri Halperin WernliFilhade Yonah Elian

Elian era também ele um sobrevivente do Holocausto e já há alguns anos que trabalhava com a Mossad. Miri Halperin Wernli acredita que o pai foi escolhido pela agência pelo seu elevado nível de especialização: “Tinha imensa habilidade com os dedos. Tratava bebés, porque sabia a posologia exata, sabia usar substâncias na dose certa para manter alguém não totalmente consciente, mas também não totalmente inconsciente.” A filha acha que a personalidade de Yonah também contribuiu para que fosse escolhido. “Ele era muito leal e muito introvertido, não falava, e eles sabiam”, conta. “E já o conheciam há muitos anos. É claro que tiveram de confiar nele a primeira vez, mas foi uma relação que evoluiu ao longo dos anos.”

Essa capacidade de não falar sobre o que se passava nas operações fez com que os filhos não soubessem durante muitos anos que o pai trabalhava com a Mossad. Simplesmente, diziam-lhes que o pai tinha ido de viagem — e eles não faziam perguntas. “Muita gente em Israel envolve-se em operações secretas e outras coisas do género”, aponta Miri. “Acho que nos está no sangue. Não era algo anormal; claro que foi com o caso de Eichmann, mas o meu pai trabalhou em muitas outras operações.”

Adolf Eichmann foi oficial das SS alemãs e acabou por conseguir fugir após a II Guerra Mundial, recorrendo a várias identidades falsas
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O trabalho fulcral do médico nesta operação era o de drogar o criminoso nazi. “A ideia era levá-lo para fora do país vestido como um assistente de bordo da [companhia aérea israelita] El-Al. Para isso, precisavam de lhe dar medicação na dose certa para que ele conseguisse andar. E o meu pai, como era anestesista, sabia como usar a medicação e tinha aquela agulha especial de metal que ele criou”, explica Miri, referindo-se ao instrumento que permite ao médico ir injetando discretamente uma nova dose à medida que é necessário.
Tudo tinha sido treinado previamente entre o médico e o comandante Rafi Eitan, como contou este último nas suas memórias, Capturing Eichmann (sem edição em português): “Perguntei ao Elian se podia observar uma cirurgia em que fosse usado aquele anestésico. Ele deixou-me assistir à cirurgia, totalmente equipado, e apresentou-me aos colegas como Dr. Flatfoot. Para a operação de rapto, deu-me instruções precisas sobre o material de que ia precisar. Entre outras coisas, pediu-me o dobro da quantidade de oxigénio que tipicamente seria precisa em terra.”
Naquele dia, o agente Malkin trata de tudo. Pinta o cabelo a Eichmann e cola-lhe um bigode falso. Depois, veste-o com o uniforme da El-Al, que inclui a estrela de David ao peito. “Reconheces a estrela?”, pergunta-lhe o agente enquanto o faz ver-se ao espelho. “Ja”, responde-lhe o alemão. O Dr. Eilan administra-lhe depois uma injeção com o sedativo.

Dois passaportes falsos: um utilizado por um dos agentes da Mossad que participaram na operação (à esquerda) e outro fabricado para fazer sair Adolf Eichmann (à direita) da Argentina
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Quase de imediato, Eichmann fica meio aturdido. Os agentes entram com ele no carro, também eles fardados. Malkin recorda como conduziram até à pista: “Os guardas do posto de controlo, ao repararem que os passageiros no banco de trás pareciam estar a curar uma bebedeira, riram-se enquanto deram autorização ao carro para passar, sem pedir os papéis. Eram só mais uns judeus bêbados.” O resto está combinado com a própria tripulação da El-Al, que ajuda o refém a subir a bordo. Sentam-no ao pé da janela do primeiro lugar do lado esquerdo. O médico vai sentado ao seu lado.

O fardo do médicoque drogou Eichmann

Doze dias depois da captura de Eichmann, o primeiro-ministro Ben-Gurion anuncia o feito num Conselho de Ministros: “Há muito que os nossos serviços de segurança procuravam Adolf Eichmann e acabaram por encontrá-lo. Ele está em Israel e irá ser julgado aqui.”
Eichmann acabaria por ser julgado, condenado à morte e executado. O julgamento foi acompanhado em todo o mundo. A Operação Finale ficou marcada na memória coletiva do mundo e ajudou a cimentar a reputação da Mossad como infalível. Foi “a melhor operação de relações públicas da agência”, define o experiente jornalista Yossi Melman, que acompanha há anos os serviços secretos israelitas. “A Mossad adora o seu próprio mito e cultiva-o, porque os ajuda”, disse Melman numa entrevista ao Süddeutsche Zeitung. “Desde então que vivem para esta lenda de que a Mossad apanha qualquer pessoa, em qualquer lado.”

O julgamento de Adolf Eichmann teve lugar em Israel e acabou com a condenação à morte do antigo oficial nazi
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A aura de invencibilidade perdurou, mas com a operação também vieram outros efeitos menos positivos. Os agentes e os seus familiares continuavam sem poder falar de detalhes do caso com ninguém. Daphna, a filha de Aharoni, recorda como o pai lhe trouxe um casaco de pele vermelho da Argentina, mas também como foi difícil manter esse segredo e não poder falar com o pai sobre ele: “Soubemos desde cedo que ele tinha apanhado o Eichmann, mas não tínhamos autorização para dizer a ninguém”, contou ao Jerusalem Post. “Há tantas coisas que ainda hoje não sei.”

O mesmo aconteceu com Miri e o seu pai. “Houve livros e filmes, mas ele nunca quis que o nome dele aparecesse em lado nenhum”, diz, apesar de explicar que Yonah nunca conseguiu manter totalmente em segredo o seu papel na operação. “É um país pequeno”, acrescenta.

O Dr. Elian não ficava em silêncio apenas por devoção à Mossad. Sentia-se constrangido pelo seu papel na organização, num conflito interno relativamente ao juramento de Hipócrates. E a isso somava-se a vergonha por uma operação que acontecera seis anos antes da captura de Eichmann, onde o médico teve uma responsabilidade semelhante. A diferença é que, dessa vez, o alvo era um cidadão israelita, suspeito de ter vendido segredos militares — e que acabou por morrer porque a dose do sedativo foi mal calculada pelo médico.

Eilan foi, durante anos, o único civil com conhecimento do que tinha acontecido. E Miri Halperin Wernli acredita que o caso terá contribuído para a angústia que levou o pai a suicidar-se, aos 88 anos, e que nem o sucesso da Operação Finale apagou. “É algo dramático, mas é o que é”, desabafa a filha, com um ar de resignação. “É um fardo para a pessoa e também para a família, alguém fazer sacrifícios destes sabendo ao que podem levar. É um sacrifício que fazem pelo país, por aquilo que acham que é correto.”

Miri Halperin Wernli com o pai, Yonah Elian. O Dr. Elian acabou por se suicidar, em parte devido aos remorsos pelo seu papel numa outra operação com a Mossad, onde acabou por matar acidentalmente o alvo

Apesar da marca profunda que o trabalho com a Mossad deixou em Yonah Eilan, a família não guarda rancor ao Instituto. “É claro que se paga o preço, mas muitas pessoas pagam outro tipo de preço que não a morte”, diz Miri. “Estamos muito orgulhosos daquilo que ele fez com a Mossad.”

 

“Foi muito emotivo quando me contaram isto. Era uma coisa que tinha estado em contacto com a pele do Eli.” Nadia Cohen tinha acabado de receber o relógio do marido, Eli, o famoso espião israelita que foi capturado na Síria e cujo corpo nunca foi recuperado. Estávamos em 2018 e a Mossad e outras forças especiais do país tinham levado a cabo uma operação em solo sírio que permitiu recuperar vários itens pessoais que pertenceram a Eli Cohen — incluindo aquele relógio de visor amarelecido.

O relógio usado por Eli Cohen foi um dos vários itens pessoais do espião que foram recuperados pela Mossad durante uma operação na Síria.

Cohen nasceu no Egipto em 1924, numa família judia ortodoxa, o segundo filho mais velho de oito irmãos. Ao contrário da maioria deles, sempre foi profundamente religioso. Excelente aluno, tinha uma memória prodigiosa: costumava ir à varanda do prédio apontar as matrículas dos carros e depois decorá-las. Isso viria a ser-lhe muito útil no futuro como agente da Mossad.

Mas Eli Cohen só se torna espião aos 33 anos, depois de ter emigrado com a família para Israel. Nos primeiros tempos, partilha quarto com um dos irmãos mais novos, Avraham, que não faz ideia de como Eli começou a contactar com a Mossad. “Inicialmente, ele ficou empregado como tradutor para hebraico da imprensa árabe numa unidade de informações [do Estado]. Mais tarde, arranjou trabalho como contabilista no maior fornecedor de cooperativas e colonatos em Israel”, conta ao Observador, décadas depois, o irmão Avraham. “No verão de 1959, casou-se com a Nadia. Um mês depois, recebeu uma visita inesperada dos serviços de informações de Israel.”

A Mossad está a par do passado de Eli no Egipto, onde tinha chegado a estar preso por ligações a grupos sionistas. E começa a testá-lo. A avaliação é ambígua, como revelam Dan Raviv e Yossi Melman no livro Every Spy a Prince (sem edição em português): “A agência concluiu que Cohen tinha um QI elevado, muita coragem, uma memória fenomenal e capacidade de guardar segredos; mas os testes também revelaram que, ‘apesar da sua aparência modesta, tinha um sentimento exagerado de vaidade’ e ‘muita tensão interna’. Cohen, indicavam os resultados, ‘nem sempre avalia corretamente o perigo e tem tendência a assumir riscos acima do necessário’”.

Cabe a Meir Amit, diretor da Mossad à altura, decidir se Eli Cohen deve ou não ser usado como espião do Instituto. “Questionei-me centenas de vezes: o Eli consegue fazer o que eu quero? Sempre lhe demonstrei, é claro, a minha confiança. Não queria que ele pensasse nem por um momento que estaria sempre a um passo do alçapão que o enviaria desta para melhor. E, no entanto, alguns dos melhores cérebros da Mossad dedicavam-lhe tudo o que tinham. Por fim, decidi avançar com o Eli”, recordaria ao jornalista Gordon Thomas, no livro Os Espiões de Gedeão (ed. Prefácio).

O treino arranca. Eli tem um formador chamado Yitzhak que se dedica a melhorar ainda mais a boa memória do espião. Coloca vários objetos em cima de uma mesa, como uma caneta, um cigarro, um porta-chaves, e deixa Eli olhar para tudo durante dois segundos. Depois, o egípcio tem de descrever os objetos de olhos fechados. Ao mesmo tempo, o recruta estuda História, Geografia e Economia da Síria. Treina o sotaque, para transformar a sonoridade do seu árabe egípcio num árabe semelhante ao falado na Síria — e ouve recorrentemente a rádio do país, para se habituar à sonoridade.

O diretor da Mossad e Eli Cohen dedicam-se então a preparar a sua missão na Síria, onde Cohen se infiltrará. A personagem criada é a de Kamil Amin Thabet, empresário sírio a viver na Argentina que irá regressar ao seu país, trazendo consigo uma pequena fortuna. Meir Amit recorda esses dias: “O Eli aprendeu a linguagem de um importador-exportador na Síria. Decorou as diferenças entre guias de transporte e certificados de transporte, contratos e garantias, tudo o que precisava de saber. Era como um camaleão a absorver tudo. À frente dos meus olhos, Eli Cohen desvaneceu-se e Thabet transfigurou-se, era agora o sírio que nunca tinha abandonado o desejo de regressar a casa em Damasco. A cada dia, Eli ficava mais confiante, mais assertivo e com vontade de provar que conseguia interpretar aquele papel. Era como um maratonista campeão do mundo, treinado para ter o seu ponto alto no início da corrida”, disse Amit em Os Espiões de Gedeão. “Mas ele poderia vir a correr durante anos. Fizemos tudo o que podíamos para lhe mostrar como manter o ritmo na sua nova vida, como vivê-la. O resto era com ele. Todos sabíamos isso. Não houve uma grande despedida. Ele escapuliu-se de Israel, como todos os meus espiões faziam.” Para a Mossad, Eli Cohen torna-se, a partir daí, “o nosso homem em Damasco”.

As festas de um empresáriono bairro da elite de Damasco

A família não faz ideia do que Eli se está a preparar para fazer.

A filha Sophie descreveu em tempos o pai como “uma pessoa muito conservadora”. “Ele não era de todo aventureiro, corajoso ou em forma”, disse num documentário da Al Jazeera. “Acho que o que viram nele foram outras coisas.”

A mulher, Nadia, também não faz ideia da missão que Eli está prestes a iniciar. O marido não lhe conta que foi contratado pela Mossad, dizendo apenas que tinha passado dos serviços de contabilidade para os serviços comerciais, o que explicava a necessidade de viajar durante vários meses.

Eli Cohen prepara-se para seguir para Buenos Aires. Primeiro, faz escala em Munique, onde um colega o espera para lhe dar material: folhas de papel onde poderia usar tinta invisível, livros com códigos de transmissão, um transístor, uma máquina de barbear elétrica que serve como antena para transmitir mensagens. E cápsulas de cianeto, disfarçadas numa embalagem de aspirina, que deverá utilizar para se suicidar caso venha a ser apanhado.

Depois de algum tempo em Buenos Aires, onde faz contactos junto da comunidade árabe e trabalha a sua identidade falsa como homem de negócios, Eli acaba por rumar a Damasco. Ali chegado, instala-se em Abou Roummaneh, o bairro da elite, cheio de embaixadas e edifícios militares. A 25 de fevereiro de 1962, envia a sua primeira transmissão, em código morse, para Telavive. Nos escritórios da Mossad, abre-se uma garrafa de champanhe.

É então que Eli Cohen começa a construir a sua teia. Como homem de negócios bem sucedido, é anfitrião em festas que se tornam populares junto da alta sociedade, com a participação de ministros e empresários, mas também de secretárias e hospedeiras de bordo — bem como prostitutas vindas do Líbano e de França. O espião israelita aperfeiçoa a técnica de fingir estar embriagado quando na verdade está perfeitamente sóbrio. Já sobre as faladas aventuras sexuais, não há consenso: os colegas garantem que não se envolvia com mulheres, mas o historiador Samuel Katz assegura que Eli “teve 17 amantes na Síria, todas belezas estonteantes com algum poder a nível familiar (…) que o poderiam ajudar a fugir se houvesse uma crise”. O agente da Mossad que o monitorizava diz que Eli Cohen não pisava qualquer linha: “Habituámo-nos a trabalhar com agentes que de vez em quando desafiavam os limites, como incluir todo o tipo de coisas na lista de despesas para os ajudar a manter o seu disfarce. Mas o Eli não era como esses agentes. Ele era direto connosco.” Raramente fazia pedidos ao quartel-general.

Para se aproximar ainda mais de figuras do regime, Eli Cohen finge ter opiniões políticas próximas do socialismo, para agradar ao regime baathista, e chega a financiar o partido. Segundo o livro Héros du Mossad (sem edição em português), era habitual dizer em voz alta que “o potencial militar deve ser reforçado perante a ameaça sionista”. Representava tão bem o papel que às vezes começava a esquecer quem era realmente. “Tenho de me concentrar muito para me lembrar do meu verdadeiro nome”, confessa a um chefe.

As poucas viagens a casa são marcadas pela cada vez maior distância da família. Envia aos filhos brinquedos e roupas, mas, quando chega, não consegue ligar-se a eles. No documentário da Al Jazeera, a filha Sophie recordou uma vez em que o foram receber ao aeroporto: “Estava nervoso. Pegou na minha mão e apertou-a. Quase não me reconheceu. Estava tão nervoso que me magoou a mão, mas tive demasiada vergonha para lhe dizer. Ele era sempre como um estranho para mim.” Oded Gur-Arie, filho de outro espião da Mossad, questionou-se em tempos sobre como seria se “o James Bond tivesse família”. “Olhamos para o glamour e para a aventura, mas não para os humanos e para o custo que isto tem sobre outras pessoas.”

Os deslizes que acabaramem captura

Na Síria, o trabalho de Eli Cohen corre de feição. O tenente Maazi acaba por convidá-lo para fazer uma tour pelos Montes Golã, zona de acesso exclusivamente militar. Cohen vê os bunkers e a artilharia ao pormenor, registando mentalmente a localização de cada um. Voltaria lá várias vezes, uma delas até tirando fotografias. Mas o momento deixa-o angustiado. “Senti desespero”, confessaria mais tarde. “Queria pegar num barco, atravessar o mar da Galileia e voltar para casa. O lago era como um vasto e terrível oceano a separar-me dos meus amigos e da minha família. Sentia-me como um farol isolado, a emitir desesperadamente o sinal de aviso através da noite, para salvar o navio de Israel dos perigos que o ameaçavam.”

As visitas aos Golã, porém, seriam fulcrais para a Mossad e contribuiriam para a invasão bem sucedida do Exército israelita na Guerra dos Seis Dias, em 1967. “Tudo o que viu foi comunicado aos israelitas através de um transmissor secreto que mantinha escondido na persiana da janela”, recorda ao Observador o seu irmão Avraham. “Aqui, os superiores do Eli liam os seus relatórios com espanto, fascinados com a forma como um introvertido de Alexandria tinha conseguido de forma tão convincente tornar-se ‘Kamil’, o socialite extraordinaire de Damasco.”

Só que Eli Cohen começa a ficar mais descuidado. Tem ordens para não fazer transmissões em código morse com mais de dois minutos, mas começa a ultrapassar em muito o limite. Envia as suas mensagens habitualmente sempre à mesma hora, 8h30 da manhã, o que não é aconselhado — e às vezes até envia mais do que uma por dia, o que também viola as recomendações da Mossad. No livro Israel’s Secret Wars (sem edição em português), lê-se que, entre 15 de março e 29 de agosto de 1964, Cohen enviou mais de cem mensagens, com uma duração média de nove minutos.

Os temas abordados também começam a ser cada vez mais arriscados. Uma vez, envia uma mensagem a comentar a derrota da seleção nacional de futebol israelita. Outras, fala diretamente da família, desejando um feliz aniversário à filha ou à mulher. O irmão Avraham não tem dúvidas de que Eli começava a estar corroído pela sua identidade dupla e, por isso, começava a cometer erros. “Por um lado, era um charmoso milionário árabe que convivia com os ricos e famosos de Damasco; por outro, um emigrante do Egipto que trabalhava como contabilista e vivia num apartamento modesto na cidade israelita de Bat Yam. Não sei se os seus superiores entendiam quão marcante era esta diferença, que poderia levar a um colapso.”

Não demora muito até a ousadia resultar em desastre. As suas transmissões frequentes começam a fazer interferência com o quartel-general do Exército sírio, que fica mesmo em frente ao seu apartamento. Os sírios pedem aos serviços secretos militares russos que investiguem; e estes não tardam a identificar a casa de Eli Cohen como a origem dos sinais. A 19 de janeiro de 1965, os homens do coronel Suedani invadem o apartamento do espião e apanham-no em flagrante: está a fazer uma transmissão em morse nesse preciso momento, sobre uma reunião que tinha tido na véspera onde estava presente o Presidente Amin al-Hafiz.

Eli Cohen é de imediato detido. O seu principal interrogador relatou o que se seguiu, segundo o livro Mossad: As Grandes Operações dos Serviços Secretos Israelitas (ed. Dom Quixote): “Quando olhei nos olhos de Thabet, fui rapidamente assaltado por uma suspeita terrível. Senti que o homem que estava à minha frente não era de todo um árabe. Com muito cuidado, fiz-lhe algumas perguntas sobre a religião muçulmana e o Alcorão. Pedi-lhe para recitar o Sura al-Fatiha, o primeiro capítulo do Alcorão. Ele mal conseguia citar uns quantos versos. Tentou defender-se dizendo que tinha saído da Síria ainda muito jovem e que a memória o estava a trair. Mas, nesse momento, eu soube: ele era um judeu.” Segue-se a tortura e Cohen acaba por confessar.

Eli Cohen (à esquerda) durante o seu julgamento em Damasco, onde foi condenado à morte
AFP via Getty Images

Os sírios decidem julgar publicamente Eli e todos sabem que a sentença mais provável é a pena de morte. O espião ouve as testemunhas, sem conseguir esconder um ligeiro tremor na bochecha esquerda, sequela da tortura a que foi sujeito. Em Bat Yam, a família segue os procedimentos pela televisão, em silêncio. A mãe de Eli a certa altura levanta-se, beija o ecrã e encosta o seu fio com uma estrela de David à imagem do rosto do filho.

Mas Israel ainda não está pronto para deixar Cohen para trás. O país recorre a um oficial francês, que é amigo pessoal do Presidente sírio, para servir de intermediário: este viaja para o país e oferece-se para comprar a vida do espião. No bolso, leva um cheque de um milhão de dólares e a promessa de tratores, bulldozers e ambulâncias. O Presidente Al-Hafez recusa recebê-lo.

Cohen foi enforcado na Praça dos Mártires com um cartaz ao pescoço onde se podia ler a sua sentença, em árabe. O corpo, enforcado, foi deixado em exposição durante seis horas
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Monta-se uma campanha internacional, que inclui até um apelo do Papa Paulo VI para que Cohen não seja executado. Mas de nada vale: a 31 de março, é condenado à morte. A 18 de maio, é acordado e vestido com uma túnica branca. Deixam-no escrever uma carta para a família e encontrar-se com um rabino. É depois levado para a Praça dos Mártires. Ao peito, prendem-lhe um cartaz onde está escrita a sua sentença em árabe. Quando sobe para o cadafalso, Eli recita a oração hebraica Vidui: “Deus todo-poderoso, perdoa-me por todos os meus pecados e transgressões.” O carrasco coloca-lhe a corda ao pescoço e Cohen é enforcado. O seu corpo fica exposto na praça, preso pela corda, durante seis horas.

A filha Sophie nunca esquecerá essa imagem. “Ainda hoje, quando vejo os documentários na televisão, viro a cara”, confessaria no livro Héros du Mossad. “Como menina e ainda hoje como mulher adulta, não me recuperei da violência dessas imagens. Trata-se da morte do meu pai ao vivo. Grito por dentro.”

O corpo que nuncaregressou à família

As autoridades sírias esconderam-no de imediato e nunca aceitaram os pedidos de Israel. A Mossad sabe que foi inicialmente enterrado no cemitério judaico de Damasco e depois foi várias vezes mudado de local. Em 2014, os serviços secretos russos serviram de intermediários para tentarem resgatar o cadáver de Eli Cohen, mas as negociações falharam. “A minha família e sucessivos governos de Israel imploraram pelo regresso dos seus restos mortais, mas recebemos sempre uma rejeição clara. Até quando a Síria entrou em conversações de paz com Israel [em 2025], o pedido para o regresso do corpo de Cohen como sinal de boa vontade foi rejeitado”, desabafa o irmão Avraham.
O melhor que a Mossad conseguiu foi a operação de 2018, quando conseguiu resgatar vários bens pessoais de Eli, incluindo o relógio que foi entregue a Nadia Cohen. Havia ainda um conjunto de documentos onde estava a última carta que escreveu à mulher: “Nadia, peço-te perdão. Toma conta de ti e das crianças. Garante que eles têm uma educação completa. Não te negues e não lhes negues a eles nada e mantém-te em contacto com a minha família.” Eli pede-lhe ainda que volte a casar, mas ela não o faz. “Todos estes anos mantive-me fiel a ele”, garantia Nadia em 2010 numa entrevista ao jornal israelita Haaretz. “Não quero morrer a desejar que o Eli possa descansar no solo da terra que ele amava e pela qual deu a vida. Espero, rezo, que ele regresse a casa antes de eu morrer.”

Nadia Cohen, viúva de Eli Cohen, num encontro com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. Até hoje, Israel nunca conseguiu resgatar o corpo do espião

Mais de 60 anos depois da sua morte, Eli Cohen continua a assombrar a memória de Israel e, em particular, da Mossad. Na sede da Cesareia, a divisão de elite dentro da agência, o seu retrato está pendurado na parede. “Ele continua a ser, do que sabemos, o único agente judeu da Mossad que nunca regressou da sua missão”, resumiria ao Figaro Yossi Melman, jornalista especialista nos serviços secretos do país. “O mito em torno dele deve muito a este epílogo dramático.”
Mas o trauma nacional é pequeno quando comparado com o da família de Eli Cohen. “Desde a morte do meu irmão, tenho tentado revelar o mistério em torno do espião mais famoso de Israel, a carga emocional desta personalidade especialmente enigmática e heróica pesa-me”, diz Abraham. “Durante todo este tempo, tentei trazer uma nova luz ao homem que a maioria dos israelitas conhece apenas como lenda.”

 

Ehud Barak chega a casa por volta das seis da manhã. Tenta não acordar a mulher enquanto se prepara para ir para a cama. “A última coisa de que me lembro é da minha mulher à beira da nossa cama enquanto eu acordava, por volta do meio-dia do dia seguinte”, recordaria na sua autobiografia My Country, My Life (sem edição em português]. “Ela viu a minha maquilhagem dos olhos e o resto de batom, abanou a cabeça e sorriu. Não precisava de perguntar onde é que eu tinha estado. A rádio em Israel estava cheia de notícias sobre uma enorme operação em Beirute.”

O homem que viria a ser primeiro-ministro de Israel tinha acabado de regressar de uma operação estrondosa, feita em conjunto pela unidade de elite Sayeret Matkal e a Mossad, que ficaria na memória coletiva do país: a Operação Fonte da Juventude, em que três operacionais da Fatah foram mortos, surpreendidos nas suas camas em apartamentos, numa das principais ruas da capital libanesa. Para isso, Barak e outros dois agentes tiveram de se mascarar de mulher, com cabeleira e maquilhagem.

Ehud Barak (segundo a contar da direita) e a sua unidade das Sayeret Matkal, em 1967
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Barak, que se viria a tornar primeiro-ministro israelita em 1999, foi o comandante responsável por planear a Fonte da Juventude
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O catalisador foi uma tragédia que acontecera menos de um ano antes, quando oito palestinianos da organização Setembro Negro fizeram reféns membros da equipa olímpica de Israel em plenos Jogos de Munique — todos acabariam por morrer. Aviram Halevi, antigo membro da Sayeret Matkal e autor de um livro sobre esta unidade, sublinha ao Observador a importância do que aconteceu: “Munique foi um momento que dividiu as águas. Até aí, a causa palestiniana não era levada assim tão a sério pelas autoridades israelitas e europeias”, diz. “A primeira-ministra Golda Meir ficou chocada, como toda a gente, e decidiu imediatamente que era preciso alterar o curso dos acontecimentos. E seguiu a recomendação do chefe da Mossad, Zvi Zamir, de que precisávamos de ser mais proativos.”

Aviram Halevi foi vice-comandante-em-chefe das Sayeret Matkal. É autor de um livro sobre esta unidade de elite

A resposta foi uma campanha de vingança, que ficou informalmente conhecida como “Ira de Deus” — popularizada no filme Munique, de Steven Spielberg —, muito embora não tenha havido uma única operação gigantesca, mas sim vários ataques cirúrgicos planeados um de cada vez. “Os líderes da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) foram obrigados a mudar-se da Jordânia para o Líbano, na sequência do atentado em Munique, e estabeleceram-se em Beirute. Yasser Arafat era conhecido por dormir numa cama diferente todas as noites para não ser encontrado”, conta Halevi.

Durante a crise com os reféns em Munique, Ehud Barak, à altura comandante das Sayeret Matkal, telefonou ao chefe das secretas militares e disse: “Vocês têm de nos enviar para lá”. Isso não aconteceu, mas Barak e as suas forças especiais acabariam por estar envolvidas na mais espetacular operação de retaliação contra o Setembro Negro, em abril de 1973.

A Operação Fonte da Juventude foi planeada desde o início como uma vingança. “Tinha como objetivo punir os que planearam e cometeram este crime, o assassínio dos atletas em Munique”, resumiria o vice-comandante das Maktal, Muki Betser. “Havia um sentimento de raiva e uma necessidade profunda de castigar as organizações e, de uma vez por todas, acabar com a chamada luta dos terroristas contra os civis.”

“Os três menos fortesde nós iriam vestidos de mulher”

Barak é então encarregado de comandar a operação. A sua primeira ação é a de reunir os comandantes das forças especiais no seu gabinete. Em cima da mesa está uma pasta. O comandante pega nela e retira três fotografias a preto e branco. Uma a uma, vai colocando-as em cima da mesa, enquanto diz em voz alta os nomes dos retratados, para efeito dramático: “Abu Yusuf” — pausa; “Kamal Adwan” — pausa; “Kamal Nasser” — pausa. “A Sayeret Matkal foi encarregada de assassinar estes homens”, diz.

Abu Youssef (à esquerda) e Kamal Adwan (à direita) são dois dos líderes do Setembro Negro que foram visados nesta operação
Bettmann Archive

O comandante começa então a formular um plano. Primeiro, alguns agentes da Mossad iriam a Beirute alugar carros americanos, como os que os turistas escolhem. Depois, um grupo de 13 homens das forças especiais partiriam de barco até à cidade do Líbano. Ali, passavam para os carros. Chegados à Rue Verdun, onde ficam os apartamentos dos palestinianos, três esquadrões de três homens cada tratariam dos três alvos. Quatro operacionais de um outro grupo ficariam cá fora para lidar com “qualquer tipo de interferência”. Terminada a operação, voltariam a sair do país de barco.

Aviram HaleviAntigo comandantedas Sayeret Matkal

Aviram Halevi garante que todos os envolvidos tinham consciência do nível de risco que a operação representava. “Era uma ousadia andar a pé no meio de uma capital do Médio Oriente, a meio da noite, e estar confortável. Mas quebrar limites era o nome do meio das Sayeret Matkal. Era mais sobre ‘como fazê-lo’, não ‘se íamos fazê-lo’, sem pensar muito nos riscos.” E o método escolhido, diz, era “fora da caixa”.

Antes de tudo, porém, a Mossad tem de entrar em ação. Agentes da Cesareia, a unidade de elite do Instituto, vão para Beirute fazer trabalho de campo. Tiram fotografias aos apartamentos, filmam os percursos e observam o bairro. Acabam por definir como melhor lugar para desembarcar a praia do Hotel Sands, por ser privada. Enquanto isso, os soldados das Matkal vão fazendo treinos num estaleiro de obras que encontram no norte de Telavive, simulando o embarque e desembarque e cronometrando as viagens. Numa base militar, constroem circuitos falsos com base na planta dos apartamentos onde planeiam entrar para matar os membros da Fatah.

Amiram Levin, um dos agentes das Sayeret Matkal que foram vestidos de mulher para a operação em Beirute
Sygma via Getty Images

Mas faltava uma peça essencial no plano: como tornar o disfarce mais convincente? “Não bate certo. Mais de uma dezena de jovens a andar [pelas ruas], todos homens?”, questionou um dos militares. Outro arranjou uma “solução”, recorda Ehud Barak no seu livro de memórias, “uma que teria o efeito não pretendido de elevar ainda mais a nossa missão no folclore israelita”. “Os três menos fortes de nós iriam vestidos de mulher: um tipo com ar de adolescente chamado Lonny Rafael, Amiram Levin e eu.”

A espia da Mossad que assegurouo sucesso da operação

Um fator imprescindível para o plano funcionar é a ação de uma mulher, Yael. A Mossad e a Sayeret contaram com o trabalho da agente da Mossad, que já vivia há meses em Beirute. Tinha ali chegado com um disfarce elaborado: fingia ser uma guionista norte-americana que queria fazer um filme sobre Hester Stanhope, uma socialite britânica que tinha vivido no Líbano. Aluga uma casa na Rue Verdun, mesmo em frente aos apartamentos de Abu Yusuf, Kamal Adwan e Kamal Nasser.

Kamal Nasser, um dos líderes do Setembro Negro visados na operação, com o líder palestiniano Yasser Arafat
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A 7 de abril de 1973, Yael vai até ao bar do Hotel Intercontinental para se encontrar com um agente da Cesareia, Eviatar. Os dois seguem para jantar noutro hotel, o Fenício. É ali que Yael transmite toda a informação que recolheu nos últimos tempos, como lhe havia sido pedido pela Mossad: as rotinas dos três homens da Fatah, as ruas que seria preciso atravessar para chegar à Verdun, a atividade policial na área.

Eviatar pergunta-lhe se sabe onde estão os três vizinhos esta noite. “Estão todos em casa”, responde a agente. “Boa. Vai direta para casa e mantém-te longe das janelas.” À mesma hora em que jantavam, os agentes da Sayeret Matkal estavam a embarcar em direção a Beirute. À saída do restaurante, Eviatar envia uma mensagem via rádio: “Os pássaros estão no ninho”, diz, como revela o jornalista Ronen Bergman no seu livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates).

Yael vai para casa e deita-se. Acordaria horas depois com o som de tiros e vozes a falar hebraico nas ruas. “Percebi que estava a decorrer uma operação e liguei isso à informação que tinha passado ao Eviatar horas antes. Eu não era assim tão inocente. Lembro-me de dizer a mim mesma ‘Só estou a fazer o meu trabalho’”, recordaria a própria décadas depois numa entrevista ao jornal israelita Ynet. O trabalho de Yael foi tão fulcral que Ehud Barak diria mais tarde nunca ter trabalhado numa operação com “tão boas informações, com os pequenos detalhes explicados de forma tão minuciosa”.

Mas como decorreu exatamente a operação? Aviram Halevi faz a descrição: “Eles desembarcaram dos botes em Beirute, perto do Hotel Sands, numa zona onde se via as luzes e se ouvia a música. Foram transportados pelos soldados da Flotilha 13, para não molharem os pés e os sapatos, para que parecessem turistas e não pessoas que tinham molhado as calças e os sapatos com água do mar.” Ehud Barak sentiria alívio por o mar estar calmo, já que sofria de enjoos.

Entram então em três carros conduzidos por agentes da Mossad e viajam durante dez minutos. Saem num beco. É aí que lhes é dada toda a informação que Yael tinha transmitido. Dividem-se em quatro grupos: três vão aos apartamentos para matar os alvos; um mantém-se cá fora para guardar a porta.

Lonny Rafael, Amiram Levin e Ehud Barak vestem-se de mulher: os dois primeiros com cabeleiras loiras, o futuro primeiro-ministro com uma peruca morena. Outros agentes da Sayeret tratam da maquilhagem deles: batom, eyeliner azul, sombra nos olhos. Os três escondem as armas e os explosivos nas malas e nos sutiãs. Os homens colocam-nas nos bolsos e nos cintos. Caminham todos então pela Rue Verdun, até aos apartamentos.

“Estão a brincaraos cowboys e aos índios”

“Tal como planeado, cada unidade sobe aos andares respetivos. Estão organizados de forma a haver uma pessoa por quarto e uma extra em cada apartamento”, conta Halevi. São 11 da noite e, à medida que caminham pela rua, Ehud Barak comenta com o parceiro Muki Betser: “Isto faz-me lembrar Roma”. Chegam então aos prédios.

Na década de 1970, Beirute era uma das capitais mais vibrantes e ocidentalizadas do mundo árabe
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Um dos militares recordaria mais tarde o momento em que entrou no apartamento: “Quatro passadas e cheguei ao escritório do alvo. Meia dúzia de cadeiras vazias em frente à secretária. Atrás, armários que me recordaram que os serviços secretos queriam todos os papéis que conseguisse encontrar. À minha direita, segundo as plantas que eu tinha memorizado, estava o quarto principal.”

O soldado continua a descrição, numa entrevista à revista Al Majalla: “Fui nessa direção e a porta abriu-se. O rosto que eu conhecia há três semanas, por andar com a fotografia no bolso da minha camisa, estava a olhar para mim enquanto eu levantava a arma. Ele fechou a porta com força. Os meus tiros furaram a porta do quarto. Dei um pontapé no que restava da porta.” O homem é morto.

Outro agente, numa entrevista para o livro Sayeret Matkal (sem edição em português) de Aviram Halevi, conta como foi a sua experiência: “Havia uma luz suave, o suficiente para conseguir discernir Adwan com uma Kalashnikov na mão, de meias, calças cinzentas e uma t-shirt branca que em breve ficaria vermelha. O [meu colega] Amitai percebe de repente que está em risco e antecipa-se a Adwan, descarregando quatro rajadas de tiros contra o líder terrorista palestiniano.” Na cama estão a mulher e dois filhos de Adwan. “Missão cumprida. A mulher e os filhos deles estão aqui, matamo-los também?”, pergunta um dos agentes pelo rádio. “Se eles não resistirem, não os matem”, é a resposta. Os agentes fazem então uma última ronda pelo apartamento e saem com duas malas cheias de documentos. Anos mais tarde, a filha mais nova de Kamal Adwan, Dana, recordaria como assistiu à morte do pai: “Havia vidro partido nas nossas cabeças. Ele simplesmente caiu, tinha a cara meio virada. Eu disse ao meu irmão ‘Estão a brincar aos cowboys e aos índios’.”

O libanês Munem Abul Muna foi atingido com estilhaços durante a operação. Na foto, está à varanda da sua casa na Rue Verdun, onde tudo aconteceu
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No apartamento de Abu Yussuf a missão não foi tão fácil. “Ele estava preparado”, diz Halevi. “Ouviu barulhos no corredor fora do apartamento e pegou na sua AK 47. Quando eles entraram, uma pessoa foi um segundo mais rápida do que ele e matou-o. Morreu com a AK 47 nas mãos.”

A primeira parte da operação correu na perfeição, mas as complicações vieram depois. Quando Ehud Barak e Muki Betser chegam à rua, encontram um Renault vermelho que aparece de repente, de onde sai um homem alto de bigode. É um dos guarda-costas dos homens da OLP, que tinha adormecido. Abre o casaco de cabedal e retira uma pistola do bolso, seguindo em direção aos militares que estão na rua. “Não há hipótese”, murmura Barak ao colega. Os dois homens, um deles vestido de mulher, tiram as metralhadoras Uzi e disparam. Uma das balas atinge a buzina do carro, que dispara, acordando as pessoas na rua, que começam a chamar a polícia. “O inesperado é sempre o mais esperado”, comentaria mais tarde Betser.

Perucas, saltos altos e maquilhagem foram essenciais para que Ehud Barak e os colegas se disfarçassem de mulheres durante a operação. Nas malas e nos sutiãs levavam armas e explosivos escondidos.

A polícia vai chegando, enquanto alguns dos militares da Sayeret ainda estão nos apartamentos à procura de documentos. Levin e Barak — ainda vestidos de mulher —, começam a disparar em direção aos agentes. Quando chegam reforços, Betser atira uma granada para um dos jipes da polícia. Os israelitas entram apressadamente nos carros e partem. “Lembro-me de olhar com espanto para as ruas. Nunca tinha estado em ruas tão magníficas, nunca tinha visto apartamentos tão bonitos”, recorda Ehud Barak. De regresso à praia, embarcam nos botes e partem em direção a Israel. Ao todo, a operação durou menos de 30 minutos.

Pouco depois, um repórter da Associated Press e um fotógrafo chegam ao local. Entram na casa de Nasser e encontram-no morto no chão. “As balas tinham sido disparadas em direção à boca dele, porque era o porta-voz”, notou Farouk Nassar.

Do outro lado da rua, Yael senta-se à secretária e escreve uma carta ao seu superior como se fosse uma carta de amor. “Emil, meu querido, ainda estou a tremer com os eventos da noite passada. Acordei de repente a meio da noite com o som de explosões. Corri para a janela e vi uma batalha no meio da rua. Foi horrível, corri para a outra janela, onde me conseguia proteger de alguma bala perdida e ao fim de umas horas ficou tudo calmo e adormeci. Quando acordei, pensei que tinha sido tudo um sonho mau, mas não, foi real: aqueles israelitas horríveis estiveram aqui.” Incluiu uma mensagem escondida que dizia “Que grande espetáculo ontem à noite. Bom trabalho!”

O mito que levou à húbrisdo Yom Kippur

O efeito de propaganda da Operação Fonte da Juventude foi tremendo. Como resume Aaron J. Klein, “os jornais libaneses publicaram relatos de duas lindas mulheres — uma loira, uma morena — a lutarem como bailarinas armadas nas ruas de Beirute, mantendo longe a polícia, o Exército e os operacionais palestinianos com longas rajadas automáticas. As histórias eram muitas. Os mitos cresceram”, escreve o jornalista israelita em Striking Back: The 1972 Munich Olympics Massacre and Israel’s Deadly Response (sem edição em português). “A mensagem de dissuasão de Israel espalhou-se — a Mossad e os israelitas conseguem apanhar toda a gente, em todo o lado, até nos seus quartos. Muitos argumentam que a Fonte da Juventude ressoou de forma mais poderosa do que qualquer missão anterior da Mossad na Europa.”

Na memória coletiva, contudo, ficaram mais marcadas as ações de Ehud Barak e os seus homens do que as da Mossad. Apesar de Yael ter sido elogiada pela própria Golda Meir (“Esta menina fez tudo isto?”, perguntou a primeira-ministra quando a conheceu), a Fonte da Juventude tornou-se mais uma operação das Sayeret Matkal do que dos serviços secretos. A agente declarou anos mais tarde que não procurava o reconhecimento público, mas admitiu algum desconforto: “Às vezes perguntava-me por que não nos mencionavam mais vezes.”

Na prática, o sentimento de invencibilidade israelita não durou. Meio ano depois da operação, rebentou a Guerra do Yom Kippur, que se revelaria um desastre militar para o país. O próprio Ehud Barak reconheceu que a Fonte da Juventude “contribuiu para uma atmosfera de húbris na liderança, para o sentimento de que não havia problema em atuar sem restrições, porque acontecesse o que acontecesse, podíamos improvisar e ganhar.”

Aviram Halevi nota também como a operação não pôs um travão às ações palestinianas: “1974 e 1975 foram dois anos em que a OLP se vingou de Israel. O massacre da escola Malotte, [o ataque] ao Hotel Savoy… A dissuasão que tinha sido alcançada com a Operação Fonte da Juventude foi neutralizada.” Apesar disso, o antigo militar reconhece que a missão foi “um sucesso tático e um símbolo de criatividade e ousadia”. Mas, a longo prazo, diz, “não teve tanta influência como achávamos que ia ter”.

Os familiares das vítimas dos Jogos de Munique mantêm alguma ambivalência em relação à Fúria de Deus, onde se incluiu a Fonte da Juventude. “Não me encheu de alegria pensar ‘Boa, estão a vingar-se pelo Andre’, porque nunca procurei a vingança. Não vivo pela vingança, vivo pela justiça”, desabafou a mulher de Andre Spitzer, um dos atletas mortos em 1972.

Quanto a Ehud Barak, que viria a tornar-se primeiro-ministro anos mais tarde, ficou para sempre associado ao sucesso em Beirute. Halevi, que confessa que às vezes os dois ainda falam ao telefone de madrugada, diz não ter dúvidas de que Barak tem consciência da importância da operação para a criação do seu mito pessoal: “Foi o ponto alto do seu período de dois anos como comandante.”

 

Estamos a 27 de junho de 1976 e os Davidson preparam-se para embarcar numa viagem em família aos Estados Unidos, atravessando o país de costa a costa. Foi um presente para o filho mais velho, Ron, que está prestes a entrar na tropa, e para o mais novo, Benny, que vai fazer o seu Bar Mitzvah. Aproveitando um pacote da Holiday Inn com a Avis e a Air France, a família embarca primeiro para Paris, para aproveitar o desconto. A escolha deste voo vai mudar a sua vida.

O voo 139 que partiu de Telavive leva a bordo 247 passageiros e 12 membros da tripulação. Mas, quando o avião pára em Atenas para reabastecer, acontece algo inesperado.

Foto do Airbus A300 da Air France que foi sequestrado a 22 de julho de 1976
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“De repente, ouvimos um grito muito agudo de uma mulher, vindo da primeira classe”, conta o filho mais novo, Benny, que 50 anos depois recorda ao Observador como a viagem desejada foi interrompida pela violência: “Lembro-me de a minha mãe por a mão no joelho do meu pai e dizer ‘Uzi, fomos sequestrados’. Assim, de repente, um palpite.” Estamos na década de 1970 e o que não falta são voos a serem desviados por grupos terroristas e outros criminosos que procuram chantagear governos para atingirem os seus fins. Sara tinha razão.

Segundos mais tarde, uma hospedeira entra pelo corredor com as mãos no ar. Atrás dela vem uma mulher, que empunha uma arma apontada à cabeça da assistente de bordo e tem na outra mão uma granada. “Este avião foi sequestrado”, grita. Dois homens juntam-se a ela, brandindo as armas e gritando “Este avião foi sequestrado, fiquem sentados”. “Não imagina o balagan que se instalou”, diz Benny, usando a palavra hebraica que significa “confusão” ou “caos”. “O avião rebentou em histeria.”

Poucos minutos antes, os três terroristas tinham tomado conta do cockpit, como recordou o capitão, Michael Bacos, numa entrevista ao Ynet anos mais tarde. Ouvindo a comoção na zona dos passageiros, um dos pilotos abre a porta para ir ver o que se passa. Do outro lado está um homem à sua espera. “[O terrorista] deitou ao chão um dos técnicos e apontou-me uma arma à cabeça. Também tinha uma granada. Percebi imediatamente que estava em curso um sequestro e que não tínhamos como resistir”, contou o comandante.

O piloto Michael Bacos (ao centro, de camisa branca), percebeu rapidamente que o avião tinha sido sequestrado por terroristas
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“Daqui fala o vosso novo capitão”

O homem que apontou a arma à cabeça do piloto chama-se William Böse. É alemão e faz parte de um grupo chamado Células Revolucionárias. Ele e a mulher, Brigitte Kuhlmann (também ela alemã), fizeram uma parceria com dois membros da Frente Popular de Libertação da Palestina para tomarem conta do avião. O grupo tem como plano inicial desviar o avião para Benghazi, na Líbia. Querem exigir um resgate de cinco milhões de dólares e a libertação de 53 presos palestinianos, 40 deles em Israel.

William Böse, um dos terroristas das Células Revolucionárias
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Brigitte Kuhlmann era a única mulher entre os sequestradores
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Já com o controlo do cockpit, Böse dirige-se aos passageiros pelo intercomunicador: “Daqui fala o vosso novo capitão. Fiquem calmos e sentados. Vamos deixar-vos ir à casa de banho, mas têm de perceber que nós temos revólveres e explosivos e vocês não podem fazer nada quanto a isso. Respeitem as nossas ordens e façam o que vos pedimos. Como os explosivos estão na parte da frente do avião, só podem ir à casa de banho lá detrás. Não vos faremos qualquer mal e não vamos matar-vos. Façam o que dizemos, obedeçam às nossas ordens. Dar-vos-emos mais instruções em breve”, conta o historiador Saul David, no seu livro Operation Thunderbolt (sem edição em português). Uma criança que segue a bordo do avião, Shay Gross, pergunta nesse momento: “Mãe, morrer dói?”

Enquanto tudo isto decorre, Uzi, o pai da família Davidson que é também major da Força Aérea, dá instruções à mulher e aos filhos. Manda as crianças baixarem-se no lugar, para evitar serem atingidas se uma bala for disparada. Depois, pega no cartão de entrada para a base militar em que trabalha e desfaz o papel em quatro pedaços. Divide-os por si, pela mulher e por Ron e Benny. Pede que rasguem o papel em pedaços ainda mais pequenos e que os ponham na boca para os transformar numa pequena bola de cuspo. Depois, coloca os papéis dentro da lata de uma bebida. “Quando se ouviu o grito agudo e eles começaram a andar por todo o lado, o meu sangue gelou. Fiquei frio. Mas quando o meu pai nos deu esta instrução e começou a explicar como devíamos fazê-lo, isso desviou a minha atenção desta situação assustadora”, recorda Benny. De seguida, a mãe tira quatro Valiums da carteira e distribui-os. “Ofereceu um ao meu pai, mas pode imaginar a resposta dele”, conta o filho, entre risos.

Os outros passageiros começam a ficar inquietos. Um homem marroquino pergunta ao companheiro de viagem “Não devíamos fazer alguma coisa?” Os dois debatem o que podem fazer, um mais cético, o outro mais confiante. Outro israelita que está sentado na primeira fila pensa o mesmo. “Era tentador”, contaria mais tarde. “Mas os terroristas estavam bem distribuídos pelo avião.” Um antigo soldado alimenta as mesmas conversas com alguns vizinhos, equacionando usar latas de Coca-Cola para atacar os sequestradores. A mulher diz ao militar “Nem te atrevas”. O pai de Benny diz o mesmo a outros passageiros. É demasiado perigoso.

Seguindo as ordens dos terroristas, o piloto Bacos leva o avião para Benghazi. Ali chegados, uma mulher, Patricia Martel, diz que se está a sentir mal. Está grávida e teme estar a ter um aborto espontâneo. Um médico a bordo, David Bass, aproxima-se dela. “Estou a fazer bluff”, diz-lhe Patrícia, que não está grávida. “Tenho de sair daqui.” A enfermeira está disposta a fazer o que for preciso para não faltar ao funeral da mãe, que vai ter lugar em Londres. É chamado um segundo médico, desta vez um líbio que sobe a bordo para a examinar e que diz que Patricia está bem. É então que a mulher, que está menstruada, mostra a hemorragia que diz ser a prova de que pode estar a perder o bebé. Decidem deixá-la sair do avião. Antes de chegar à porta, Patricia diz a dois dos passageiros: “Boa sorte”.

Os membros das Células Revolucionárias ficam inquietos. “Oiçam”, diz William pelo intercomunicador. “Não queremos que vocês comecem todos a inventar doenças para saírem do avião. Foram avisados. Temos um médico a bordo, não tentem enganar-nos, senão serão severamente punidos.”

No cockpit, dá uma ordem ao comandante para voltar a levantar voo. “Para onde vamos?”, pergunta Bacos. “Não te diz respeito”, responde o terrorista.

Os abraços e apertos de mãoentre Idi Amin e os terroristas

Enquanto o sequestro se desenrolava, os detalhes do que se passava a bordo do voo 139 chegavam ao Conselho de Ministros israelita.

“Há 230 passageiros”, diz o primeiro-ministro Yitzhak Rabin aos colegas, enquanto acende um cigarro. “Pelo menos agora sabemos onde estão. Mas há três coisas cruciais que não sabemos. Não sabemos se Benghazi é o seu destino final. Não sabemos quem são os sequestradores. E não sabemos quais vão ser as suas exigências.”

À medida que o avião se aproxima do seu novo destino, William Böse faz uma nova comunicação aos passageiros: “Senhoras e senhores, agradecemo-vos por terem voado com a Air France. Esperamos que tenham ficado satisfeitos com o serviço e que voltemos a vê-los em breve nesta companhia.” São cinco da manhã e o avião aterra em Entebbe, no Uganda.

“Uganda, bom sinal, temos boas relações com Idi Amin”, comentam alguns israelitas a bordo. Outrora, o sanguinário líder africano fora bem recebido em Israel, que deu treino aos seus soldados. Mas os tempos já não são os mesmos. “Desembarcámos e vimos que ao pé das escadas havia duas filas de soldados ugandeses armados dos pés à cabeça”, recorda Benny Davidson. “E depois vimos os nossos quatro terroristas a juntarem-se a outros cinco ou seis que estavam lá em baixo. Vimos Idi Amin e a sua entourage a trocarem abraços e apertos de mão com os terroristas.”

O ditador ugandês Idi Amin manteve boas relações com Israel, mas durante a crise de Entebbe declarou-se como antissionista e apoiou os terroristas
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Os reféns são levados para o antigo terminal do aeroporto de Entebbe. Ao fim de duas horas, chega uma equipa do Hotel Lake Victoria, carregada com tabuleiros de arroz, caril e bananas. “Embora os empregados tenham sido extremamente educados, dizendo ‘Meu senhor’ e ‘Por favor’, alguns dos reféns recusaram o caril, por não conhecerem a sua proveniência — ‘pode ser feito de girafas’, escrevinhou Moshe Peretz no seu diário — ou por escrúpulos religiosos”, pode ler-se no livro Operation Thunderbolt.

Lá fora, na pista, estão dois aviões de combate modernos da Força Aérea do Uganda — dois MiGs —, talvez para intimidar os reféns. E, às seis da tarde, o próprio Idi Amin vem falar diretamente ao grupo. “Shalom”, começa por dizer o homem imponente, de 1,93m de altura. “Acho que alguns de vocês me conhecem. Para os que não conhecem, sou o marechal de campo Dr. Idi Amin Dada, o homem responsável por vos permitir sair do avião”, continua.

“Apoio a Frente Popular de Libertação da Palestina e acho que Israel e o sionismo são errados. Sei que vocês são inocentes, mas o vosso Governo é culpado. Não durmo desde que vocês chegaram. Ainda não recebi as exigências da Frente Popular, mas prometo-vos que estou a dar o meu melhor para que vocês possam ser libertados em breve.” Depois termina com hospitalidade: “Espero que fiquem confortáveis. Dei ordens para que tenham cadeiras e colchões extra. Voltarei para ver-vos em breve.”

Os sequestradores decidem então dividir os reféns em dois grupos, com base nos seus passaportes: judeus para um lado, não-judeus para o outro. Os últimos são libertados — com exceção da tripulação, que faz questão de ficar com os reféns judeus. “Demorámos um pouco a perceber que estávamos perante uma seleção. Eu tinha só 13 anos, mas conhecia bem a História. A família da minha mãe é de Lodz, na Polónia, e morreu quase toda em Treblinka”, reflete Benny, que diz não esquecer “o choque de ver dois terroristas alemães a fazer uma seleção 30 anos depois da II Guerra Mundial”. Quando as notícias chegam a Telavive, o Governo fica em choque. “Meu Deus, vamos ter um pequeno Holocausto”, desabafa o ministro da Defesa e futuro primeiro-ministro Shimon Peres.

Os sequestradores apresentam, através de Amin, as suas exigências. E dão um prazo para que sejam cumpridas: 1 de julho, dali a quatro dias. O primeiro-ministro Rabin está inclinado a ceder. No dia antes de o prazo terminar, reúne-se com o seu Conselho de Ministros e apresenta os seus argumentos: “Não temos o direito de abandonar os reféns”, declara, como recorda no seu livro The Rabin Memoirs (sem edição em português). “O ministro da Defesa fez um discurso patético sobre as implicações de ceder à chantagem terrorista e precisei de um nível considerável de paciência para não o interromper”, afirma — a rivalidade entre Yatzhik Rabin e Shimon Peres já era antiga. “Neste momento o nosso problema não é retórica. Se tem uma proposta melhor, força. O que sugere?”, desafia o primeiro-ministro.

O ministro da Defesa Shimon Peres e o primeiro-ministro Yitzhak Rabin tinham uma relação tensa, que se tornou evidente durante o sequestro de Entebbe
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O Conselho de Ministros vota por unanimidade negociar com os sequestradores. Mas Peres só votou a favor para “ganhar tempo”, garante. À saída da reunião, diz a um colega que precisam de pensar num plano para retirar os reféns de Entebbe.

Um primeiro-ministrocom medo de ser enforcado

É então que a Mossad entra em ação.

A Cesareia, unidade de elite do Instituto, manda dois dos seus agentes, que têm formação como pilotos, alugarem um Cessna. Estes fazem um voo a partir de Nairobi, no Quénia, até Entebbe. Circulam por cima do aeroporto e tiram todas as fotografias que conseguem: da pista, dos edifícios do terminal, dos MiGs ali estacionados. Aterram no aeroporto e um deles sai para falar com os controladores aéreos. Diz ser um caçador inglês, com base num país da África Central. Conversam alegremente sobre “a confusão dos últimos dias” no aeroporto e até bebem um copo.

Doze horas depois, são levadas ao primeiro-ministro as fotografias e todas as informações recolhidas pelos seus pilotos. Rabin começa a ganhar esperança: “Era mesmo isto de que precisávamos. Isto são informações para uma operação”, comenta.

Ao mesmo tempo, o Governo israelita tinha mandado responsáveis a França com a missão de entrevistar os reféns que tinham sido libertados. Estes descrevem o interior do terminal, a localização dos soldados e os terroristas.

Com toda esta informação, o diretor da Mossad, Yitzhak Hofi, fala ao Conselho de Ministros e defende que é possível montar um plano de resgate semelhante ao da captura de Adolf Eichmann, o criminoso nazi raptado pela agência na Argentina. O momento é contado por Gordon Thomas em Os Espiões de Gedeão (Ed. Prefácio): “Se deixarmos o nosso povo morrer, isso vai abrir as comportas. Nenhum judeu estará a salvo. Hitler terá conseguido uma vitória da campa”, argumenta. “Muito bem. Vamos tentar”, responde-lhe o primeiro-ministro.

É convocada uma unidade das forças especiais da Sayeret Matkal. Cinco militares — Dan Shomron, Joshua Shani, Avi Einstein, Muki Betser e Yonathan Netanyahu — examinam as fotografias tiradas pelos agentes da Mossad. A Sayeret Matkal elabora um plano: a unidade viajará até Entebbe em quatro aviões de carga C-130, conhecidos como Hércules, que vão parar para abastecer no Quénia, a meio do caminho. Quando aterrarem, um Mercedes preto — igual ao usado por Idi Amin — sairá de um dos aviões, acompanhado por jipes, para enganar os terroristas e fazer parecer que quem ali está é o líder ugandês. Depois, os militares usarão o elemento-surpresa para um raide. O mais difícil inicialmente era arranjar um Mercedes igual ao de Amin, mas finalmente um agente da Mossad encontra um numa garagem em Jafa. É branco e, por isso, é pintado de preto. A bordo seguirá um homem alto, também com a cara pintada de preto, que se fará passar por Idi Amin. A Operação Relâmpago tinha nascido.

A réplica do Mercedes de Idi Amin, aqui representada no filme “Operation Thunderbolt”
William KAREL/Gamma-Rapho via Getty Images

O chefe de gabinete do primeiro-ministro visita-o para perceber qual a sua opinião sobre o plano. “Amos, estive a pensar neste plano toda a noite e vou dar a minha aprovação”, diz-lhe Rabin. “Os pilotos demonstraram que conseguem aterrar no escuro e que o elemento-surpresa é possível. Também estou contente porque o aeroporto não está cheio de explosivos. Acho que vale a pena o risco”, conclui. À saída, Rabin leva Amos Eiran ao elevador e pede-lhe que escreva uma carta de demissão em seu nome, para o caso de a operação falhar. “Qual é a tua definição de falhanço?’”, pergunta-lhe o chefe de gabinete. “Se 25 morrerem, considero que a operação falhou e assumo a responsabilidade. Se forem menos do que isso, considero-a um sucesso.” As hipóteses, diz, são de 50-50.

O primeiro-ministro Yatzhik Rabin foi inicialmente contra a ideia de uma operação de resgate, mas mudou de opinião quando a Mossad lhe trouxe informações concretas do terreno
William KAREL/Gamma-Raphovia Getty Images

Aprovado o plano por unanimidade em Conselho de Ministros, Rabin senta-se sozinho no seu escritório. É informado de que os militares já estão a caminho do Quénia. “Assim seja”, responde o primeiro-ministro enquanto bebe um whisky. “Não posso fazer mais nada.” Anos mais tarde, a sua filha lembrar-se-ia da frase que o pai disse à mãe nessa noite: “Amanhã, ou sou um rei ou vou ser enforcado na praça da cidade.”

Um Mercedes, uma oraçãoe um soldado caído

Em Entebbe, os dias vão passando lentamente para os reféns. São preenchidos com jogos de cartas e de gamão, lendo livros e conversando.

Benny Davidson está precisamente a lançar os dados durante um jogo com o irmão Ron quando comenta: “Hoje, à meia-noite, vão chegar as IDF”. “Tive um palpite. Era a ilusão de um miúdo, um pensamento romântico, não sei, não consigo explicar”, tenta agora enquadrar, anos depois. “Mas eu estava errado. Eles não chegaram à meia-noite — chegaram às onze da noite.”

Foto do baralho de cartas que Benny e Ron Davidson usaram durante o sequestro em Entebbe

Pouco tempo antes disso, os Hércules já tinham atravessado o Mar Vermelho a baixa altitude, para não serem detetados pelos radares. A bordo, o comandante Yonathan (Yoni) Netanyahu — irmão do futuro primeiro-ministro Benjamin Netanyahu — faz um discurso motivador e diz aos colegas que existe “uma responsabilidade mútua entre todos os judeus para se ajudarem uns aos outros”.

Quando o avião onde seguia aterra, o soldado Amir Ofer engatilha a sua arma. Um colega reage de imediato: “Não engatilhes a arma dentro do avião!” O militar responde-lhe: “Cala-te, isto é uma guerra a sério”. Aterrados os aviões de carga, o Mercedes preto avança para a pista. “Havia um silêncio e uma escuridão totais, mais negros do que o negro, na pista enorme e vazia”, recordaria um dos soldados ao jornalista Ronen Bergman no livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates). “Só pensei para mim ‘Mãezinha, isto é assustador’.”

A réplica do Mercedes-Benz de Idi Amin foi usada como manobra de distração pelos comandos israelitas. Uma cópia exata do modelo foi encontrada por um agente da Mossad numa garagem em Jafa — era branca, motivo pelo qual o carro foi pintado de preto.

O Mercedes e os jipes avançam sem dificuldade pela pista. Quando chegam perto dos primeiros guardas, os militares matam-nos rápida e silenciosamente. E continuam a avançar em direção ao terminal, sem alertar nem os soldados ugandeses, nem os terroristas alemães.

Dentro do terminal, Benny está deitado num colchão, no chão, a tentar dormir. Ao seu lado, a mãe e o irmão jogam bridge com um casal, enquanto o pai lê um livro sobre a II Guerra Mundial. Benny está quase a adormecer quando ouve o estrondo das janelas de vidro a partirem-se com os tiros. A mãe atira-se para cima dele de imediato, a protegê-lo das balas com o seu próprio corpo. E começa a ouvir o filho a recitar uma ladainha, ininterruptamente. Benny está a rezar a oração Shema Yisrael — “Deus é o Senhor, Deus é o nosso pai” —, acrescentando “Deus, por favor, salva-nos, não nos deixes morrer”.

Durante a troca de tiros, três dos terroristas são imediatamente mortos. Quando o tiroteio dentro do terminal cessa, o soldado Amos Goren entra e fala aos reféns: “Olá. Peguem nas vossas coisas, os outros soldados estão à vossa espera na pista.”

Benny DavidsonUm dos refénsdo voo 139

“Aquilo que tinha sido a nossa casa durante quase uma semana tornou-se num banho de sangue em poucos minutos”, recorda Benny. “Vi coisas que nenhum rapaz de 13 anos devia ver.” Aturdido, segue com a família lá para fora, para a pista, todos de mãos dadas. “Lembro-me de ouvir explosões nas minhas costas. Então olhei por cima do meu ombro direito e vi os MiGs da Força Aérea ugandesa a explodir, a acenderem-se como velas, um atrás do outro.”

A missão está a ser um sucesso do ponto de vista do resgate, mas deixa atrás de si um rasto de sangue. Dois reféns, Pasco Cohen e Ida Borochovich, são apanhados no fogo cruzado. Um terceiro, Jean-Jacques Mimouni, é morto por engano quando se levanta repentinamente para saudar os militares israelitas. Uma quarta refém que tinha sido levada para o hospital dias antes, Dora Bloch, será assassinada mais tarde por ordens do próprio Idi Amin, em retaliação pela operação. E um dos militares, o páraquedista Surin Hershko, fica ferido — a bala que o atinge na coluna deixá-lo-á paralisado do pescoço para baixo o resto da vida.

Yoni Netanyahu foi o comandante da Operação Relâmpago. Irmão do futuro primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, acabou por ser morto durante o raide
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Mas há uma baixa que deixa os militares particularmente abalados. Quando a maioria já está dentro dos aviões, um soldado pega no rádio para informar os colegas: “O Yoni foi abatido, o Yoni foi abatido”. O comandante da Operação Relâmpago tinha sido morto a tiro.

Quando os Hércules param em Nairobi para reabastecer, Ehud Barak — que estava a supervisionar a operação a partir do Quénia — entra a bordo. Os reféns, contaria mais tarde, estão “efervescentes”. Os combatentes, cansados, não conseguem festejar, porque ainda têm na cabeça a notícia da morte do comandante. Barak aproxima-se do corpo de Yoni Netanyahu, que segue a bordo de um dos aviões. “O seu rosto estava branco. Era um jovem muito bem parecido”, contaria ao The Guardian o homem que seria eleito primeiro-ministro mais tarde. “Pus a minha mão na testa dele: ainda estava quente. Só tinha passado uma hora desde a morte dele. Tinha uma expressão meio serena, não transmitia qualquer tipo de sofrimento.”

Quando as notícias do sucesso da missão chegam a Telavive, o ministro da Defesa Shimon Peres dá instruções ao militar que faz a ponte com o regime de Idi Amin para transmitir ao marechal de campo ugandês uma mensagem enigmática. Borka Bar-Lev telefona então ao líder africano. A conversa é a seguinte:

“— Daqui fala o Presidente Amin.— Muito obrigado. Quero agradecer-lhe pela sua colaboração, agradecer-lhe muito.— Mas eu fiz alguma coisa?— Os meus amigos que têm boas ligações ao Governo pediram-me para lhe transmitir quão gratos estamos pela sua colaboração. Não sei o que querem dizer com isso, mas imagino que você saiba.— Não sei de nada, acabei de chegar. Vim à pressa das Maurícias para resolver este problema, antes que o ultimato expire amanhã.”

Idi Amin ainda não sabia nada do que tinha acontecido em Entebbe nessa noite.

“Sentia-me culpadoporque eu tinha sobrevividoe ele não”

Os soldados e reféns seguem a bordo dos Hércules e, quando começam a sobrevoar espaço aéreo israelita, celebram. Alguns choram. Eran Dolev, um dos médicos da missão, decide recorrer ao humor para lhes dar as boas-vindas: “Tenho de vos dizer que na noite passada Israel introduziu pela primeira vez IVA de 8%”, diz pelo intercomunicador. “Se não gostam, são livres de voltar para Entebbe.” Gargalhada geral.

No aeroporto Ben-Gurion aguarda-os uma comitiva de Estado que inclui o primeiro-ministro, Yitzhak Rabin, de camisa branca e óculos escuros, e o ministro da Defesa, Shimon Peres. Quando os aviões aterram, os reféns finalmente desembarcam. À sua frente têm uma enorme multidão entusiasmada, que grita por eles e os aplaude. As famílias estão à sua espera, em lágrimas, numa outra zona para onde são levados de autocarro. O momento do reencontro foi relatado numa reportagem do The New York Times: “Homens e mulheres começaram aos gritos de alegria, à medida que os reféns cansados e amarrotados desembarcavam dos autocarros. Abanando os braços, famílias inteiras tocavam-se em abraços ondulantes e chorosos. Havia velhos e babushkas, raparigas novas de calças, homens com barba de uma semana. Foi um semi-caos quando vários líderes políticos chegaram. O senhor Rabin e o senhor Peres foram rodeados por uma multidão feliz e Menachem Begin, líder da oposição, foi erguido em ombros e levado ao som de gritos rítmicos de ‘Begin! Begin! Begin!’”

Um membro das Sayeret Matkal é levado em ombros pela multidão que se reuniu para receber os militares responsáveis pela operação e os reféns
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Fotografia dos reféns do voo 139 na chegada a Israel. Benny Davidson (no círculo amarelo) é um deles

Os Davidson também saem do autocarro atordoados. O primeiro-ministro Rabin chama então à parte o pai da família, Uzi, e diz-lhe que tem a transmitir cumprimentos sentidos do seu pai, que defendeu até ao fim que os reféns fossem resgatados. Uzi, que até então tinha sido o rosto estóico da contenção, afasta-se do primeiro-ministro e desfaz-se em lágrimas.

Os efeitos do que aconteceu em Entebbe perdurariam nos anos seguintes em muitas vidas. Anat Brodesky Charniak, a refém mais jovem (tinha apenas seis anos), chegou a casa e a primeira coisa que fez foi fazer um desenho de Idi Amin. No dia seguinte, as famílias de dois dos reféns mortos na operação realizaram os seus funerais com honras militares. “É o destino desta nação que cada alegria e encanto sejam misturadas com dor e luto”, declarou o capelão.

O militar Surin Hershko, que ficou paralisado depois de ter sido baleado durante a operação, com Benjamin Netanyahu, irmão do comandante Yoni
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O páraquedista Surin Hershko não morreu, mas a sua lesão deixou-o sem mobilidade em todos os membros, capaz de comunicar apenas através de um computador que controla com uma longa palhinha.

Benny Davidson tinha apenas 13 anos à altura e o que aconteceu em Entebbe afetou-o profundamente. “As ações instintivas dos meus pais demonstraram-me que, mesmo quando somos colocados em perigo numa situação caótica, de terror, há coisas que podemos fazer para voltar a ter pelo menos um controlo mínimo da situação. Seja tomar um Valium ou baixarmo-nos na cadeira”, ilustra. “O principal propósito do terrorismo é tirar-nos a liberdade e aterrorizar-nos para sentirmos que não temos qualquer controlo.” Dez dias depois de regressarem de Entebbe, os Davidson embarcaram noutro avião em direção aos Estados Unidos — desta vez, num voo direto.

Este israelita também fez sempre questão de manter o contacto com todos os soldados que participaram na operação. Mas, durante anos, não conseguiu ir visitar a campa de Yoni Netanyahu. “Sentia-me culpado porque tinha sobrevivido e ele não”, admite. Ao mesmo tempo, alimenta um profundo sentimento de descrença por sentir que Yoni era muito diferente do irmão, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. “Nunca votei à esquerda, nem no Rabin, nem no Peres, mesmo tendo eles salvado a minha vida”, diz Benny, para explicar que o seu desagrado com Bibi é sobretudo pessoal e não ideológico. O heroísmo dos que sobreviveram a Entebbe e dos que levaram a cabo o resgate permaneceu durante décadas na memória coletiva de Israel como exemplo do melhor do país.

 

O panfleto de cores vivas deixa uma garantia: “Arous no Mar Vermelho, um maravilhoso mundo à parte.” Ali informam-se os turistas de que este “centro recreativo de mergulho e deserto” tem “algumas das águas mais límpidas do mundo” e “paisagens de tirar a respiração, com céus em fogo com milhões de estrelas”. Foi distribuído por várias agências de viagem, ao longo da década de 1980, e trouxe ao resort de Arous muita clientela.

Um folheto turístico que promovia o resort de Arous, no Sudão. O local era frequentado por turistas estrangeiros e oferecia aulas de mergulho e outras atividades.

Aquilo que não era sabido pelos clientes é que por trás da gestão deste complexo turístico estava uma das maiores agências de espionagem do mundo. Durante cinco anos, a Mossad manteve em funcionamento uma unidade hoteleira no Sudão que, para além dos luxuosos quartos, fornecia aos hóspedes aulas de mergulho e outras atividades. Era apenas mais uma fonte de rendimento para a agência israelita? Não exatamente. Arous era uma elaborada fachada para a Operação Irmãos, em que vários agentes do Instituto mantinham um trabalho de dia num resort e outro à noite, resgatando pela calada milhares de judeus etíopes e transportando-os para Israel.

Tudo começa com um homem. Farede Aklum é um jovem professor de 30 anos assediado pelas autoridades da Etiópia pelo seu judaísmo, que suspeitam estar ligado a atividades de espionagem. A comunidade de judeus no país, conhecida como Beta Israel, já há muito que vive sob pressão. Mantendo a crença de que descendem diretamente do Rei Salomão e da Rainha do Sabá, os judeus etíopes sempre cumpriram as práticas do judaísmo bíblico e sentem-se como estranhos na sua terra.

Os Beta Israel, judeus da Etiópia, acreditam que descendem diretamente do Rei Salomão e da Rainha do Sabá. Sempre cumpriram as práticas do judaísmo bíblico, mesmo vivendo na diáspora
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Farede decide partir para o país vizinho, o Sudão de maioria muçulmana, com um objetivo: obter ajuda da Mossad para fugir de África. Como ele, milhares de judeus partiram antes para fugir à guerra civil na Etiópia e vivem agora aglomerados em campos de refugiados no Sudão. Depois de uma dura caminhada de quase 500 quilómetros, ao longo de vários dias, o jovem chega ao seu destino e entra em contacto com uma organização suíça. O seu pedido acaba por ir parar à secretária de um homem — Danny Limor, agente da Mossad.

Menachem Begin foi o primeiro-ministro israelita que ordenou à Mossad que montasse uma operação para resgatar os judeus etíopes
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A chegada do telegrama coincide com uma decisão tomada pelas altas instâncias israelitas: “Traz-me os judeus da Etiópia”, pediu o primeiro-ministro, Menachem Begin, ao diretor da Mossad, Yitzhak Hofi. Limor é então escolhido para contactar Farede Aklum e dar início à Operação Irmãos. “Dei-lhe esse nome por causa da relação que eu e Farede estabelecemos”, revela ao Observador o próprio Danny Limor, mais de 40 anos depois.

Quando a operação tiver chegado ao fim, Danny terá ajudado a transportar secretamente mais de sete mil judeus etíopes para Israel.

Arous, um oásis de camas feitas de lavado e cozinha equipada

Danny e Farede começam a percorrer os campos de refugiados do Sudão, a tentar identificar os judeus etíopes e a contabilizá-los. À noite, organizam operações clandestinas para levar alguns deles para o Mar Vermelho, de onde são levados até Israel em barcos. Ao mesmo tempo, o jovem professor começa a enviar mensagens para a Etiópia a dizer a outros judeus para virem para o país, onde garante que serão ajudados. Eles começam a vir.

Vários judeus etíopes fugiram para o Sudão para escapar à guerra civil na Etiópia
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Milhares viviam acumulados em campos de refugiados sudaneses
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“Quando começámos a chegar aos milhares, percebi que não podíamos continuar. Já tínhamos quatro carros a fazer as viagens de ida e volta, mas começámos a chegar ao gargalo, não havia mais espaço. Os números eram demasiado elevados”, recorda Danny. Até que, um dia, a solução apresenta-se à frente dos seus olhos. Enquanto palmilha a costa à procura de praias onde os etíopes possam embarcar, encontra um conjunto de pequenas casas de telhado vermelho. “Havia um beduínio a guardar o local e ele explicou-me que isto era um resort que fora construído por uns italianos anos antes, mas que tinham ido à falência.”

Lá dentro, tudo está intocado. Camas feitas de lavado, cozinhas equipadas, um gerador que pode ser reparado, barcos e equipamento de mergulho. “Era o sonho molhado de qualquer tipo que está a fazer trabalho clandestino”, diz Danny com um sorriso. “Se tomássemos conta do sítio, tornava-se a nossa base e tínhamos uma desculpa para a nossa presença.” Sem mais demoras, Danny faz os contactos certos e consegue uma autorização para gerir o resort de Arous e começar a receber turistas. A partir dali, começa durante a noite a levar os judeus etíopes para a praia.

O projeto era megalómano, como reconheceu um espião da Mossad ao jornalista Raffi Berg no seu livro Red Sea Spies (sem edição em português): “Normalmente, quando se faz uma operação em território inimigo tem-se um disfarce e mantêm-se contactos, mas ninguém se expõe intencionalmente a centenas, senão milhares, de pessoas que não conhece.” O agente conta que, dentro da Mossad, havia “muita hostilidade” em relação a esta operação. “Mas ou se corre o risco ou não se corre, e não correr não era uma opção”, conclui.

Yola, a hospedeiraque arranja vegetais,cerveja e equipamentode mergulho

Para ajudar na operação, o Instituto decide mandar outro agente para o Sudão. E Danny pede expressamente que seja uma mulher, já que uma unidade hoteleira gerida inteiramente por homens chamaria a atenção. A escolhida não é uma agente veterana da Mossad, mas sim uma simples hospedeira de bordo: Yola Reitman impressionou os coordenadores da Mossad e, depois de ter passado com sucesso em vários testes, parte para o resort no Mar Vermelho.

Assim que chega, Yola — ou melhor, Angela, o seu nome de código — começa a trabalhar para colocar Arous a funcionar. Compra um congelador e trata de importar carne e queijos, com o resto da comida a ser comprada localmente. Contrata três cozinheiros, vários empregados, um condutor e mulheres para limparem os quartos, enquanto agentes da Mossad que se fazem passar por técnicos vão instalar sistemas de ar condicionado. Ao mesmo tempo, Danny compra barcos a motor, caiaques, camiões e um jipe Toyota. Os instrutores de mergulho são, na verdade, membros da Flotilha 13, um dos comandos navais mais especializados de Israel.

Yola não tem dúvidas de que é essencial na operação. “A presença de mulheres normaliza as situações. Um grupo só de homens é inconscientemente associado a um gangue ou a um exército”, comentaria anos depois com Chloé Aeberhardt, autora do livro Les Espionnes Racontent (sem edição em português). Danny confirma que Yola era “a única da equipa capaz de gerir aquele resort”. “Ela ia buscar todos os mantimentos a Porto Sudão, os vegetais e a fruta frescos. Os nossos clientes — italianos, alemães, britânicos, franceses — não conseguiam sobreviver se não bebessem cinco litros de cerveja por dia. E nem estou a contar com o whisky à noite”, afirma entre risos. “Este era um país muçulmano, o álcool é proibido. Mas ela conseguiu arranjar um amigo no duty free do porto que comprava álcool aos marinheiros.”

Não é a única relação útil que Yola estabelece no Sudão. Um general, que, de acordo com o livro As Amazonas da Mossad (ed. Edições 70), se apaixonou por ela, dá-lhe equipamento de descompressão para mergulho em troca de treino para as forças especiais do Sudão — sem fazer ideia de que estão, na verdade, a ser treinadas por militares israelitas. “Todas as quintas-feiras, Yola enviava ao general lagosta fresca da baía”, pode ler-se no mesmo livro.

“Lembro-me que o dinheiro começou a entrar”, recordou Yola num documentário do Smithsonian. “Enviei um telegrama para o quartel-general: ‘Estamos ricos!’ Estava completamente entusiasmada pelo quão bem sucedidos estávamos a ser.”

Ao dinheiro somava-se a diversão. Danny mantém um disfarce como antropólogo francês e começa a frequentar os círculos da elite sudanesa. Joga ténis com o irmão do Presidente e vai às discotecas frequentadas pela nata da sociedade. Arranja namoradas, apesar de ter uma mulher e filhas em Israel. Termina com uma delas por esta uma vez ter dito “esses filhos da mãe dos judeus”. Para Danny, manter o disfarce justifica muita coisa, mas não tudo.

Danny Limor durante uma das missões de transporte de etíopes até à praia

O resort também é um local de festas, nas quais os agentes participam. “Já tive bons momentos em muitos sítios na minha vida, mas nenhum como este”, comentou um turista alemão com Gad Shimron, um dos agentes da Mossad em Arous, que contou a história no seu livro Mossad Exodus (sem edição em português). “Na sua última noite”, escreve Shimron, “ele fez-me jurar por tudo o que me é querido que o ia visitar à Baviera. Eu, é claro, não tinha qualquer intenção de alguma vez aparecer à sua porta para recordar histórias nostálgicas dos dias doces em Arous.”

Na Mossad, começam a circular alguns comentários invejosos sobre os “dias doces” que os agentes da Operação Irmãos estão a viver. Afinal, poucos membros da Mossad se podiam gabar de alguma vez terem participado numa missão tão agradável.

Um hóspede curioso demaise uma emboscada na praia

Mas a vida em Arous não é só feita de bons momentos.

Danny Limor lembra-se bem de Henry Gold, um judeu canadiano que está hospedado no resort e que começa a mencionar que os donos do espaço talvez sejam também judeus. “Um colega meu chegou ao pé de mim e disse-me ‘Olha, este tipo sabe que somos israelitas, porque cortamos a salada muito fininha’”, conta o agente ao Observador.

“Então levei-o à costa e disse ‘Vamos fazer um mergulho noturno’. Depois apontei para um ponto na água e disse: ‘Ali há um recife especial com tubarões que adoram comida kosher. E é assim que tu vais morrer’”, continua a relatar o espião. Depois de longos minutos em que Gold implora misericórdia e garante que nunca contará a ninguém quem são os verdadeiros donos de Arous, Danny deixa-o ir embora, com uma ameaça: “Não tentes fazer nada, senão todas as manhãs vais ter de olhar para debaixo do teu carro, porque podes ter um presente especial’.”

Danny LimorAntigo agenteda Mossad

Este não é o único susto que os agentes da Operação Irmãos apanham. Uma noite, enquanto realizam o transbordo de 200 judeus etíopes numa praia, são surpreendidos por militares sudaneses que pensam ter encontrado contrabandistas e que começam a disparar. Danny insurge-se, sem nunca deixar cair o disfarce: “Vocês são loucos? Isto são turistas, estamos aqui a mergulhar!”. Depois de mencionar o nome de um comandante da Marinha sudanesa, os militares acreditam que estão perante trabalhadores do resort e os seus hóspedes. “Numa noite sem luar não se consegue ver a cor da pele, somos todos escuros”, reflete Danny. “Eu disse que aquelas pessoas eram brancas e eles nunca perceberam que estavam perante africanos. Sem luar, pode-se dizer o que se quer.”

O risco, porém, está a aumentar e a Mossad sabe-o. O número de refugiados etíopes é de tal forma esmagador que, a certa altura, a agência decide começar a usar aviões de carga para transportar os judeus, em vez de barcos. As aeronaves aterram mais perto do resort e poupam as viagens de jipe até à praia. Não tarda até Danny e os colegas conseguirem retirar 500 a 600 pessoas por noite, engrossando os números.

A certa altura, o número de judeus resgatados era tão elevado que as operações passaram a ser feitas de avião, em vez de barco
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Mas tudo tem um fim e também a Operação Irmãos terminou, substituída pela Operação Moisés, que passou a retirar os refugiados etíopes em voos aéreos regulares para Bruxelas (de onde seguiam depois para Israel), com ajuda dos Estados Unidos. Os agentes de Arous escapuliram-se durante uma noite. “Havia clientes no resort, quando acordaram de manhã não estava lá ninguém… Foi assim que acabou”, relata o comandante.

“Quando estás a trabalhar,estás sempre a mentir”

Ao longo dos anos em que a Operação Irmãos durou, milhares de judeus etíopes chegaram a Israel, colocando um enorme desafio de integração. Sem saber a língua, muitos tinham dificuldade em adaptar-se a um novo país. Os incidentes racistas foram surgindo. A sensação de serem cidadãos de segunda até para o próprio Estado foi-se agudizando com acontecimentos como um escândalo de 1996, revelado por um jornal, que dava conta de que sangue doado por judeus etíopes tinha sido deitado fora por se considerar que havia maior risco de serem portadores de HIV. Os desafios para a segunda geração em Israel ainda hoje são muitos.

Já a contribuição da operação para o mito da Mossad foi enorme. Como resumiu o agente Gad Shimron, “que outro país desenvolvido estaria disponível para investir dezenas de milhões de dólares para criar uma infraestrutura operacional de atividades secretas num país inimigo, envolvendo grandes forças militares, para salvar uns milhares de refugiados esfomeados de um país africano destroçado pela guerra civil?” Danny Limor considera que é precisamente o caráter humanitário da operação que a torna diferente de todas as outras: “Estávamos a lidar com vidas humanas. Crianças, mulheres grávidas, velhos, pelos quais éramos responsáveis. Isso é qualquer coisa.”

Danny Limor foi o comandante da Operação Irmãos. Durante esse período, manteve um disfarce como antropólogo

O preço a pagar para os agentes envolvidos, como em tantas outras operações, foi o de terem de lidar com uma identidade dupla. “Eu voltava a casa de vez em quando para a minha mulher e para as minhas filhas e era como ter de ligar um interruptor na cabeça. Porque, quando estás a trabalhar, estás sempre a mentir. A mentir sobre a tua identidade, sobre ti próprio”, reconhece Danny. Já com os superiores é preciso ser 100% honesto. Não por acaso, um dos testes da Mossad, revelado pela Der Spiegel, envolve exigir aos recrutas uma tarefa impossível — tocar no centro de um círculo com os olhos fechados, sem pestanejar —, para avaliar quem é sincero e admite que não consegue e quem mente.

Para sobreviver numa missão como esta, diz Danny, o truque é “mantermo-nos sempre nós próprios”. “Quando nos barbeamos de manhã e olhamos para o nosso rosto, ou quando nos vamos deitar, pensamos no que fizemos, no que vamos fazer amanhã e no dia a seguir a esse. E há uma coisa que se mantém inalterável: quem somos e por que fazemos isto.”

Quanto ao resort de Arous, depois de os espiões da Mossad partirem foi ocupado pelo Exército sudanês e usado como depósito de armas. Mais tarde, foi comprado por um empresário do Sudão, que revitalizou a unidade hoteleira. Durante esse período, em 1991, teve um hóspede especial durante duas semanas, um homem que havia fugido da Arábia Saudita e que ali se instalou temporariamente. O seu nome era Osama Bin Laden.

 

O homem está sentado à beira da piscina do Hotel Intercontinental em Amã, na Jordânia, a ler À Espera no Centeio, quando a mulher morena se aproxima e lhe diz uma coisa ao ouvido. Mishka Ben-David percebe que algo correu mal com a operação na qual está a participar. Teve como missão carregar o tempo todo o antídoto da substância usada para matar o alvo, que serve como seguro de saúde caso algum dos colegas seja atingido por ela.

Neste momento, pensa em destruí-lo. Contacta os superiores só para confirmar as suas intenções, mas a resposta que recebe do outro lado surpreende-o: “Vai para o lobby, onde um capitão dos serviços de informação da Jordânia vai estar à tua espera para ir contigo ao hospital, onde os médicos também estão à espera.” Afinal, o antídoto não servirá para salvar um companheiro, mas sim o próprio alvo: Khaled Mashal, vice-presidente do bureau político do Hamas.

Quase 30 anos depois, Ben-David recorda ao Observador aquela tarde, sentado num dos sofás da sua casa no campo, em Israel, onde se ouvem os pássaros e um relinchar pontual de um dos seus muitos cavalos. Não tem grande vontade de voltar a falar da história de Mashal, que já dissecou inúmeras vezes ao longo da sua vida, embora aceda relutantemente ao pedido. Ocupa grande parte da conversa, no entanto, a recordar o seu percurso na Mossad.

Mishka Ben-David foi diretor das operações especiais da Cesareia, unidade de elite da Mossad, durante 12 anos
João Porfírio/Observador

“Estava a dar aulas na Universidade como professor assistente e decidi que não queria fazer isso o resto da vida. Não era suficientemente entusiasmante”, reconhece. Considera regressar ao Exército, onde tinha cumprido o serviço militar obrigatório no Egipto, durante a Guerra do Yom Kippur. Mas, um dia, encontra um anúncio de emprego num jornal que o intriga. “Uma agência governamental procura oficiais do Exército e académicos com um bom domínio de línguas estrangeiras.” Ben-David, que fala fluentemente russo por ser filho de refugiados ucranianos, suspeita de imediato que se possa tratar da Mossad e decide responder ao anúncio.

É então chamado para uma entrevista num apartamento em Telavive. “Quem achas que somos?”, perguntam-lhe. “Acho que vocês são a Mossad. E, se não forem, não me voltem a telefonar.” Os futuros empregadores não confirmam ser dos serviços secretos, mas voltam a telefonar a Mishka. E é assim que arranca o seu processo de formação como espião.

As regras de contratação da Mossad são claras. Não são aceites pessoas motivadas por dinheiro, nem sionistas demasiado fanáticos. “As pessoas querem juntar-se à Mossad por muitas razões. Há o dito glamour. Alguns gostam da ideia de aventura. Outros acham que se entrarem vão melhorar o seu status, pessoas pequenas que querem parecer grandes. Uns quantos querem o poder secreto que acham que a Mossad lhes dará”, resume Gordon Thomas em Os Espiões de Gedeão (ed. Prefácio). “Nenhuma destas razões é aceitável para alguém entrar.”

A Mossad considerou que Mishka Ben-David tinha as motivações certas e avançou com o seu treino. O antigo espião não esquece um exercício em particular: “Eles andam contigo por Telavive e dizem: ‘Vês aquela varanda no terceiro andar? Quero ver-te lá em cima com o dono da casa em cinco minutos. Conversem durante cinco minutos e depois sai, de forma pacífica.” Ben-David tem de pensar rapidamente. “Faltam só cinco minutos”, avisa um dos formadores. “OK, OK, estou a pensar”, responde-lhe. Toca à porta. Um casal de terceira idade abre e Mishka diz fazer parte de um organismo real, o Conselho da Beleza de Israel, que está “a renovar todas as varandas daquela rua”. Sobem então até à varanda, onde falam sobre possíveis detalhes para a renovação. “Olho para o tipo que está lá em baixo e ele aponta para o relógio.” Mishka diz ao casal “tenho de ir a outras casas no prédio, mas voltamos a entrar em contacto” — e sai.

MishkaBen-DavidFoi diretordas operaçõesespeciaisda Cesareia

Terminada a formação, Ben-David ingressa formalmente na agência. Não é colocado na recolha de informações — são várias as unidades de infiltrados em vários países que cultivam fontes. Em vez disso, é colocado na Cesareia, a unidade especial responsável por assassinatos feitos por operacionais — os kidons — e acaba por subir a diretor das operações especiais. Passará ali os 12 anos seguintes.

“Quero as cabeças deles,quero-os mortos”

Em 1997, um bombista suicida do Hamas fez-se explodir num mercado de Jerusalém, matando 16 pessoas e ferindo outras 160.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu no funeral de algumas das vítimas do atentado num mercado de Jerusalém
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O primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, reúne-se com responsáveis da Mossad para pensar numa possível retaliação. “Vou apanhar esses sacanas do Hamas, nem que seja a última coisa que eu faça”, diz-lhes. “Quero as cabeças deles, quero-os mortos. Não quero saber como é que o fazem, só quero que seja feito. E quero que seja feito já.” Ao longo dos dias seguintes, o diretor da Mossad, Danny Yatom, vai pensando nos possíveis alvos, sempre sob pressão do primeiro-ministro. “O Yatom é um tipo duro, mas quando as coisas apertaram ele não era capaz de segurar o Bibi, que começou a falar sobre quão rapidamente o seu irmão [Yoni Netanyahu] tinha montado o raide em Entebbe”, contou um membro da agência ao jornalista Gordon Thomas. “A comparação não fazia sentido, mas o Bibi é assim, usa o que for preciso para marcar o seu ponto de vista.”

A sugestão do alvo apresentada pelo diretor da Mossad não é bem recebida por Netanyahu, que diz querer a cabeça “de um líder”, não “de um mercador”. Sugere Khaled Mashal, o homem do Hamas que vive atualmente em Amã, na Jordânia. O local assusta Yatom, já que a Jordânia e Israel mantêm boas relações que podem ser postas em causa com uma operação naquele território. “Desculpas, só me dás desculpas!”, responde Bibi. O diretor cede.

Khaled Mashal (ao centro) é um dos principais líderes do Hamas
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Começa então a discussão sobre qual o melhor método para eliminar Mashal. Hipóteses: colocar uma bomba no seu carro, matá-lo à queima-roupa, recorrer a um sniper. Mas o primeiro-ministro quer algo silencioso e discreto. A escolha recai sobre um veneno raro, o levofentanil, desenvolvido num programa secreto do Instituto de Pesquisa Biológica. É cem vezes mais potente que a morfina. Numa autópsia, só seria detetado se fosse pedido um exame específico àquela substância. Dentro da Mossad, chamavam-lhe “a poção dos deuses”.

Mishka Ben-David é envolvido no processo e ajuda a selecionar os agentes que vão participar na operação. Para o terreno vão primeiro dois homens com passaportes canadianos falsos — com os nomes de Shawn Kendall e Barry Beads — e outros agentes. Ben-David, que leva o antídoto, e uma médica viajarão para Amã uns dias depois.

A cidade de Amã, em 1997
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“É esse o único papel que desempenhou na operação?”, perguntamos a Mishka quando estamos cara a cara, com chávenas de café quente preparadas pelo próprio. “Não, mas não lhe vou dizer mais nada sobre isso”, responde o agente. Está calmo, mas olha nos olhos, com uma firmeza que não dá espaço a qualquer outra tentativa de obter respostas.

A tranquilidadenecessária para matar

A mulher de Mishka Ben-David, Shina, chega a meio da conversa e apresenta-se. Sempre soube qual o trabalho do marido e era habitual, depois de uma operação, ele contar-lhe todos os detalhes. Sem isso, não seria capaz de manter a sanidade mental.

“Os meus filhos não sabiam, mas a minha filha mais velha começou a perceber. Quando era adolescente, tinha amigos cujos pais também trabalhavam para a Mossad e ela começou a fazer perguntas. Não foi fácil para ela”, reconhece o agente. Na memória guarda o dia em que chegou de uma operação e se fechou no quarto com a mulher para falar. Quando abriram a porta, a filha estava lavada em lágrimas: “Porque é que podes contar à mãe e não me podes contar a mim?”

Anat Yahalom-Rimshon, filha de um operacional da Mossad colocado em Marrocos, desabafou ao Ynet sobre o peso de ser filha de um agente. “Éramos raparigas que mantinham segredos. Diziam-nos que se alguém descobrisse quem o nosso pai era, algo de mau iria acontecer”, revelou. “Ainda hoje eu sei como ‘recolher informação’ quando entro numa sala, olhando para as pessoas durante alguns minutos. Está no nosso ADN.” Oficialmente, as regras dizem que as crianças não devem saber qual é o trabalho dos pais: em vez disso, devem ser informadas de que o pai ou a mãe trabalham numa embaixada ou para o Ministério da Defesa. Mas muitos agentes quebraram essa regra ao longo dos tempos.

“Sempre achei que mentir e fazermo-nos passar por outra pessoa é muito difícil. É contra a minha natureza, preferia mil vezes um trabalho operacional do que mentir”, confessa Mishka. “Foi por isso que não fui para o departamento de recrutamento, porque isso significava fazer-me passar por outro e mentir a toda a gente.”

Na sua casa no campo, Mishka Ben-David acumula muitos retratos de várias fases da sua vida. Enquanto a mulher sempre soube da sua profissão, os filhos não souberam durante anos que eram filhos de um espião
João Porfírio/Observador

Mishka também tem álbuns de fotografias impressas cheias de retratos tirados durante as suas missões com a Cesareia no estrangeiro
João Porfírio/Observador

Mas os desafios quando se tem de matar alguém não são menores. Para além das considerações morais, é necessário moldar a personalidade. “É preciso ser muito focado. Muito calmo. E criar uma atmosfera à nossa volta de que somos um ‘Zé ninguém’. Não podemos chamar a atenção. Ninguém na rua deve olhar para nós duas vezes.” O agente recorda o jantar que teve uns dias antes onde estava presente uma antiga Miss Israel que lhe perguntou se achava que ela teria capacidade de trabalhar para a Mossad. “Não, definitivamente”, respondeu-lhe Ben-David. Era demasiado bonita.

“É preciso ser muito tranquilo, muito cuidadoso, mas muito corajoso ao mesmo tempo. Caso contrário não se consegue fazer este trabalho”, avisa o antigo agente. “E quando se trata de matar… É a mesma coisa, é claro.”

O agente da Mossad Michael Harari disse uma vez ao jornalista Ronen Bergman ter a certeza de que os seus kidons não eram “assassinos naturais”, mas sim “pessoas normais”. “Se eles não tivessem vindo para a Cesareia, não se teriam tornado assassinos a soldo no submundo. Os meus guerreiros da Cesareia estavam em missão para o Estado. Sabiam que alguém tinha de morrer porque tinha matado judeus e, se continuasse a viver, ia matar mais judeus, e portanto eles faziam-no por convicção”, disse, citado no livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates). “Nenhum deles tinha qualquer dúvida sobre se aquilo tinha ou não de ser feito; não havia a mais ligeira hesitação.”

Mishka Ben-David assegura ao Observador que levava as suas missões muito a sério: “Não tinha intenção de falhar. Por exemplo, quando voei para a Jordânia levando o antídoto, pensava ‘O que acontece se eles quiserem ver isto no aeroporto?’. Não queria falhar à missão. Tinha uma preocupação profunda, mas não tinha medo. Acho que nunca senti medo.”

Um assassinatocom uma Coca-Cola e um spray

A operação para matar Khaled Mashal está em curso, mas a preparação é feita à pressa. A equipa só tem tempo para fazer um dia de vigilância e, por isso, não sabe que às vezes o líder do Hamas, quando sai de manhã, leva os filhos à escola. É precisamente isso que acontece no dia da tentativa de assassinato, mas ninguém repara nas crianças no banco de trás.

Às 10h35 da manhã, o carro de Mashal sai de casa com um automóvel da Mossad atrás. Pára no Centro Shamiyeh, onde fica o seu escritório, e os dois operacionais da Mossad com identidades falsas canadianas saem do carro para ir atrás dele. Não levam consigo qualquer meio para contactarem os colegas. Caminham na direção de Mashal.

O plano é o de se aproximarem e, quando estiverem mesmo atrás dele, um dos agentes abrir uma lata de Coca-Cola. O barulho servirá para distrair e permitir ao outro usar um spray para lhe colocar o veneno na parte de trás do pescoço. Mas nada corre como o previsto.

Quando já estão próximos do alvo, a filha de Khaled Mashal sai de repente do carro, gritando “Pai, pai!”. O primeiro agente já tinha agitado a Coca-Cola. Mashal vira-se para ver a filha e, nesse momento, vê o outro homem a pulverizar o veneno na sua orelha. O motorista de Mashal, que assistiu a tudo, começa a chamar pelo patrão. O homem do Hamas, que viu de frente o agente que o tentou assassinar, começa a sentir-se tonto. “Senti um choque elétrico forte no meu ouvido”, contaria depois sobre esse momento. Várias pessoas começam a juntar-se à sua volta e uma delas chama uma ambulância.

Os operacionais da Mossad correm para o seu carro, um Hyundai verde com a matrícula 5374. Mas no seu encalço segue Mohammed Abu Saif, o motorista de Mashal, que assistiu a tudo. A certa altura, os dois agentes saem do carro e continuam a fuga a pé. Saif sai também do seu carro, corre e acaba por apanhá-los. Começam a lutar no meio da rua, chamando a atenção. Uma multidão acorre e a polícia é alertada. “Shawn Kendall” e “Barry Beads” são detidos. “Assim que o chefe da Mossad foi informado, tornou-se claro que Mashal iria morrer dali a três ou quatro horas e que algo de mau iria acontecer aos agentes detidos pela polícia jordana”, resume Mishka Ben-David.

Khaled Mashal ficou hospitalizado. Sem antídoto, acabaria por morrer em pouco tempo
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O chefe da Mossad, Danny Yatom, voa de imediato para Amã. Pede uma audiência com o Rei Hussein, que o recebe. “Fomos nós que fizemos isto. Ele vai morrer daqui a 24 horas. Pulverizámo-lo com um veneno químico. Não podemos fazer mais nada”, diz-lhe. O Rei fica furioso. “Ele sentiu que tinha sido apunhalado pelas costas”, disse ao New York Times uma fonte que esteve presente. “Estava furioso.”

De seguida, Yatom vai encontrar-se com Mishka e o resto da equipa, no hotel. “A atmosfera era lúgubre e dei por mim a consolá-los”, revelaria mais tarde nas suas memórias Labyrinth of Power (sem edição em português). “Fui ter com cada um deles e apertei-lhes a mão. Não conseguiam olhar-me nos olhos e pareciam completamente murchos. É preciso perceber que estes tipos eram o melhor da Mossad. Tinham falhado na sua missão e sentiam um peso pelo seu falhanço.”

Ao mesmo tempo, o Hamas, que já estava a par do que se tinha passado com Khaled Mashal, entra em ação. O grupo liga a uma jornalista da AFP para denunciar o que dizem ter sido uma tentativa de assassinato da Mossad. Esta acaba por suspeitar que podem ter razão: “O Hamas acusa sempre a Mossad. Mas, neste caso, se quisessem inventar, davam-me uma história melhor”, refletiu mais tarde, no documentário da Al Jazeera Kill Him Silently. “Os detalhes bizarros da história fizeram-me pensar que de facto era uma tentativa de assassinato.”

As negociações entre Danny Yatom e os jordanos arrastam-se. O Rei e os seus conselheiros exigem a Israel que salve Khaled Mashal, dê por onde der. Por fim, o chefe da Mossad pede um telefone seguro para ligar ao primeiro-ministro.

O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu com o Rei Hussein, da Jordânia
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Benjamin Netanyahu enfrenta agora um dilema. Se recusar dar o antídoto, os agentes da Mossad detidos podem vir a ser condenados à morte e as relações com a Jordânia entram em colapso definitivo. Se aceder, deixará escapar o dirigente do Hamas, cuja morte tanto desejava. Bibi liga então para Dennis Ross, enviado especial do Presidente norte-americano Bill Clinton para o Médio Oriente, na esperança de que a Casa Branca o consiga ajudar. Yvonnick Denoel relata o diálogo que ocorreu de seguida no seu livro Les guerres secrètes du Mossad (sem edição em português):

“Em que estás a pensar?”, pergunta Ross.

“O Presidente precisa de falar com o Rei Hussein.”

“Posso tentar, mas o que é que te passou pela cabeça para fazeres isto?”

“É por causa dos ataques do Hamas.”

“Estás a dizer-me que orquestraste esta operação contra ele em Amã. Não achaste que podia correr mal?

[Bibi faz um longo silêncio e depois responde] “Não.”

“Como é que pudeste ser tão irresponsável? Não entendes quão crucial é a relação da Jordânia convosco? Se encurralas o Hussein, ele não tem alternativa senão reagir assim.”

[O primeiro-ministro israelita fica em silêncio]

Se vocês têm um problema com o Mashal, por que é que não falaram com os jordanos? Eles pelo menos podiam tê-lo prendido, até podiam expulsá-lo do país. Ele não iria conseguir operar fora da Jordânia.

[Netanyahu volta a fazer um longo silêncio e depois diz] “O Clinton tem de telefonar ao Rei.”

“Eu percebo o que está em causa. Mas tu é que provocaste esta confusão.”

Não veio ajuda do lado dos norte-americanos. O próprio Bill Clinton terá ficado exasperado com Netanyahu, comentando a certa altura: “Não consigo lidar com este homem, é impossível”.

Washington pressiona Telavive e o primeiro-ministro israelita acaba por ceder. Telefona a Danny Yatom e dá a ordem: “Fá-lo.”

O diretor da Mossad volta ao palácio presidencial e comunica a informação ao Rei Hussein. “A nossa equipa no Hotel Intercontinental tem o antídoto”, declara.

O erro dos schlemielsda Mossad

Khaled Mashal acaba por receber o antídoto e sobreviver, enquanto os dois agentes da Mossad detidos são libertados.

Mishka Ben-David regressa a casa. Chega, toma um banho e sai de imediato para o Bat Mitzvah da filha de uns amigos. “Estávamos no lindo jardim deles, com toda a gente a passear o seu champanhe, incluindo amigos meus que não faziam ideia de que eu era da Mossad”, conta. “E eles começaram a dizer-me ‘ouviste falar daqueles…’ — não sei usar a palavra certa em inglês, mas em iídiche há uma palavra, schlemiel, que descreve uma pessoa trapalhona ou tonta — ‘ouviste falar daqueles schlemiels da Mossad?’”

O facto de a reputação da Mossad ter ficado afetada pelo falhanço da operação de Khaled Mashal contribuiu para que Mishka — que, desde a reforma, começou uma nova carreira como romancista — decidisse escrever um livro cuja ação parece inspirar-se no caso de Amã. Em Operação Beirute (ed. Lua de Papel), o herói participa numa operação falhada no Líbano e decide regressar ao país para acabar pessoalmente o trabalho.

Apesar de ser ficção, Mishka não esconde que se inspirou muito no seu caso pessoal: “No livro há dois jornalistas que são muito, muito anti-Mossad. Incluí-os porque, na altura, não conseguia aceitar a forma como as pessoas estavam a tratar a Mossad. Ninguém se lembrava de que esta equipa era a mesma que matou Fathi Shiqaqi”, declara. Shiqaqi era o fundador da Jihad Islâmica, que foi assassinado em Malta por Ben-David e a sua equipa, atingido por uma arma com silenciador, disparada por agentes que desapareceram sem rasto.

Cartaz de Fathi Shiqaqi, fundador da Jihad Islâmica assassinado pela equipa de Ben-David em Malta
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“Tornou-se habitual apresentar os agentes da Mossad como trapalhões e muitas coisas publicadas alimentaram esta ideia”, desabafou Danny Yatom no seu livro de memórias. “Um exemplo pode ser encontrado em publicações que apresentavam com gosto os operacionais da Mossad como dois losers que foram derrotados por ‘um guarda-costas corpulento que era um veterano das batalhas do Afeganistão’ (…) — esse mesmo ‘guarda-costas’ era apenas um moço de recados do quartel-general do Hamas.”

O diretor do Instituto demitiu-se na sequência do caso. Mas o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, também ficou debaixo de fogo — chegou a ser capa do The Economist, num artigo com o título “O trapalhão em série de Israel”. Bibi, porém, disse sempre em público que não fez nada de errado: “O meu papel não é ser o investigador interno da Mossad. O meu trabalho é perguntar ‘Conseguem levar a cabo esta missão? Estão preparados?’ e a partir do momento em que eles dizem que sim, tenho de confiar neles.” A única vez em que admitiu que a operação de Mashal foi um desastre foi quando disse que ‘de vez em quando, como em todas as guerras, há falhanços e há riscos’.

Khaled Mashal, aqui retratado com os filhos, acabou por sobreviver
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Quanto a Khaled Mashal, recuperou inteiramente da tentativa de assassinato. “Espero o martírio a qualquer altura, mas a decisão de como e quando é que morro pertence a Deus, não à Mossad”, afirmou. Dois anos depois, foi expulso pela Jordânia e refugiou-se no Qatar. Continuou a ser uma figura influente do Hamas — recentemente, em 2024 e 2025 fez vários comentários sobre a guerra em Gaza, prometendo que o Hamas iria renascer das cinzas “como uma fénix” e apelando aos palestinianos da Cisjordânia para que se tornassem bombistas suicidas. Em 2025, estava na sede do Hamas no Qatar quando esta foi atingida por ataques aéreos israelitas; Khaled Mashal sobreviveu e voltou a escapar a Israel.

Dois anos depois da operação na Jordânia — e na sequência de vários inquéritos internos —, Mishka Ben-David abandonou a agência, por a sua identidade ter sido exposta publicamente. Dedicou-se aos cavalos e aos livros, mas nunca conseguiu largar inteiramente o mundo em que esteve imerso. A sua obra mais recente é tão parecida com aquilo que viveu na tentativa de assassinato de Khaled Mashal, que se limitou a fazer pequenas alterações — em vez de um membro do Hamas o alvo é do Hezbollah, a ação passa-se em Beirute e não em Amã, a arma do crime não é veneno, mas sim uma pistola. Até o motivo pelo qual a operação falhou é semelhante: o agente decide não disparar quando a filha do alvo se aproxima do pai.

Mishka Ben-David dedica-se hoje em dia aos seus cavalos e à escrita. O livro “Operação Beirute” é inspirado no caso falhado de Amã
João Porfírio/Observador

Nos agradecimentos do livro, Mishka Ben-David deixa uma palavra à sua família, em particular à mulher e aos filhos, “por ter aceitado esse preço” elevado de viver com um espião. Dirige-se também aos companheiros de viagem: “Aos meus queridos colegas da Mossad, envio os meus sinceros agradecimentos por 12 anos fascinantes.”

O método escolhido para assassinar Khaled Mashal foi o de pulverizá-lo com levofentanil, uma substância cem vezes mais potente do que a morfina e que só seria detetada numa autópsia se fosse pedido um exame específico.

 

Avner Azoulay, antigo diretor do departamento da Mossad no Líbano, lembra-se da conversa que teve com o guia quando aterrou. “O que é que é barato aqui?”, perguntou ao homem. “A vida humana. Essa é a coisa mais barata”, respondeu o guia.

A Mossad contribuiria para isso. E não há exemplo mais claro da violência da agência em território libanês do que o que aconteceu naquela tarde de setembro de 2024. São exatamente 15h30. À mesma hora, por todo o país — com especial foco em Beirute, bastião do Hezbollah —, centenas de pagers explodem. Os que os têm nas mãos ou guardados nos bolsos ficam com ferimentos graves, que levarão a que percam dedos, mãos e braços. Alguns ficarão cegos. A intensidade das explosões afetará outros nas redondezas, como um homem que estava a escolher ameixas no mercado. Ao todo, nove pessoas, a maioria membros do Hezbollah, morreram. 2.750 ficaram feridas.

Ambulância nas ruas de Beirute que socorreu vítimas da explosão
Houssam Shbaro/Anadolu via Getty Images

Quando o Observador fala com o antigo espião da Mossad Avner Avraham sobre este tema, ele começa a conversa com uma piada: “Deixe-me só desligar o meu pager”, diz, com um ar misterioso, para depois soltar uma gargalhada. Aquilo que tem na mão não é um pager verdadeiro, mas uma réplica dos que explodiram. Fez questão de o trazer consigo para ilustrar a missão, que considera ter sido uma das mais bem sucedidas do Instituto. “Vai concordar comigo que esta operação dos pagers mudou tudo”, sentencia.

Os beepers utilizados pelos membros do Hezbollah foram vendidos por Israel através de uma empresa falsa. Lá dentro, tinham um explosivo escondido que não era possível detetar a olho nu.

Quando Avner se juntou à agência, a maioria dos métodos eram mais rudimentares, como contou ao Spyscape, o site da experiência imersiva de espionagem que criou, a par de uma agência de speakers ligados à espionagem (a Spy Legends) e da curadoria de museus sobre o tema que ainda faz. No início da sua carreira, os agentes comunicavam por códigos — como pendurar uma t-shirt de determinada cor à janela — e recorriam a métodos clandestinos, como esconder dinheiro no fundo falso de uma mala. Agora, a Mossad é capaz de montar uma mega operação com recurso a informações, empresas falsas e tecnologia.

Uma empresade fachada que vende15 mil walkie talkiese pagers ao Hezbollah

A operação demorou anos a ser preparada. A Unidade 8200 — a agência especializada em interceção de comunicações — criou equipas para monitorizar o Líbano. Vários drones foram usados para fotografar as instalações do Hezbollah ao longo dos anos e homens e mulheres foram enviados para obter informações no terreno. Segundo o New York Times, agentes da Mossad infiltraram-se no Hezbollah e foram passando informações sobre os locais relevantes do grupo. Beneficiaram do facto de o Hezbollah ser um grupo terrorista que está camuflado na sociedade libanesa, o que facilita o acesso. E procuraram informações em fontes improváveis, como os obituários de membros do grupo e participando nos seus funerais. O Instituto recolhia informações até dos dados registados pelos smart cars dos membros do Hezbollah e registava toda a informação numa base de dados, estabelecendo as rotinas dos operacionais do grupo.

Uma das fontes mais relevantes em todo este processo foi um espião que subiu dentro da organização e chegou a segurança pessoal do líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah. O Jerusalem Post conta que o homem — cujo nome de código é M.Sh. — não era cidadão israelita e usava o disfarce de homem de negócios.

Avner Avraham foi espião da Mossad. A sua primeira missão no estrangeiro foi em Beirute

O risco era enorme, como afirmou Avner Avraham, que teve precisamente a sua primeira missão no Líbano, em 1984, fazendo a ligação entre a Mossad e os militares das IDF. “Foi uma das melhores alturas da minha vida”, disse. “Era um lugar mesmo louco. Era muito perigoso.”

O método de recorrer a meios eletrónicos como pagers para atingir operacionais do Hezbollah não foi novo. Já em 1972, na sequência do sequestro do Setembro Negro nos Jogos Olímpicos de Munique, a Mossad vingara-se colocando explosivos na base do telefone fixo de Mahmoud Hamshari, representante da Organição pela Libertação da Palestina, em Paris. E em 1996, Israel sabotou o telemóvel de um dos líderes do Hamas, Yahya Ayyash, fazendo-o explodir e matando o palestiniano. Mas a ideia de usar equipamento técnico para atacar o Hezbollah a partir de dentro só surgiu na década de 2010, quando o grupo começou a recorrer a outros meios que não telemóveis para comunicar.

O líder do Hezbollah, Hassan Nasrallah, começou desde muito cedo a temer que os telemóveis pudessem ser escutados pelas autoridades israelitas e deu instruções diretas aos membros do grupo para que os evitassem: “Perguntam-me onde está o agente”, disse o clérigo numa mensagem emitida na televisão. “Está nesse telefone que está nas vossas mãos, nas mãos da vossa mulher, nas mãos dos vossos filhos.” De seguida, ordenou: “Desliguem-nos, ponham-nos num cofre de ferro e tranquem-nos.”

Antes dos beepers, o Hezbollah recorria a walkie-talkies para evitar a interceção de comunicações. Israel conseguiu vender-lhe mais de 15 mil aparelhos armadilhados
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O Hezbollah substituiu então a comunicação por telemóveis com walkie-talkies. Em 2014, a empresa japonesa iCOM deixou de produzir os seus populares walkie-talkies, o que levou o Hezbollah a tentar procurar alternativas. E a Mossad entrou em ação, começando a produzir réplicas dos aparelhos que incluíam explosivos dentro das baterias. De acordo com o New York Times, Telavive conseguiu que mais de 15 mil destes aparelhos fossem comprados pelo grupo xiita. Como os walkie talkies são sobretudo usados na frente de guerra, a partir de certa altura a Mossad passou também a vender pagers.

Mas como foi possível convencer o Hezbollah a comprar material a Israel? Para começar, é óbvio que o grupo não fazia ideia da proveniência do equipamento. Como um dos membros da operação revelou à CBS, o truque era criar empresas de fachada estrangeiras, que não pudessem ser associadas a Israel. “Criamos um mundo a fingir. Somos uma empresa de produção global. Fazemos o guião e somos os realizadores, os produtores e os atores principais. O mundo é o nosso palco.”

Uma vendedora de Taiwan — ligada, naturalmente, à Mossad — criou uma empresa e obteve a licença para vender pagers da marca Apollo, uma das fabricantes de fachada criadas por Israel. Em 2023, a mulher fez um acordo com o Hezbollah para lhes vender uma série de pagers do modelo AR924. “Era ela quem estava em contacto com o Hezbollah e explicou-lhes que este pager maior, com uma bateria maior, era melhor do que o modelo original”, contou ao Washington Post um responsável israelita.

Responsável da empresa Apollo, de Taiwan, que foi utilizada para vender os beepers
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A bateria do AR924 tinha uma vida de meses, sem ser preciso recarregá-la durante esse período, e era à prova de água. Os pagers, que pesavam menos de 100 gramas, tinham o explosivo tão bem escondido dentro deles que nem desmontando o equipamento era possível encontrá-lo. E, à distância, a Mossad tinha acesso à sua localização — e capacidade para o detonar quando assim o entendesse.

Porém, houve contratempos na operação. Ainda em 2023, um membro do Hezbollah suspeitou das baterias e alguns dos pagers foram enviados para o Irão para serem inspecionados. Dentro de Israel, surgiam receios: “Não podemos tomar uma decisão estratégica sobre uma escalada no Líbano estando dependentes de um brinquedo”, chegou a dizer um responsável político à Mossad, segundo o Washington Post.

Foi precisamente o medo de que o esquema fosse exposto que levou Israel a pôr o plano em ação, depois de meses em que esperou pacientemente. “Ativar [a detonação] no início da guerra [com o Líbano, em 2024] não teria atingido o profundo efeito no campo de batalha que atingiu”, resumiu o atual diretor da Mossad, David Barnea.

A decisão foi tomada a 16 de setembro de 2024, numa reunião entre o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, e membros da Mossad. No dia seguinte, os pagers explodiram.

Uma operaçãoque cumpre as leis da guerraou uma forma de terrorismo?

A espetacularidade da Operação Beeper Anjo da Morte impressionou o mundo: “É uma das movimentações mais originais, surpreendentes e dolorosas desta guerra na sombra”, afirmou o jornalista especialista na Mossad Ronen Bergman. “Este é o tipo de operação a que se recorre apenas em casos de emergência.”

A posição de Avner Avraham é de defesa total da operação. “É inteligente, criativa e mudou toda a situação”, diz ao Observador. “Os pagers eram usados por comandantes, não pelas pessoas que cozinham ou limpam carros. E incluiu o embaixador iraniano, se bem se lembra”, acrescenta, referindo-se a Mojtaba Amani, que perdeu um olho com a explosão do seu equipamento.

Avner AvrahamAntigo agenteda Mossad

O antigo espião considera que a operação foi proporcional, porque os alvos eram “militares”. “Mas o Hamas [e o Hezbollah] usam escolas e hospitais como quartéis-generais. Constroem bunkers debaixo de mesquitas e de hospitais. Acho que nós [israelitas] temos um problema de relações públicas.”

Numa organização como o Hezbollah, a linha que separa um terrorista de um civil é ténue. Pessoas que colaboram com a organização transmitindo mensagens ou fazendo tarefas domésticas são terroristas para uns, civis para outros. O mesmo se passa com as famílias dos membros do grupo, que também foram alvo de muitas das explosões.

É o caso de Sarah Jaffal, de 21 anos, que pegou no pager de um familiar que estava a vibrar. Quando viu a mensagem a dizer “Erro” no ecrã, carregou no OK, detonando o explosivo. Desde então, teve de ser submetida a 45 cirurgias de reconstrução, incluindo no rosto e nos dedos. Ficou cega de um olho. Sarah foi retratada numa fotorreportagem da Associated Press, que também revelou o caso de Hussein Dheini, um rapaz de 12 anos que ficou sem o olho direito depois de ter pegado no pager do pai. Entre as nove vítimas mortais, há uma criança.

Funeral de uma das nove vítimas que morreram na explosão
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Avraham continua a defender que, apesar destes danos colaterais, a Mossad mantém uma bússola moral. “Para nós, cada alma é importante. Para eles, se uma bomba matar uns quantos miúdos, consideram um sucesso e exibem as fotografias”, declara, traçando a comparação com o Hezbollah.

Réplica de um dos beepers utilizados, pertencente a Avner Avraham

Internacionalmente, a operação foi recebida com opiniões contraditórias. Enquanto um responsável de segurança ocidental comentou que se sentia “invejoso” desta “operação muito bonita”, o antigo líder da CIA Leon Panetta descreveu-a como “uma forma de terrorismo”. “Gosto de audácia, mas, colocando na balança, não aprovaria a operação, por não se focar bem nos alvos. Havia a hipótese de um dos pagers matar uma criança que estava por acaso com ele na mão”, notou um responsável da Defesa de um país ocidental ao Financial Times.

A divisão de opiniões é gritante, como se vê num artigo da NPR. “A operação cumpre todas as leis fundamentais da guerra em termos de necessidade, proporcionalidade e distinção [dos alvos]”, considera John Spencer, professor do Instituto de Guerra Moderna da academia militar de West Point, nos Estados Unidos. Já William H. Boothby, comandante na reforma da Força Aérea britânica, considera que pode não ter sido “tida em conta a possibilidade de ferimentos e danos acidentais causados pela explosão”. O investigador John Rayne resumiu a situação desta forma: “Os israelitas vivem num bairro duro e foram brutalizados por isso. A característica redentora é que Israel tem noção disso. A preocupação é que parece importar-se cada vez menos com isso.”

O “mal necessário”dos assassinatos seletivos

O jornalista Ronen Bergman não tem dúvidas: “Desde a II Guerra Mundial, Israel assassinou mais pessoas do que qualquer outro país do mundo ocidental”, escreve no seu livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates). “Em muitos casos, os líderes de Israel determinaram que, para matar o alvo designado, é moral e legal pôr em risco as vidas de civis inocentes que possam estar na linha de fogo. Magoar essas pessoas, acreditam, é um mal necessário.” Segundo as estimativas de Bergman, a Mossad terá matado cerca de três mil pessoas em todas as suas operações. Até ao 11 de Setembro e à mudança de política na CIA, Israel era a única democracia que recorria a assassinatos seletivos para terroristas.

Espiões da agência como Shabtai Shavit consideram essa ação legítima e classificam as críticas de outros países como hipócritas. “Nem a ‘iluminada’ Europa (que ainda não chegou a uma definição consensual de terrorismo), nem os nossos exigentes irmãos que cacarejam e que deliberadamente evitam o termo ‘assassinato seletivo’ e preferem, na sua ousadia, usar o termo ‘homicídio’, vão dar-nos lições”, escreveu numa carta enviada ao jornal Haaretz em 2019.

Quando anunciou publicamente a Operação Beeper Anjo da Morte, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reconheceu que houve “oposição de responsáveis séniores no establishment da Defesa e nos altos escalões políticos” ao ataque. O diretor da Mossad, David Barnea, não era um deles: “Foi um dia em que o engano na guerra mostrou ser mais poderoso do que a força bruta”, decretou sobre a operação.

Em maio de 2025, Israel quis homenagear os agentes envolvidos. Numa cerimónia pública, três dos operacionais que participaram na missão apareceram de cara tapada, acenderam tochas no Monte Herzl e fizeram discursos. Foram fortemente aplaudidos.

Destroços de um dos beepers que explodiu
AFP via Getty Images

O tempo ditará a forma como a História verá esta operação. Por agora, as divisões persistem e a Beeper Anjo da Morte continua a ser uma missão cheia de nuance. “Esta foi uma operação brilhante em termos de informações e execuções. A uma escala global”, declarou Ami Ayalon, antigo diretor do Shin Bet (secretas internas), à Bloomberg. “Mas há muitos anos que digo que somos bons em missões e maus em guerras.”

Guerras aparte, a eficácia dessas missões deve-se, quase sempre, à Mossad. É por isso que Avner Avraham deixa um aviso, enquanto exibe o seu pager falso: “Vamos vencer. E temos mais surpresas guardadas para eles.”

 

Faltam poucos meses para a Revolução Islâmica, liderada pelo aiatola Khomeini, rebentar no Irão. Yossi Alpher é um analista da Mossad em Teerão e trabalha na unidade do Instituto naquele país. Naquela tarde, é chamado ao gabinete do seu chefe, que usa o nome de código Geisi.

Geisi conta-lhe que recebeu um pedido invulgar. O atual primeiro-ministro do Irão, leal ao Xá, ligou-lhe e disse: “Tenho um pedido para fazer a Israel. Matem Khomeini”. Shapour Bakhtiar já tentara a CIA e o MI6 primeiro, mas recebeu uma série de negas. Espera agora que os israelitas façam o que os outros não quiseram.

O superior de Alpher pergunta-lhe o que acha. “Tenho de dizer que sou contra assassinatos políticos, mas, tendo em conta as circunstâncias, temos de considerar isto”, afirma Geisi. Yossi Alpher tem de pensar rápido, porque o chefe não está para perder tempo. Analisa na sua cabeça os cenários, o contexto, as consequências. “Não sabemos o suficiente sobre Khomeini para lhe poder dar uma resposta”, diz, finalmente. O chefe responde: “Muito obrigado. Vamos dizer que não.”

Yossi AlpherAntigo analistada Mossad

Sem saber que tinha escapado por pouco, Ruhollah Khomeini regressou do exílio em Neauphle-le-Château, em França, e liderou a Revolução que instituiria um regime teocrático xiita. 48 anos depois, Yossi e o resto dos israelitas vivem com os efeitos do confronto prolongado entre Israel, o “pequeno Satã” para os líderes islâmicos de Teerão, e o Irão. Quando falou com o Observador em Hertzlia — o subúrbio de Telavive onde vive, como muitos outros operacionais reformados da Mossad —, ainda decorria a Guerra dos 12 Dias. “Foram muitas noites sem dormir. Acorda-se às três da manhã, às cinco da manhã… Duas vezes por noite, três vezes por noite. Estamos exaustos.”

Yossi AlpherJoão Porfírio/Observador

A Guerra dos 12 Dias estava a ser preparada há quase um ano, muito com ajuda da Mossad. Foi a agência que recolheu a informação que ajudaria os militares a definirem quais os alvos a abater nesse conflito — 250, entre dirigentes, instalações nucleares e lançadores de mísseis.

Também foi a Mossad que conseguiu que os primeiros ataques se registassem dentro do Irão, graças a armamento que entrou ilegalmente no país e à criação de empresas de fachada que venderam equipamento defeituoso aos iranianos.

A operação foi apelidada de “Com a Força de um Leão”. O Irão reagiu com uma chuva de mísseis contra Israel.

Da “Aliança da Periferia”ao Irão-Contras

Quando Yossi Alpher era um agente da Mossad dentro do Irão, na década de 70, as relações Irão-Israel estavam longe da beligerância de hoje. Durante o regime do Xá, a agência movimentava-se com liberdade dentro de território iraniano e valia-se de uma extensa rede de contactos na comunidade judaica do Irão, à altura ainda numerosa. A Mossad treinava responsáveis do regime, incluindo membros da polícia política, a SAVAK. Um comandante da Força Aérea iraniana confessaria mais tarde que alguns oficiais, incluindo o vice-ministro da Defesa, visitaram Israel “talvez centenas de vezes” durante este período.

Uma fotografia tirada nas ruas de Teerão durante o regime do XáREPORTERS ASSOCIES/Gamma-Rapho via Getty Images

As operações de espionagem israelitas dentro de território iraniano continuavam. Shabtai Shavit recorda no seu livro de memórias Head of the Mossad (sem edição em português) como se preparou para uma missão em Teerão: “Todos os dias, dedicava várias horas a estudar e a praticar a teoria das atividades clandestinas. Tinha lições de persa com um tutor e estudava intensamente árabe iraquiano”, conta. “O meu treino continuou durante mais dois meses em Teerão, onde a minha agenda diária consistia em uma ou duas lições de persa e algumas horas a vaguear pelo bazar de Teerão para praticar a língua, reforçar o meu disfarce e conhecer a cidade.” Shavit recrutou vários iranianos para agirem como agentes da Mossad no Iraque — tudo com a conivência do próprio regime do Xá.

Ao mesmo tempo, Irão e Israel faziam lucrativos negócios, como um de venda de armas israelitas no valor de 1,2 mil milhões de dólares. E politicamente há muito que as relações já eram frutíferas: em 1961, David Ben-Gurion declarou ao primeiro-ministro iraniano Ali Amini que a relação entre os dois países era como “um amor verdadeiro entre duas pessoas que não se casavam”. Também Golda Meir se referiu à sua relação com o Xá como “um caso amoroso”.

Os dois primeiro-ministros, tal como Yitzhak Rabin, visitaram o Irão em segredo durante este período.

O Xá Mohammad Reza Pahlavi não compreendeu a dimensão da ameaça que Khomeini representava
Bettmann Archive/Getty Images

Enquanto tudo isto decorria, o aiatola Khomeini preparava a Revolução a partir do exílio em Neauphle-le-Château, onde ainda hoje existe uma placa decorativa que diz que “o povo iraniano recordará sempre a hospitalidade do povo francês e as boas-vindas dadas ao Imã Khomeini”.

A Mossad foi das primeiras a apanhar-lhe o rasto: “Temo que este nosso amigo [o Irão] se torne em breve num inimigo”, comentou Reuven Merhav, um dos diretores do Instituto em Teerão, com o seu sucessor no cargo. “Estou a dar-te o Irão como uma bomba que vai rebentar.”

O aiatola Khomeini regressou do seu exílio em Paris, espoletando o início da Revolução IslâmicaAFP via Getty Images

A agência estava a par das centenas de milhares de cassetes com sermões de Khomeini que circulavam no Irão. A estimativa da Mossad, de acordo com o jornalista Ronen Bergman no seu livro The Secret War with Iran (sem edição em português), era de que pelo menos seis milhões de iranianos já tinham entrado em contacto com os sermões. E o embaixador israelita informava Telavive, depois de uma audiência com o Xá, de que este estava “desligado da realidade, a viver num mundo só seu, quase delirante”: “Está rodeado de bajuladores que não lhe dizem a verdade.”

Foi durante este período que a Mossad recebeu o pedido do primeiro-ministro para matar Khomeini. Mas Yossi Alpher não tem dúvidas de que, apesar de todas as capacidades da agência, não se sabia o suficiente sobre o aiatola: “Era ainda um mistério. Não só as suas intenções políticas, ideológicas e religiosas, mas também a sua capacidade para a brutalidade. Este tipo era como Lenine, era um revolucionário, pronto para fazer qualquer coisa pela causa. Khomeini era assim, mas não sabíamos.”

A 1 de fevereiro de 1979, Khomeini fez o seu regresso triunfal a Teerão e deu início à Revolução Islâmica. A Mossad e outros representantes israelitas no país fugiram dez dias depois. A preocupação vinha dos contactos que Khomeini havia mantido com os palestinianos, que ofereceram ao clérigo iraniano armamento e dinheiro. Uma semana depois da Revolução, Yasser Arafat visitava Teerão, chamando-lhe a sua segunda casa, a seguir a Jerusalém.

“Americanos criminosos, vão para casa”, pode ler-se num cartaz empunhado por manifestantes durante a RevoluçãoKaveh Kazemi via Getty Images

Mas o começo da Guerra Irão-Iraque em 1980 contribuiria para que Teerão e Telavive se entendessem na sombra. Para Israel, o Iraque representava um perigo maior e, por isso, inaugurou aquilo que ficou conhecido como “Aliança Estratégica da Periferia” — um princípio de manutenção de contactos clandestinos com países do Médio Oriente que fossem inimigos dos inimigos de Israel. O Irão encaixava nesse critério.

Assim se explica que Israel tenha fornecido a Teerão informações sobre a localização do reator nuclear iraquiano Osirak, atacado pelo Irão e depois por Israel, e que tenha treinado insurgentes curdos iraquianos em colaboração com os iranianos. Durante a invasão à embaixada norte-americana em Teerão, foram encontrados documentos sobre Yitzhak Segev, o último responsável militar israelita no Irão. O aiatola Eskandari ligou pessoalmente a Segev para dizer-lhe que estava interessado em colaborar com Israel.

Militares iranianos ouvem uma palestra durante a Guerra Irão-IraqueAFP via Getty Images

Mais relevante do que isso seria o famoso caso Irão-Contras, que tornou pública a aliança secreta entre Israel e o Irão. O esquema era o seguinte: os Estados Unidos vendiam armas ao Irão e usavam o lucro obtido para financiar as milícias dos Contras, na Nicarágua. O que é menos conhecido é que Israel foi intermediário, comprando armamento aos EUA e vendendo-o ao Irão durante este período, com a conivência dos norte-americanos. Ao todo, segundo o Observer, Israel terá vendido armas no valor de 500 milhões de dólares por ano a Teerão.

Ronald Reagan disse mesmo na sua autobiografia An American Life (sem edição em português) que Telavive foi a principal instigadora do Irão-Contras, ao dizer-lhe que as armas estariam a ser vendidas a iranianos moderados e não aos homens da linha dura de Khomeini. “Assim que tivemos a informação de Israel de que podíamos confiar nas pessoas no Irão, não precisei nem de 30 segundos para lhes dizer que sim”, explicou.

O território português foi fulcral para o sucesso do esquema, com Lisboa a servir de plataforma para o armamento norte-americano. E um cidadão português, Jorge Pinhol, serviu de intermediário, levando por vezes a lista de armamento pedido pelos iranianos: partes para motores de tanques e aeronaves, munições para pistolas e espingardas, lançadores e mísseis, de acordo com o jornalista Ronen Bergman. Outro intermediário essencial era um antigo homem da Mossad, David Kimche. “Este homem de muitos feitos sombrios continuava a sentir o insulto ardente de ter sido afastado da Mossad quando achava que devia ter sido nomeado diretor”, conta Bergman num dos seus livros. “Começou a fazer operações secretas à margem da Mossad. Manteve ligações secretas com o Irão, bem como com países africanos que não tinham relações diplomáticas com Israel, nas esferas das informações, uma área normalmente gerida pela Mossad.”

O israelita David Kimche, antigo espião da Mossad, foi um intermediário fulcral no Irão-ContrasBettmann Archive/Getty Images

Do ponto de vista de Israel, o objetivo da operação era, sobretudo, manter viva a Guerra Irão-Iraque. “A nossa grande esperança era que os dois lados se enfraquecessem um ao outro, de tal forma que nenhum representaria uma ameaça para nós”, resumiu David Kimche.

O Irão-Contras foi mantido em segredo durante anos. “Uma das pessoas que falou sobre isto [dentro do Irão] foi executada”, contou ao Jerusalem Post Trita Parsi, autor do livro Treacherous Alliance (sem edição em português). “O cenário era de pragmatismo, de ter de fazer o que fosse necessário para vencer a guerra [contra o Iraque], mas não se reconhecia que isto estava a acontecer. Não havia conversas públicas e eles controlavam os media e conseguiam abafar.”

Em público, Khomeini continuava a denunciar Israel como “o pequeno Satã”, mas os israelitas não davam importância. Shimon Peres, à altura ministro dos Negócios Estrangeiros (e mais tarde primeiro-ministro), achava que o domínio do aiatola era temporário e que as relações com o Irão voltariam ao que eram antes da queda do Xá. “O Irão é o melhor amigo de Israel e não tencionamos mudar a nossa posição em relação a Teerão, porque o regime de Khomeini não vai durar para sempre”, declarou o ministro da Defesa, Yitzhak Rabin (também ele futuro primeiro-ministro), em 1987.

O primeiro-ministro Yitzhak Rabin dá esclarecimentos sobre o caso Irão-Contras no Parlamento de IsraelAFP via Getty Images

Já Telavive pretendia tornar mais públicos os negócios, porque deixavam o Irão numa posição complicada face aos restantes países árabes. “Quaisquer ligações com Israel ou perceção de relações com Israel poria seriamente em causa o mais importante objetivo de política externa [do Irão], que era a reaproximação a outros países da região”, resumiu o diplomata de carreira iraniano Javad Zarif.

O que Israel não sabia é que parte do armamento que estava a vender ao Irão estava a ser transferido para o Hezbollah, no Líbano, e usado contra território israelita. “O Irão não queria uma aproximação a Israel. Era impossível”, resumiu ao The Guardian o académico iraniano-israelita Meir Javedanfar. Como notou o analista Shmuel Bar, “na visão do Irão, pode-se fazer negócios com o próprio Diabo, mas Satã continua a ser Satã”.

Os colaboradores iranianos

Com a morte de Khomeini, em 1989, os israelitas voltaram a acreditar que as boas relações com o Irão podiam ser ressuscitadas. “No quadro mental israelita, a crença era de que o Irão era um Estado fulcral e, se conseguíssemos ter relações com eles, seria muito melhor para a situação geopolítica de Israel — o que fazia sentido à altura, porque Saddam Hussein continuava a ser muito poderoso”, resume Trita Parsi.

Tudo mudaria com a derrota de Saddam na Guerra Irão-Iraque. Na década de 90, Israel descobre que o Irão está a desenvolver mísseis de longo-alcance que vão muito para além do território iraquiano. Estaria também a desenvolver o seu programa nuclear, mas o primeiro-ministro Yitzhak Rabin considerava que demorariam 10 a 15 anos a ter uma bomba e que não havia nada com que Israel se preocupar, ao contrário do que diziam “algumas vozes renegadas na comunidade de informações”. Segundo o think tank RAND, uma avaliação do Ministério da Defesa israelita de 1997 colocou o Irão abaixo de Iraque, Síria e Líbano como possíveis ameaças.

Apesar disso, a Mossad continuava a enviar espiões para o Irão. Um deles foi o agente Michael Ross (israelo-canadiano), enviado para recolher informações sobre a central nuclear de Natanz. Lá chegado, Ross fez o seguinte, como recordou no seu livro The Volunteer (sem edição em português): “Tirei fotos e depois descalcei um mocassim — para ter rapidez, evitava usar sapatos com atacadores — e usei-o para guardar uma amostra do solo arenoso. Voltei a calçar-me, regressei ao carro para ir a um segundo local. Aí, tirei mais fotos e enchi o outro sapato.” No regresso, tratou de trazer as amostras com cuidado, num saco de plástico selado. “Dizia a mim próprio que a terra que trazia era tão preciosa para os analistas do departamento de contra-proliferação da Mossad como o solo da Terra Santa é para os peregrinos cristãos.”

Israel também recrutava iranianos. Era o caso de Farid, um cientista levado para a Mossad por um agente que era nada mais nada menos do que Yossi Cohen, futuro diretor da agência — que viveria obcecado com o Irão. Fazendo-se passar por Oscar, um advogado libanês, Cohen acabou por conseguir que Farid lhe passasse as plantas de uma das centrifugadoras de enriquecimento de urânio do país.

O Instituto continuaria as suas operações no Irão durante a década de 90, por vezes de forma mais tímida. Mas tudo mudaria nos anos seguintes, com Israel a preocupar-se cada vez mais com a ameaça iraniana. Declarações como as do Presidente Mahmoud Ahmadinejad agravaram tudo: em 2005, o polémico chefe de Estado declarou que o Holocausto era “um mito” e que Israel deveria ser “varrido do mapa”.

O Presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad declarou que o Holocausto é “um mito”Getty Images

É a partir de 2010 que se inicia um braço-de-ferro dentro de Israel, entre o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e o antigo diretor da Mossad, Meir Dagan. O primeiro começa a defender abertamente uma operação militar no Irão, que crê estar perto de conseguir uma arma nuclear. O segundo aproveita a reforma para falar publicamente e dizer uma e outra vez que considera isso “uma ideia estúpida”. Dagan, que ficara conhecido como o diretor que usava “uma faca nos dentes” pela sua personalidade dura, havia sempre preferido outra estratégia: a dos assassinatos seletivos. “Têm um efeito no moral e outro prático. Não acho que houvesse muitos que poderiam ter substituído Napoleão ou um Presidente como Roosevelt ou um primeiro-ministro como Churchill. O aspeto pessoal desempenha um papel. É verdade que qualquer um pode ser substituído, mas há uma diferença entre um substituto com ganas e uma personagem sem vida”, diria ao jornalista Ronen Bergman.

As regras para os assassinatos praticados pela Mossad haviam sido definidas por Meir Amit, diretor da Mossad na década de 1960. “Não haverá assassinatos de líderes políticos, independentemente de quão radicais eles forem. Deve lidar-se com eles de forma política. Não haverá assassinatos da família de um terrorista, a não ser que estejam diretamente implicados em terrorismo”, declarara. “Cada execução deve ser sancionada pelo primeiro-ministro. Qualquer execução é, assim, patrocinada pelo Estado, a sanção judicial suprema do Direito. O executante é igual a um carrasco nomeado pelo Estado ou qualquer outro que leve a cabo uma execução legal.”

O primeiro ensaio foi com Ardeshir Hosseinpour, especialista em eletromagnética que trabalhava com enriquecimento de urânio. O cientista foi encontrado morto no seu apartamento em 2007 e a causa da morte foi determinada como sendo uma fuga de gás — mas os serviços de informações de vários países ocidentais acreditam que foi antes um assassínio da Mossad.

Dois anos depois, a Mossad sistematiza o modelo, fazendo uma lista de 15 cientistas e responsáveis ligados ao programa nuclear iraniano a serem abatidos. A 12 de janeiro de 2010, o físico Massoud Ali Mohammadi sai de casa para ir para o trabalho e entra no seu Peugeot 405. Antes de conseguir arrancar, uma moto armadilhada que está estacionada ao pé do carro explode, matando-o. O dono da mota, que sobreviveu, é detido: trata-se de Majid Jamali Fashi, campeão de kickboxing que confessa estar há dois anos a trabalhar para a Mossad.

Dez meses depois, outro cientista nuclear encaminha-se para o seu carro quando é surpreendido. Majid Shahriyari consegue ver dois homens montados numa mota, vestidos de preto, com os rostos tapados pelos capacetes e viseiras de plástico pretas. Um deles atira uma carga de limpet — uma mina magnética que se fixa nas superfícies e depois explode — contra o carro de Shahriyari. O cientista morre na explosão.

“Abaixo Israel”, pode ler-se num cartaz empunhado durante o funeral de um dos cientistas assassinados pela MossadAFP via Getty Images

“A Mossad estava a dizer-lhes: ‘Fiquem nas vossas salas de aula. Façam o vosso trabalho académico. Publiquem investigações. Aproveitem a vida universitária. Mas não ajudem o Irão a tornar-se [num Estado] nuclear’”, resumiu o jornalista Dan Raviv no livro Mossad: Espiões Contra o Armagedão (ed. Marcador).

Estas operações eram levadas a cabo por agentes israelitas da Mossad, mas também por cidadãos iranianos que começavam a trabalhar para a agência. Foi o caso de Majid Jamali Fash, o kickboxer responsável pelo assassinato do cientista que entrara a bordo do Peugeot 405. Numa confissão transmitida na televisão iraniana, Jamali disse ter sido recrutado numa viagem a Istambul. Disse também ter sido treinado em Israel com lições de tiro e aulas com um maquilhador para aprender a disfarçar-se. Foi executado a 15 de maio de 2012.

A operação à “Ocean’s Eleven”e a arma que dispara sozinha

Naquela noite de janeiro de 2018, um grande contingente da Mossad está reunido numa sala em Telavive. Estão ali para acompanhar em direto uma mega operação em território iraniano, ambiciosa e potencialmente perigosa. Às 22h31, o diretor do Instituto dá a ordem: “Executem.” A segunda ordem é mais concreta: “Arranjem-me o arquivo nuclear. Tragam-no para casa.”

Os agentes entram então num armazém nos arredores de Teerão, em Shorabad. O Die Welt conta como puseram a operação em prática: “Usando equipamento de soldar que atinge os 3.600 graus Celsius, abrem os cofres e examinam o seu conteúdo. Seis horas e 29 minutos depois, carregam os ficheiros e CDs em carrinhas que vão transportar o material e atravessar a fronteira. Meia tonelada de conhecimento, roubado do coração do arqui-inimigo. Se os combatentes fossem apanhados, seriam torturados e enforcados numa grua no centro de Teerão. Mas a ‘missão impossível’ foi bem sucedida.” Há mesmo quem lhe chame uma operação à “Ocean’s Eleven”, como o filme.

A missão de reconhecimento tinha sido levada a cabo dias antes por uma agente da Mossad que falava persa fluente. Esteve sempre acompanhada por um homem — uma mulher sozinha a vaguear no Irão chamaria demasiado a atenção. Quando reportava ao seu superior, era bombardeada com perguntas: “Há pessoas a guardar as portas do armazém?”, “Quantos guardas há?”, “Viste soldados a patrulhar a zona?” A mulher entregava também fotografias de todo o edifício.

Não era a primeira vez que a Mossad recorria a agentes femininas. Em tempos, o diretor Tamir Pardo havia justificado a decisão, dizendo que “as mulheres não são apenas tão capazes [como os homens] naquilo a que chamo guerra secreta, como conseguem até ter uma grande vantagem.” “As mulheres”, disse Pardo, “olham mais para a missão e menos para o ego”.

Na noite da operação bem sucedida, o diretor Yossi Cohen transmitiu a informação ao chefe do Governo. “Finalmente, às 3h29 — hora de Telavive, 4h59 no Irão —, pude briefar o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu de que tínhamos roubado o que ele queria”, recordaria Cohen no seu livro de memórias The Sword of Freedom (sem edição em português). “55 mil páginas de documentação e 183 CDs onde estavam outros 55 mil ficheiros, incluindo memorandos, vídeos, plantas e planos estratégicos.” Netanyahu não tardou a gabar-se em público da operação. Numa conferência de imprensa, anuncia ao mundo que o Irão tinha mentido: tinha na verdade um programa nuclear em desenvolvimento.

Mas isso não significa que a Mossad tenha abandonado o seu modus operandi tradicional no Irão. A política de assassinatos seletivos continuou, como aquele que teve lugar a 27 de novembro de 2020. Mohsen Fakhrizadeh era considerado o cientista mais importante do programa nuclear iraniano. Tinha ordens do regime para apenas ser conduzido por guarda-costas, mas não gostava disso e costumava contornar as regras.

A arma utilizada para matar o cientista Mohsen Fakhrizadeh tinha capacidade de disparar com controlo remoto. As peças que a compunham foram contrabandeadas pela Mossad para dentro do Irão.

Naquela sexta-feira, entra no seu Nissan Teana preto com a mulher, para irem visitar os seus sogros. Ali perto, agentes da Mossad iranianos tinham estacionado uma carrinha Nissan Zamyad, que fica vazia. “Escondida debaixo de lonas e do material de construção que estavam na carrinha como disfarce, estava uma metralhadora de sniper de 7.62mm”, conta o New York Times. Mas o tiro que vai matar Fakhrizadeh não vai ser disparado por um sniper colocado à beira da estrada; em vez disso, a arma será controlada por um computador que está a operar a mais de 1.500 quilómetros dali e que tem um sistema de reconhecimento facial para identificar o alvo.

O que se seguiu “foi como um filme”, escreveria o cineasta Javad Mogouyi, que trabalha para a Guarda Revolucionária, nas redes sociais. A arma automática dispara sozinha contra o carro do cientista. O Nissan pára e Fakhrizadeh sai do carro. Nesse momento, a arma volta a disparar sozinha contra ele. E, de seguida, a carrinha de construção vazia, que estava estacionada ali perto, explode.

O que restou do carro do cientista Mohsen Fakhrizadeh, assassinado pela MossadAnadolu Agency via Getty Images

Os agentes da Mossad que estão na zona, num Hyundai, saem do carro e disparam contra os guarda-costas. Oito outros atiradores aparecem em quatro motas e disparam também contra os alvos. O cientista morreria pouco depois no hospital; a mulher sobreviveu. “A rua ficou cheia de destroços do carro e de madeira num raio de 500 metros e a explosão danificou um poste de eletricidade adjacente ao Nissan, deixando a cidade de Absard sem eletricidade”, descreveu uma agência de notícias iraniana, citada pela BBC.

O livro Target Tehran (sem edição em português), de Yonah Jeremy Bob, revela que as peças da arma automática tinham sido contrabandeadas para território iraniano e ali montadas ao longo de oito meses. Durante esse período, a Mossad seguiu Fakhrizadeh de forma obsessiva: os agentes “respiravam com o tipo, acordavam com ele, dormiam com ele, viajavam com ele”, disse ao jornalista um agente. “Teriam sentido o cheiro do seu aftershave todas as manhãs, se ele usasse aftershave.”

Funeral do cientista Mohsen FakhrizadehAnadolu Agency via Getty Images

Dois anos depois, o coronel Sayad Khodayee, da Guarda Revolucionária, é atingido a tiro por dois agentes que seguiam de mota. Em 2024, a Mossad mata o líder político do Hamas, Ismail Haniey, colocando um explosivo na hospedaria em Teerão onde estava.

Um Irão que explodea partir de dentrograças à Mossad

A operação mais espetacular de Israel dentro do Irão surgiria em 2025. O mundo fica boquiaberto quando se ouvem múltiplas explosões, incluindo nas centrais nucleares de Natanz, Isfahan e Fordo, vindas a partir de dentro. Ao mesmo tempo, nove explosões em casas matam nove cientistas nucleares. A operação “Com a Força de um Leão” duraria apenas quatro horas. Mas levaria à Guerra dos 12 Dias, depois da retaliação do Irão.

Cartaz de propaganda a promover a central nuclear de NatanzNurPhoto via Getty Images

Mais uma vez, nada disto teria sido possível sem a rede da Mossad — e a colaboração de espiões iranianos. Durante meses, a agência contrabandeou para dentro do país centenas de drones com explosivos acoplados em malas, carrinhas e contentores, segundo o Wall Street Journal. Todos podiam ser detonados à distância.

Destroços da casa de um dos cientistas mortos pela MossadMajid Saeedi/Getty Images

Mais impressionante seria o início da Guerra do Irão, que rebentou a 28 de fevereiro. Para além dos múltiplos ataques militares da Força Aérea israelita (em colaboração com os Estados Unidos), a morte do Líder Supremo Ali Khamenei foi o golpe mais impressionante que abalou o regime — embora não o tenha derrubado. Só foi possível graças ao trabalho das agências de espionagem dos dois países, onde se inclui a Mossad.

Yossi Alpher, que falou com o Observador ainda durante a Guerra dos 12 Dias, antecipava, porém, que as mortes de vários comandantes da Guarda Revolucionária seriam inúteis. “Querem livrar-se do comando de topo? Tudo bem, mas não aproveitem isso como uma grande vitória estratégica”, avisou. “Mata-se um, outro é nomeado. É como o Estado-Maior das nossas IDF. Imaginemos que uma bomba mata os 20 generais amanhã. Quanto tempo demoraríamos a ter um novo Estado-Maior? Meio dia? Um dia? Não mais do que isso.”

O investigador Ahron Bregman já tinha dito o mesmo ao Observador um ano antes. “Os israelitas não admitem isto, mas há aqui um elemento de vingança”, disse. “Foi assim com Munique e com o 7 de Outubro. Mas, a longo prazo, isto não muda o rumo das coisas. Há sempre um sucessor — e às vezes melhor do que aquele que foi assassinado”, frisou, dando o exemplo de Abbas al-Musawi, líder do Hezbollah morto por Israel em 1992, que foi substituído por um líder “muito melhor”, Hassan Nasrallah.

Um agente dos serviços secretos alemães comentou em tempos com o jornalista Ronen Bergman os riscos da húbris israelita: “O problema dos israelitas é que sempre subestimaram todos — os árabes, os iranianos, o Hamas. Acham sempre que são os mais espertos e que conseguem enganar toda a gente, o tempo todo. Um pouco mais de respeito pelo outro lado — mesmo quando se acha que [o outro lado] é um árabe estúpido ou um alemão sem imaginação — e um pouco mais de modéstia ter-nos-ia salvado desta confusão embaraçosa”, disse, a propósito de uma operação falhada da Mossad no Dubai, em 2010, quando agentes israelitas foram apanhados e as suas identidades descobertas.

A Mossad, porém, sempre se manteve firme na convicção de que a estratégia resulta. “Por vezes é mais eficaz matar o condutor, mais nada”, resumiu o antigo diretor Meir Dagan.

Cartaz nas ruas de Teerão com rostos de responsáveis israelitas sob uma mira. “Israel deve ser varrido do mapa”, pode ler-seAFP via Getty Images

De qualquer forma, o sucesso operacional das operações da Mossad dentro de território iraniano são inegáveis. Ainda antes do início da guerra de fevereiro de 2026, agentes do Instituto terão estado no terreno, durante os protestos de janeiro, para incentivar as manifestações. “Pareciam os vídeos dos black block que se veem na Europa”, comentou uma fonte com o Middle East Eye. “Andavam juntos e quando começavam os confrontos com as forças de segurança, desapareciam imediatamente.”

Em março, a agência publicou uma mensagem no seu canal do Telegram em persa: “Obrigada a todos os caros iranianos que nos têm enviado as suas fotografias e vídeos no caminho para a vitória. Agora é tempo de ter influência e ajudar a derrubar o regime.”

Independentemente dos efeitos da Guerra dos 12 Dias, e desta mais recente em 2026, Yossi Alpher não tem dúvidas de que as últimas operações foram obras espetaculares do ponto de vista da eficácia. “É um enorme feito dos serviços de informação. Enorme. Vai ser ensinado nas escolas. Se esperarmos 20, 30 anos, os veteranos vão contar como o fizeram. Estão mortinhos para contar, mas agora não podem.”

É que a Mossad, ao contrário de outros serviços secretos como a CIA, sempre teve como característica revelar anos depois pormenores das suas operações bem sucedidas — uma escolha que tem efeitos de propaganda muito benéficos para a agência. Por todo o mundo, o Instituto é visto como um dos mais eficazes: a sensação é de que ninguém lhe escapa. As execuções extra-judiciais, que violam o Direito Internacional e que alguns veem como uma mancha, são motivo de vaidade para a Mossad.

Mas isso acarreta as suas próprias contradições, como refletiu Ronen Bergman no livro Ergue-te e Mata Primeiro (ed. Temas e Debates): “Por um lado, quase tudo relacionado com os serviços de informações e de segurança nacional é classificado como top secret. Por outro, toda a gente quer falar sobre o que fez. Atos que pessoas noutros países teriam vergonha de admitir são uma fonte de orgulho para os israelitas, porque são vistos coletivamente como imperativos da segurança nacional, necessários para proteger vidas de israelitas ameaçadas, senão mesmo como necessários para proteger a existência de um Estado preparado para o combate.”

Manifestantes empunham um retrato do aiatola KhomeiniKaveh Kazemi via Getty Images

Yossi Alpher, que em tempos trabalhou de forma clandestina dentro do Irão, também vive com as suas próprias contradições. Apesar de considerar que matar líderes não é uma estratégia bem sucedida, não consegue deixar de se interrogar sobre o que poderia ter acontecido se, naquela tarde de 1978, tivesse dito ao seu chefe que a Mossad deveria mesmo assassinar Ruhollah Khomeini.

“Será que isto podia ter sido travado? O Médio Oriente podia ter sido poupado a tudo isto?”, interroga-se. “Talvez.” Mas, apesar disso, voltaria a fazer o mesmo: “É preciso dizer a verdade ao poder. Não me arrependo, porque era a única resposta que podia ter dado na altura”, assume. Para, logo de seguida, acrescentar um desabafo: “Só me arrependo de não ter sabido mais. Arrependo-me de não saber mais…”

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