CIÊNCIA

A Ilusão da Convergência Europeia

Portugal não ficou mais pobre no dia em que o INE reviu a população residente. Mas ficámos a saber que éramos menos ricos do que pensávamos. E essa diferença diz muito sobre o modelo económico que temos vindo a construir.
Nos últimos anos, os dados do Eurostat foram apresentados como prova de que Portugal estava, ainda que lentamente, a convergir com a média da União Europeia. Em março deste ano, o Eurostat estimava o PIB per capita português, expresso em paridades de poder de compra, em 81% da média europeia.Tudo mudou quando o INE reviu as estimativas da população residente. A estimativa para o final de 2024 passou de 10.749.635 para 11.387.222 residentes, ou seja, mais 637.587 pessoas do que se estimava anteriormente. A economia não produzia menos riqueza. Essa riqueza era simplesmente repartida por um número significativamente maior de residentes.Uma diferença desta dimensão obriga-nos a reavaliar praticamente todos os indicadores calculados por habitante. Segundo uma simulação publicada pelo ECO, com base nos novos dados populacionais do INE, Portugal passaria de 81% para cerca de 76,2% da média da União Europeia em PIB per capita, recuando para a 22.ª posição entre os Estados-Membros.
A revisão estatística não criou um problema económico. Apenas revelou, com maior rigor, um problema estrutural que já existia.A verdadeira questão chama-se baixa produtividade. E a produtividade é, em grande medida, o reflexo do modelo económico que fomos construindo ao longo das últimas décadas.Portugal continua a formar milhares de jovens altamente qualificados e uma parte significativa acaba por construir a sua carreira no estrangeiro. Continuamos a exportar uma parte significativa do talento que formamos.Ao mesmo tempo, a imigração tem sido essencial para responder às necessidades da economia portuguesa. O problema não é a imigração. O problema é que uma parte significativa do crescimento recente do emprego continua concentrada em setores importantes, mas de menor valor acrescentado, como o turismo, a restauração, a agricultura, parte da construção e outros serviços. Estes setores são essenciais para a economia portuguesa. O desafio é aumentar o peso das atividades de maior valor acrescentado.
Quarenta anos após a adesão de Portugal à União Europeia e apesar das dezenas de milhares de milhões de euros recebidos em fundos comunitários, Portugal continua significativamente abaixo da média europeia em riqueza por habitante.Os fundos europeus permitiram modernizar infraestruturas, reforçar a qualificação e apoiar muitas empresas. Mas, por si só, nunca poderiam substituir uma estratégia económica. Durante demasiado tempo confundimos investimento com transformação estrutural.O Estado não deve escolher vencedores nem substituir-se às empresas. Mas tem a responsabilidade de criar um ambiente competitivo e definir uma estratégia nacional de atração de investimento orientada para atividades de elevado valor acrescentado, capazes de gerar produtividade, inovação, melhores salários e carreiras qualificadas.Em simultâneo, deve criar condições para que as empresas portuguesas possam investir, inovar, crescer e internacionalizar-se. Isso exige estabilidade regulatória e fiscal, menos burocracia, uma justiça económica mais célere, investimento na qualificação, maior articulação entre universidades, centros de investigação e empresas e um enquadramento que premie a criação de valor.
O verdadeiro desafio continua a ser o mesmo: reter o talento que formamos, atrair investimento de elevado valor acrescentado e aumentar, de forma sustentada, a produtividade e a riqueza gerada por cada residente.Os dados não resolvem os problemas de um país, mas são indispensáveis para os compreender. A revisão do INE deu-nos um retrato mais rigoroso da realidade. Cabe-nos agora transformar esse diagnóstico numa estratégia capaz de aumentar a produtividade, reter talento e voltar a colocar Portugal numa trajetória de verdadeira convergência europeia.

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