CIÊNCIA

Luto: a dor que a sociedade tem pressa em apagar


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Bem-vindos ao “Porque Sim Não é Resposta” com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar do luto. Olá, Eduardo. Há uma pressão social para superar o luto depressa, para apagar a dor?
Olá, Judite. Eu acho que às vezes há. É verdade que sim. Por mais que todos nós escutemos amiúde, seja a propósito do que for, a palavra luto, como se tudo isso fosse razoavelmente claro e estivesse nítido e esclarecido pela maior parte das pessoas. Eu tentando simplificar ao máximo uma experiência tão complexa, gostava de chamar a atenção para isto. Afinal de contas, o luto é uma experiência em que nós precisamos de estar muito tristes, muito tempo. Parece-me claro. E, portanto, não vale a pena nós termos a ideia de que há um tempo pro luto, há uma fórmula pra superar o luto e tudo mais, até porque o luto, que já de si pressupõe uma violência muito grande, uma perda horrível, ainda assim, o luto traz com ele muitas perdas associadas, porque às vezes as pessoas mais importantes da nossa vida, que estão ali ao lado e que nos deviam conhecer, e que nos deviam acarinhar, etc, às vezes não percebem nada do que se passa com o nosso sofrimento. E quando nós percebemos que elas não percebem, e mais, quando nós percebemos que o nosso sofrimento a determinada altura os incomoda, nós sentimo-nos completamente destroçados, porque temos a noção que o luto às vezes é assim, uma espécie de enxurrada que leva tudo por diante. Agora, nós vivemos num tempo muito esquisito, em que parece que é proibido estar triste, em que nós vimos apresentadores de televisão, tantas pessoas num estado de euforia sempre permanente, como se no fundo, nós não pudéssemos ser alegres. A euforia é um sentimento muito solitário, a alegria é um movimento empático e de comunhão entre pessoas. E como se não pudéssemos estar tristes, assumir que estamos tristes, porque temos sempre alguém de uma forma precipitada, não é por mal, como é óbvio, se apressa a dizer: “Vai ficar tudo bem”, quase como quem diz: “Por favor, não me venhas com essas coisas uma hora destas”. O que é tão desconcertante e é tão agressivo. Sim, eu acho que às vezes há uma pressão muito grande pra guardarmos as nossas dores só pra nós, e isto é que é uma patetice.
E de onde é que vem essa espécie de desconforto coletivo com a dor dos outros?
Porque da mesma forma como a certa altura se vendiam os comprimidos azuis e se dizia: “Esta é a droga da felicidade”. A certa altura, passaram a vender uns comprimidos que dizem: “Ora, aqui tem um antidepressivo”, que é como quem diz: “Só está triste quem quer”, como se nós fôssemos todos tolos porque estamos tristes. E, portanto, criou-se a ideia, de uma forma perversa, acho eu, nada contra a gestão que as pessoas entendam fazer dos antidepressivos, que fique claro. Mas criou-se a ideia, de uma forma verdadeiramente perversa, que a tristeza era um movimento de fraqueza e, portanto, só estaria triste quem não tinha mais nada que fazer, como se não houvesse motivos mais que substantivos pra estarmos tristes. E sejamos claros, às vezes não é uma perda muito grande. Às vezes, é uma espécie de tempestade perfeita na nossa vida que parece virar tudo ao contrário e fazer com que, de repente, são muitas coisinhas pequenas que todas juntas nos fazem sentir completamente passados a ferro, sem saber pra que lado é que nos havemos de virar. E, portanto, há uma censura nos tempos que correm em relação à ansiedade, como se fosse proibido ter medo, em relação à depressão, como se fosse uma fragilidade estar triste. E como se, de repente, quando nós estamos muito tristes durante muito tempo, houvesse um prazo de validade pro luto, independentemente de nós perdermos um objeto com grande valor estimativo, ou perdermos um pai, uma mãe, um filho, ou seja quem for, que acaba por ser muito precioso na nossa vida e que é objetivamente e rigorosamente insubstituível pra sempre.
E existe um modo certo de fazer o luto?
Judite, eu tenderia a dizer que sim. Eu acho que nós temos que estar tristes o tempo que a nossa tristeza nos recomenda pra estar tristes. E temos que, na nossa tristeza, sabermos muito bem com quem é que nós contamos para estarmos tristes. E aí, há um lado que eu acho verdadeiramente fascinante na dor. É que quando a dor nos esclarece Que há pessoas que não fogem dela, que há pessoas que nos sintonizam ainda mais conosco e que há pessoas que nos ajudam, de forma às vezes quase incompreensível para nós, a ultrapassar a dor. Eu acho que nos tempos que correm, neste registo mais ou menos eufórico, em que as pessoas vivem de grande agitação, às vezes não se dão conta que é possível estar muito triste e ser feliz, porque a felicidade é um estado de partilha íntima, de grande comunhão entre duas pessoas. E sim, é possível estar muito triste e ser feliz. E quando nós descobrimos que a tristeza muito grande nos ajuda a esclarecer que as pessoas indispensáveis na nossa vida continuam lá, Judite, aí as coisas tornam-se tão sérias e tão impactantes que, de repente, vale a pena sermos pessoas e não uma espécie de robôs mais ou menos programados com sentimentos que são aceitos e sentimentos que são interditos ou pelo menos que não são recomendáveis. E felizmente, independentemente de tudo o resto, somos só pessoas e somos muito capazes de reagir contra esse tipo de desvario.
Dizemos sempre que o tempo cura. Cura mesmo ou o que muda é a relação que temos com a dor?
Não, Judite, o tempo ajuda-nos a resignar. Não cura, evidentemente. Curar, curaria o regresso das pessoas que nós perdemos e que são, de facto, preciosas e que nunca, em tempo algum, serão substituíveis. Não. Nós aprendemos a resignar com isso e aprendemos a perceber que as pessoas que estão ao nosso lado exigem muito de nós, são motivo para nós estarmos vivos. E é nessas circunstâncias que nos pomos mais ao colo delas e percebemos que perdemos pessoas muito importantes na nossa vida, mas temos sobre nós a responsabilidade de darmo-nos a quem nos considera importante e esperarmos dessas pessoas que nos dêem um cadinho mais para tornar menos dolorosa a nossa dor.
Só mesmo para terminar, que o nosso tempo está a chegar ao fim, mas não resisto a perguntar: as crianças vivem o luto de forma diferente dos adultos?
Não, Judite, de forma rigorosamente igual. Às vezes, quando não falam de quem perderam, não é porque estejam alheias, como às vezes os pais imaginam, é porque são elegantes com o sofrimento dos pais e porque têm a noção que o sofrimento deles já é tão grande que estar a avivar esse sofrimento, tocando numa ferida, os pode magoar muito e por isso elas são de uma delicadeza sem fim. As crianças vivem a dor com o mesmo rasgão pungente que todos nós a vivemos. E por isso, não é por não falarem em tempo real dessa dor, que ela é menor, porque aquilo que depois nós observamos pela vida afora é que essa dor fica e fica, e as imagens que a acompanharam ficam, e quando mais tarde falam, nós percebemos que fomos de uma ingenuidade e de uma distração que talvez elas não precisem.
Ficamos por aqui hoje, Eduardo. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabem, escrevam-nos para eduardosa@observador.pt. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.
Um grande abraço para si, Judite, e até amanhã.

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