O Etna voltou a entrar em erupção. É mesmo normal?
▲A erupção deste domingo deixou a aviação toda em alerta vermelho
Anadolu via Getty Images
Tomamo-lo como normal: o Etna entrou em erupção ou está em erupção. Parece já banal. Na verdade é mesmo. Ou não fosse o vulcão siciliano o mais ativo, e vigiado, da Europa. Mas convém levá-lo muito a sério. Mesmo que valha sempre uma visita turística, quer pelas erupções constantes quer pela sua história, o Etna é perigoso. Bastante perigoso. Este domingo, o Etna entrou numa nova fase eruptiva, lançou cinza sobre o leste da ilha, obrigou a condicionar voos no aeroporto de Catania e elevou os avisos para a aviação ao máximo, ao nível vermelho.
As imagens são sempre espetaculares — uma coluna de cinzas, escura, a subir sobre a montanha, cinzas a deslocarem-se com o vento, turistas e habitantes a olhar para um vulcão que parece nunca estar completamente quieto. Mas estamos perante uma erupção perigosa ou apenas mais um episódio dentro do comportamento habitual do Etna?A erupção começou no domingo, 5 de julho, a partir de uma abertura localizada no flanco oriental superior da cratera Voragine, uma das quatro crateras principais do cume do Etna. Segundo a informação do INGV, o Instituto Nacional de Geofísica e Vulcanologia italiano, a erupção gerou uma coluna de cinzas com cerca de 1,5 quilómetros acima do cume, que foi empurrada pelo vento para sul e sul-sudeste. O aviso VONA — o aviso vulcânico para a aviação — foi colocado em vermelho, o nível mais elevado neste tipo de comunicação operacional.
Wow! With that much degassing suddenly it’s looking ominous. I’ve ran Tsunami simulations if the East flank collapses into the Ionian Sea from an Eruption and it’s not good to say the least.
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— Matthew Templeton (@TemblorTempo) July 5, 2026Isto não significa que haja lava a ameaçar cidades. Mas que há cinza suficiente na atmosfera para criar perigo para aviões e obrigar as autoridades aeronáuticas a gerir o espaço aéreo com prudência. No Etna, muitas erupções são relativamente contidas nas zonas altas do vulcão, mas a cinza não precisa de destruir casas para fechar aeroportos.A atividade eruptiva obrigou a suspender operações no aeroporto de Catania, o principal aeroporto do leste da Sicília. A imprensa internacional noticiou que partidas e chegadas foram suspensas pelo menos até às 14h00 desta segunda-feira, com voos desviados para Palermo e recomendações para que os passageiros confirmassem o estado do voo com as companhias antes de se deslocarem para o aeroporto.
A cinza vulcânica é um problema sério para a aviação porque pode danificar motores, contaminar sistemas, reduzir visibilidade e tornar inseguras as operações de descolagem e aterragem. É por isso que, mesmo quando uma erupção parece “só” bonita vista de longe, os aeroportos podem parar. O Etna, que em dias normais é uma atração turística, transforma-se rapidamente numa dor de cabeça logística para quem tem voo marcado para Catania.
???? ???? Breaking GeoBit: Etna volcano in Sicily erupted again today, 5 July 2026, with a new sustained summit lava paroxysm from Voragine crater, starting around 9:00 a.m. local time.???? ❤️ Greatly Appreciated pic.twitter.com/upvrbi7fAR
— Geology Bits of Knowledge (@geologyBits) July 5, 2026Sim e a UNESCO vai ainda mais longe: descreve o Etna como o estratovulcão mais ativo do mundo. Domina a costa oriental da Sicília, tem uma história eruptiva que pode ser rastreada até há 500 mil anos e pelo menos 2.700 anos de atividade documentada. A área classificada como Património Mundial inclui 19.237 hectares na parte mais alta e desabitada da montanha.
O Smithsonian/Global Volcanism Program também sublinha que o Etna tem um dos registos documentados de vulcanismo mais longos do mundo, com erupções registadas desde cerca de 1500 a.C.. Isto ajuda a perceber a diferença entre o Etna e muitos outros vulcões: a sua atividade frequente não é uma anomalia recente, faz parte da identidade geológica da Sicília.É relevante para a aviação, mas não parece excecional para o Etna. A coluna de cinza de cerca de 1,5 quilómetros acima do cume justifica avisos e condicionamentos, mas está longe de alguns episódios recentes mais energéticos, em que as colunas eruptivas atingiram vários quilómetros de altitude. Em junho de 2025, uma erupção do Etna gerou imagens muito mais dramáticas, com corrente piroclástica e uma nuvem de cinzas que chegou a cerca de 6,5 quilómetros de altitude, tendo sido depois descrita pelo INGV como um episódio de dimensão média.
???? ⛏️ ???? Mount Etna rises from Sicily as a long‑lived stratovolcano built through more than 500,000 years of basaltic eruptions, caldera collapses, and repeated cone rebuilding.YT ???? Please visit: @GEOLOGYINFO???? ❤️ Greatly Appreciated… pic.twitter.com/YUlAKPCISc
— Geology Bits of Knowledge (@geologyBits) July 5, 2026Normal, no Etna, não quer dizer inofensivo. Quer dizer que o vulcão tem atividade muito frequente e que episódios de cinza, explosões estrombolianas, fontes de lava e pequenas escoadas são relativamente habituais. O risco depende da intensidade, da duração, da direção do vento, da localização das bocas eruptivas e da proximidade a zonas habitadas ou rotas aéreas. Neste caso, o problema principal parece ser a cinza, não uma escoada de lava a avançar sobre povoações.
O Etna tem tido uma atividade muito regular, com episódios que frequentemente chamam a atenção internacional. Em 2023, a cinza voltou a fechar temporariamente o aeroporto de Catania, num episódio em que a Reuters recordava que o vulcão, com cerca de 3.330 metros, pode entrar em atividade espetacular várias vezes por ano, projetando lava e cinza sobre a ilha.Em 2025, uma erupção no início de junho tornou-se viral pelas imagens de turistas a afastarem-se da montanha enquanto uma nuvem de cinza e material vulcânico subia da cratera sudeste do cume. As autoridades italianas disseram então que a lava permanecia dentro de barreiras naturais e que não havia risco para a população.
#Etna 2025 suite de l’éruption pic.twitter.com/95sZiVHGbM
— ????Aurelien Pouzin???? (@aurelienpouzin) June 2, 2025Já este ano, a atividade não começou do nada no domingo. Segundo a informação citada pela Cadena SER, o Etna já tinha iniciado atividade eruptiva a 26 de junho, com escoadas de lava que só terminaram a 4 de julho, e houve ainda um pequeno fluxo detetado entre 2 e 3 de julho. A emissão de cinza de domingo surge, por isso, no contexto de um vulcão que já vinha a dar sinais de agitação há vários dias.
A grande referência histórica continua a ser a erupção de 1669, geralmente considerada a maior erupção histórica do Etna. O INGV descreve-a como a maior erupção lateral do vulcão nos últimos quatro séculos: começou a 11 de março de 1669, junto a Nicolosi, a cerca de 800 metros de altitude, libertou cerca de 600 milhões de metros cúbicos de lava, formou um campo de lava com cerca de 40 quilómetros quadrados e produziu uma escoada com 17 quilómetros de comprimento, que chegou ao mar e alterou a linha de costa na zona de Catania. Só terminou a 11 de julho. A literatura científica confirma a escala desse episódio: um estudo publicado no Journal of Volcanology and Geothermal Research identifica a erupção de 1669 como a maior erupção histórica do Etna.Outro episódio marcante foi o de 1928, quando a lava destruiu quase totalmente a vila de Mascali, no flanco oriental do vulcão — a primeira localidade destruída por uma escoada do Etna desde 1669. Mais recentemente, a erupção de 1991-1993 ameaçou Zafferana Etnea e ficou célebre pelas tentativas de desviar a lava com barreiras e explosivos, numa operação que entrou para a história da gestão de riscos vulcânicos.O risco mais imediato é para a aviação e para as zonas afetadas pela queda de cinza. A cinza vulcânica pode causar problemas respiratórios, sujar estradas, reduzir visibilidade, afetar culturas agrícolas e obrigar à limpeza de pistas, carros e telhados. Para os aviões, o risco é ainda mais sensível, daí os avisos vermelhos e as suspensões no aeroporto de Catania.
Para a população e turistas, as informações disponíveis não apontam para danos significativos ou feridos. O The Times escreve que não há relatos de feridos ou danos relevantes e que as autoridades britânicas não alteraram o aconselhamento de viajar para a Sicília, embora recomendem aos viajantes que acompanhem a informação das companhias aéreas e das autoridades locais.Isto não significa que o Etna seja um vulcão “seguro”. Significa apenas que, neste episódio, o risco parece estar sobretudo associado à cinza e às perturbações operacionais, não a uma ameaça direta a povoações. O Etna é muito ativo, muito vigiado e muito estudado, mas continua a ser um vulcão: a diferença entre espetáculo natural e problemas sérios pode depender de uma mudança na direção do vento, de uma alteração da atividade ou de uma nova boca eruptiva.O cenário mais prudente é continuar a acompanhar os avisos do INGV, da Proteção Civil italiana, do aeroporto de Catania e do centro de aviso de cinzas vulcânicas. A atividade pode diminuir rapidamente, como muitas vezes acontece no Etna, ou manter emissões de cinza suficientes para continuar a condicionar voos. Para quem está na Sicília, a recomendação é simples e pouco romântica: confirmar voos antes de sair para o aeroporto, respeitar zonas interditas no vulcão e não tratar a cinza como se fosse apenas pó.O Etna não entrou em erupção “contra o normal”. O normal do Etna é precisamente este: alternar períodos de relativa calma com episódios que lembram à Sicília, aos turistas e às companhias aéreas que aquela montanha não é apenas paisagem. É um dos vulcões mais ativos do mundo — e continua em serviço.










