CIÊNCIA

Jovens de bairros sociais preparam-se para era digital

Da Ameixoeira ao Casalinho da Ajuda, jovens de vários bairros sociais de Lisboa participaram num ‘bootcamp’ de robótica, ‘gaming’ e inteligência artificial, do qual resultaram projetos como “um braço robótico” para ajudar “pessoas que não têm uma mão”.
Promovida pela empresa Gebalis – Gestão de Bairros Municipais, a iniciativa Semana Digital contou com a participação de “cerca de 200 miúdos”, que ao longo de cinco dias receberam formação em áreas tecnológicas emergentes, enquanto 20 seniores aprenderam a utilizar ferramentas e serviços digitais, desde o e-mail ao WhatsApp.“Esta Semana Digital foi boa, aprendi coisas novas, como montar este braço robótico”, conta à agência Lusa Fábio Moreno, de 15 anos, residente no bairro da Ameixoeira e um dos inventores do projeto criado para ajudar pessoas que tenham “nascido sem um membro, sem a mão”.Apresentado no evento final da Semana Digital, que decorreu na sexta-feira, na Escola Secundária D. Dinis, em Marvila, o projeto de “um braço robótico” foi materializado com peças de brinquedos de construção Lego, de diferentes cores e tamanhos, no qual se inseriu programação robótica que, através de um computador, aciona um botão para abrir e fechar a “mão robótica”, permitindo carregar objetos, como uma folha de papel, um copo de água, uma garrafa ou até uma mala.
A orientar os jovens da Ameixoeira, o formador João Herédia, de 23 anos, responsável pela área de programação robótica, destaca a criatividade dos formandos e explica que o tema do projeto final era a diversidade e, por isso, “quiseram fazer algo que pudesse ajudar as pessoas mais carenciadas, como pessoas que não têm uma mão”.“É verdade que os miúdos vivem numa era super tecnológica, mas ao mesmo tempo também cada vez mais se usa a tecnologia – isto nas idades dos mais jovens – para coisas que não interessam e isto é uma maneira de trazer a tecnologia que realmente interessa e que pode puxar para coisas boas e para que eles tenham um bom futuro, quer profissional, quer pessoal”, realça o formador, enaltecendo o interesse que demonstram em aprender e confidenciando que “têm todos imensas ideias”.Quanto ao “braço robótico”, segundo João Herédia, “o propósito é fingir que isto é uma prótese de verdade”.Do Casalinho da Ajuda, Bianca Martins, de 11 anos, e Lara Cadete, de 15 anos, mostram no telemóvel o seu projeto de ‘gaming’, baseado no jogo Minecraft e criado com o objetivo de mostrarem o bairro onde vivem: “Fizemos o nosso bairro, construímos a nossa associação, o Chinquilho, que é onde nos encontramos mais. Também construímos as nossas casas. Construímos o campo, que é onde nós jogamos futebol. Construímos a escola onde estivemos a fazer o projeto.”
Questionadas se gostaram de participar na Semana Digital da Gebalis, Bianca responde, tentando vencer a timidez : “Nós não gostámos, amámos!”Ao longo de cinco dias conseguiram desenvolver novas competências digitais, mas consideram que, se a iniciativa fosse além de uma semana, “ia ser mais fixe”.Responsável pela formação de “criadores do futuro”, Matilda Tito Martins, de 23 anos, reconhece que viver nos bairros sociais, em contextos socioeconómicos mais vulneráveis, pode ser “mais difícil” em termos de literacia digital: “Com esforço e dedicação, tudo se ultrapassa […], mas a verdade é que são crianças que têm sempre de lutar mais.”Sobre o impacto desta iniciativa no futuro destes jovens, a formadora acredita que “pode fazer toda a diferença”, até porque é um incentivo a investirem na educação e formação profissional, ressalvando que é preciso “esperar para ver”, mas a expectativa é que “vai mudar alguma coisa nas cabeças deles”.
No grupo sénior, Maria Adelina Oliveira, de 73 anos, moradora no bairro do Condado, em Marvila, faz um balaço positivo da Semana Digital, onde adquiriu novos conhecimentos digitais e reavivou outros, e realça que esta iniciativa ajuda também na interação dos moradores dos bairros, bem como no combate ao isolamento e solidão dos mais velhos.“Eu acho que me reformei não foi para morrer. Eu acho que me reformei para continuar a viver e aprender coisas novas, participar em projetos, isso é uma coisa maravilhosa”, confidencia, com um sorriso no rosto.Em declarações à agência Lusa, o presidente da empresa municipal Gebalis, Fernando Angleu, adianta que esta é já a 4.ª edição da Semana Digital, iniciativa que “tem sido um sucesso” e que é para continuar, com a aposta em formações na área do digital, nomeadamente robótica, ‘gaming’ e inteligência artificial, para os moradores dos bairros sociais, em particular os jovens, abrindo portas para o futuro através da tecnologia.“Quem sabe temos aqui grandes talentos também nestas novas tecnologias”, projeta o presidente da Gebalis, reforçando que o foco da empresa responsável pela gestão dos 66 bairros municipais de Lisboa “são as pessoas” e, por isso, o investimento na literacia digital é visto como uma ferramenta de inclusão, capacitação e coesão social, contribuindo para o empoderamento das novas gerações e para a redução das desigualdades de acesso ao conhecimento.

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