Em Annecy 2026, triunfam “The Violinist” e “Le corset"
▲“The Violinist”, de Ervin Han e Raul Garcia, ficou com o Cristal de Annecy
Ervin HAN
A competição de longas-metragens que o Cristal distingue todos os anos, essa, foi bem mais arriscada e radical, juntando o que de melhor se verá no campo da animação no resto do ano. Foi este o concurso que levou a maior parte da atenção dos 19 mil acreditados, oriundos de 120 países, que passaram pela cidade. Annecy, de resto, continua a bater recordes neste campo, com cifras que, há pouco tempo, não eram sequer possíveis de imaginar. Para se ter uma ideia, um gigante como o Festival de Berlim credenciou este ano 19.500 pessoas. Annecy está muito perto disso, prestes a subir ao segundo lugar do pódio. Apenas Cannes supera estes números.
O festival foi ganho por The Violinist, co-produção internacional centrada na Singapura e obra co-realizada pelo singapurense Ervin Han e pelo experiente artista espanhol Raul Garcia. The Violinist arranca no tempo presente, com uma célebre violinista de idade avançada que nos leva em seguida, pelas suas memórias, até à II Guerra Mundial, durante a ocupação nipónica da Singapura em que a protagonista, jovem apaixonada, tenta não perder o rasto do rapaz pouco mais velho, também ele dotado para a música, por quem se deixou encantar na adolescência. Se a guerra separa os corpos, a música continua a unir os espíritos deste elegante fresco romanesco, ciente dos passos que quer dar, e que deixa a audiência a pensar nos grandes épicos românticos como Tempo para Amar e Tempo para Morrer ou Doutor Jivago — experiência essa que, evidentemente, é rara de se encontrar no cinema de animação. Com o Cristal no portefólio, The Violinist começa agora a trilhar o percurso internacional de Flow, em 2024, e de Arco, em 2025, galardoados com o mesmo prémio (e o primeiro com o Óscar da categoria).E contudo, The Violinist, que é um bom filme, não chega a ombrear com os citados, falta-lhe um grão na asa, um rasgo de maior, como aquele que o autor destas linhas encontrou no filme que deveria ter saído vencedor, pois é sublime: Le corset, novo trabalho do ex-animador da Pixar (e co-realizador de dois Astérix), Louis Clichy. Já recompensado, em Cannes, com o Prémio Especial do Júri do Un Certain Regard, Le corset “perdeu” o Cristal, mas ficou com o Prémio do Júri, o do Público e o da Fundação Gan.Le corset passa-se nos anos 80 em Beauce, região agrícola do Centro-Vale do Loire, e está ancorado numa veia realista campestre que outrora fez escola na cinematografia francesa. Rodeado de vacas, ovelhas e tractores na quinta em que a família ganha o seu pão, Christophe, miúdo de 11 anos e herói da história, vê-se obrigado, certo dia, a usar um colete ortopédico metálico para corrigir a escoliose que o aflige. Por isso mesmo se chama o filme Iron Boy, no seu título internacional. O colete vai obviamente condicionar Christophe no dia-a-dia e na relação com as outras crianças enquanto, na visita à Igreja, ele vai pensando em milagres, identificando-se com a estátua de Cristo crucificado, com a cabeça inclinada. Uma coisa leva a outra, chamem-lhe milagre ou não: é o órgão da igreja que o desperta para a música. E, em seguida, ele encontra Clara, que lhe acelera o ritmo cardíaco.
Vagamente inspirado em episódios biográficos do seu autor (que também cresceu em Beauce e usou colete semelhante na meninice), Le corset é um dos grandes filmes deste ano, notável a fixar com sensibilidade e humor as ansiedades da entrada na adolescência, aquilo que lhe é mais íntimo. Afinal, quem se sente bem na sua própria pele nessa idade? É um trabalho superlativo, fadado para altíssimos voos e, em França, seguramente, um enorme êxito de bilheteira que se avizinha, acompanhado, na banda-sonora, pela recuperação de Ouragan, o hit que a princesa Stéphanie do Mónaco lançou naqueles anos 80.A concurso estavam títulos de inegável valor que ganharão igualmente importância nos próximos meses, também eles apresentados previamente em Cannes: In Waves, de Phuong Mai Nguyen (produção francófona, embora falada em inglês e que decorre na Califórnia), Lucy Lost, de Olivier Clert, muito influenciado no traço pelo trabalho inicial de Miyazaki (disputará com Le corset as atenções do cinema animado em França), também o norte-americano Tangles, de Leah Nelson, filme perturbador, tanto a nível cinematográfico como emocional, sobre o regresso de uma mulher à sua cidade conservadora e a realidade cruel de uma mãe que sofre de Alzheimer.










