CIÊNCIA

A politização do futebol – a ascensão da FIFA

O futebol continua a ser jogado onze contra onze. Mas fora das quatro linhas as regras do jogo mudaram. A atribuição de Mundiais, a diplomacia desportiva e as denúncias de corrupção endémica levantam uma questão fundamental: como se tornou a FIFA um palco de disputa geopolítica no século XXI?
A política entrelaça-se com todos os domínios da ação humana. Impacta direta ou indiretamente as nossas decisões e condiciona por completo o contexto em que nos inserimos. O futebol contemporâneo é, por isso, inevitavelmente absorvido por esta certeza: tudo é política.Se recuarmos no tempo e analisarmos o processo de crescimento deste desporto, confirmamos esse facto, mas também constatamos que o futebol atual é uma realidade muito distante das suas origens.Muito antes de se tornar o desporto-rei, o futebol moderno surgiu com a criação da Football Association, em 1863, em Inglaterra. Rapidamente, por via da hegemonia imperial britânica, o jogo expandiu-se através de marinheiros e comerciantes que contactavam com os quatro cantos do mundo. No início do século XX, o futebol globalizou-se. A difusão do fenómeno foi impulsionada pela sua enorme popularidade. A FIFA fundar-se-ia neste contexto, em 1904.
Inicialmente, tratava-se de uma instituição predominantemente europeia. A sua abertura ao mundo foi um processo gradual, marcado pela organização do primeiro Mundial, em 1930, e pelo contexto pós-Segunda Guerra Mundial. Esta FIFA era, portanto, uma organização amadora, sediada em Zurique, que tinha como mote não a exploração incessante do potencial económico do futebol, mas a promoção do desporto.Ora, de onde surgiram as raízes que sustentam o atual modus operandi da FIFA?Foi na década de 1970 que os dirigentes da organização perceberam que o jogo se iria começar a desenrolar noutros moldes. O futebol já não era apenas uma disputa entre duas equipas durante noventa minutos. O extrajogo passara a assumir um papel fundamental. Criam-se estrelas mundiais, geram-se contratos publicitários, vendem-se direitos de transmissão e patrocínios de milhões. O futebol passa a ser percecionado como um elemento indissociável da cultura de massas e, com isso, torna-se alvo de um enorme interesse político e económico. Acima de tudo, gerou-se a idealização de um espetáculo e, para o promover, tornou-se necessário criar uma indústria à sua volta.A partir da presidência do brasileiro João Havelange, a FIFA explodiu economicamente, tendo na organização do Mundial a chave do seu sucesso comercial.
Percebeu que a expansão do futebol para África, Ásia e América Latina podia transformar a FIFA numa organização poderosíssima. Essa afirmação institucional seria promovida pela organização do Mundial de 1978, na Argentina. A FIFA assume uma adesão ao mundo capitalista, firmando acordos de enorme preponderância com marcas como a Coca-Cola e a Adidas.Enquanto isso, a organização desportiva também começava a demonstrar uma intenção de desempenhar papéis diplomáticos, ou pelo menos de vincar uma visão política. Paradoxalmente, enquanto condenava o Apartheid, aceitava colaborar com a ditadura militar argentina.Seria a partir deste período que a FIFA se tornaria um ator político de relativa relevância no palco internacional.Neste contexto, gerou-se uma dualidade entre uma organização defensora de valores democráticos e universais, tendo como objetivo a defesa incondicional do futebol, e um sistema “oligárquico” que se rende aos projetos políticos e económicos mais condenáveis para benefício próprio, desrespeitando os ideais fundacionais da instituição.
Importa questionar: a FIFA tornou-se parte integrante do xadrez geopolítico global ou apenas um meio de ação do qual determinados regimes políticos passaram a fazer uso para concretizar os seus objetivos?Na atualidade, é frequente ouvir-se o termo sportswashing. O conceito é, em si mesmo, um eufemismo. Na prática, descreve o recurso ao desporto como ferramenta de propaganda política, utilizada por governos para projetar uma imagem positiva no exterior e relegar para segundo plano conflitos, violações de direitos humanos ou crises internas.Esta estratégia está longe de ser um fenómeno recente. O regime nazi procurou explorá-la através da organização dos Jogos Olímpicos de Berlim, em 1936. Um século depois, os mesmos princípios voltariam a estar presentes nas candidaturas da Rússia e do Qatar à organização do Campeonato do Mundo, transformando o futebol num instrumento de afirmação política e geopolítica.Com a entrada no século XXI, foi sob a gestão de Sepp Blatter que a FIFA se tornou alvo de um enorme interesse político e económico. Foi também durante a sua presidência que a instituição atingiu o auge da sua crise de credibilidade, através de práticas de corrupção generalizadas com repercussões até aos nossos dias.
A FIFA esqueceu por completo os princípios que deveriam orientar a sua ação. Através da atribuição de Mundiais, a organização intrometeu-se em jogos políticos para benefício do seu comité executivo. As práticas eram claras: através de subornos a diferentes responsáveis das confederações, países como a África do Sul e, mais tarde, a Rússia e o Qatar, conseguiram comprar votos que beneficiassem as suas candidaturas face às concorrentes.Esta é a realidade do órgão máximo do desporto-rei. É claro que estes países têm o direito de apresentar as suas candidaturas, mas persistem dúvidas quanto aos critérios de seleção. É censurável a forma como utilizaram privilégios económicos, círculos de influência e interesses comuns para aliciar apoios aos seus projetos. Por outro lado, esta é a FIFA que compactua com regimes opressores e que foi cúmplice da exploração laboral verificada no Qatar.Gianni Infantino sucedeu a Sepp Blatter na presidência da instituição. A forma como a instituição se tornou subserviente de D. Trump revela que o modus operandi permanecesse inalterável, perdurando práticas de um sistema completamente viciado.Em 2026, falamos do Mundial mais lucrativo de sempre. A expansão do torneio para 48 equipas simboliza também a transformação do futebol numa indústria global. Em contrapartida, significa um afastamento entre o adepto e o jogo, seja pelo encarecimento dos bilhetes, pelas restrições de vistos ou por fenómenos de “americanização” do futebol.De modo a concluir este artigo, convido o leitor a uma reflexão.O futebol é um fenómeno global. Não discute classes sociais, sexo ou raça. É um espaço onde só o mérito triunfa. Tem o poder de juntar povos inimigos e é por isso uma ponte para a diplomacia. O problema surge quando a instituição que o lidera se desprende de qualquer rigor ético e moral para se entregar por completo aos interesses instalados.
Como é óbvio, a aliança entre futebol e interesses económicos resulta num benefício mútuo e essencial. A FIFA tem um poder enorme. Exerce influência própria, negocia com Estados, condiciona políticas, escolhe sedes de Mundiais e produz efeitos diplomáticos. Deve, por isso, fazer uso dessa capacidade para promover o bem comum do desporto.Está na altura de todos aqueles que acreditam num jogo mais justo e democrático se unirem e promoverem uma reforma da FIFA. É urgente recuperar os valores fundacionais do jogo. Que se pare de legitimar regimes opressores e autoritários. Que se pare com a constante comercialização do futebol. Que se pare de transformar o futebol num espetáculo elitista e distante do adepto comum.Fica a questão: de que serve a FIFA clamar pela defesa de valores universais e democráticos se permite que líderes políticos que desrespeitam a diplomacia, ignoram a cordialidade e desconhecem a palavra “solidariedade” possam entregar a taça de campeão mundial ao vencedor da competição?

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