CIÊNCIA

Os políticos com forma e sem conteúdo – ouvintes


Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
“Fora do Baralho”, no episódio dominical dedicado às perguntas dos ouvintes e aos comentários. É muito fácil interagir com os membros do painel do “Fora do Baralho”: basta enviar um e-mail para foradobaralho@observador.pt e aos domingos, um dos quatro ases responde aqui na rádio e em podcast a estas perguntas e comentários. Hoje cabe ao Nuno Garoupa responder. Olá, Nuno, bem-vindo.
Olá a todos.
Hoje vamos a uma pergunta de João Barbosa, que nos enviou por e-mail, sobre a imigração e o desemprego. Diz que há muita procura, por exemplo, para entrega de comida, TVDE e pergunta se este tipo de serviços não cria a ilusão de que a economia está a gerar muitos empregos, relacionado também com o aumento da população. No fundo, isto gera algum valor para a economia, Nuno?
Deixa-me responder com dois exemplos e depois já vamos falar onde é que acho que está o problema. Repara, os Estados Unidos, que ainda é esta semana, precisamente este fim de semana, comemoram 250 anos, é um país que se fez com imigração não qualificada e isso não impediu os Estados Unidos de ser a potência económica que é hoje. Por outro lado, é sempre bom recordar que cerca de 1,4 milhões de portugueses emigraram nos anos 60 e 70 para França, para a Alemanha, para a Suíça, e era imigração não qualificada. Isso não impediu França, Alemanha e Suíça de serem potências económicas e de terem grandes crescimentos económicos durante essas décadas em que a mão de obra não qualificada portuguesa, espanhola e grega emigrava para esses países. O que eu quero dizer com isso? Eu quero dizer que, de facto, é evidente, não vale a pena estarmos aqui com grande discussão, que grande parte desta mão de obra não qualificada que chegou a Portugal não está a gerar grande valor económico. Como o ouvinte diz, há uma série de trabalhos, TVDE, entrega de comida, etc., que não gera grande valor económico. Mas o problema que a economia portuguesa tem em gerar valor ou em ter maior produtividade existiu antes da chegada desta mão de obra, existe enquanto cá estiver essa mão de obra e, lamento, penso que vai continuar a existir depois destes fluxos migratórios se voltarem a alterar. Isto tem a ver com um problema estrutural que não está resolvido e, portanto, eu não acho que esta mão de obra não qualificada imigrante resolva o problema, mas também não está a impedir a resolução do problema. A resolução do problema tem a ver com problemas estruturais portugueses. Aqui não quero fazer grande magia, porque há muitas diferentes opiniões. A esquerda acha, em geral, que o problema são os empresários que não sabem organizar as empresas e que, portanto, nós não conseguimos gerar valor porque temos maus empresários e más empresas. A direita acha que, em geral, é o problema do Estado, da legislação laboral, da burocracia. Temos até recentemente um livro do Nuno Palma que vem agora dizer que, no fundo, são os fundos que têm impedido que a gente consiga desbloquear aquilo que está bloqueado. Mas há muitas explicações. Eu penso que o problema não deve ser confundido com esta imigração. Deixa-me só acrescentar: há aqui outra questão, que essa sim, pode ser parte do problema, mas sem números fidedignos, voltamos a estar sem saber, que é a questão da emigração com E, da mão de obra qualificada. Isso sim é um problema, se estamos a substituir mão de obra qualificada.
Daqueles que saem de cá, não é?
Claro. Mas também isso é polémico, porque tivemos o governador Mário Centeno durante quatro anos a insistir que esse problema não existia. E, portanto, não sei se temos que esperar o INE publicar outras estatísticas mais tarde para perceber exatamente a extensão desse problema. Se esse problema existe, que estamos a substituir mão de obra qualificada por mão de obra não qualificada, aí sim, estamos a agravar um problema estrutural que já vinha de trás.
E até estes não qualificados que vêm podem, eventualmente, também, e vimos isso nos exemplos que já deste, desenvolver eles próprios novos negócios.
Obviamente. E atenção, aqui há outro problema que também houve uns artigos polêmicos sobre isso. É possível que uma parte desta mão de obra não qualificada, na verdade, seja qualificada. O problema é que ela não está a ser usada como qualificada na economia portuguesa. Médicos, enfermeiros, engenheiros, mas que vêm e como não têm os títulos validados em Portugal, têm que fazer Uber Entregas.
E assistimos isso, por exemplo, na imigração do Leste da Europa, maior parte delas com formação.
Exatamente. Até é qualificada, simplesmente o trabalho que está a fazer é que não é qualificado. Portanto, também há esse problema.
Vamos a outra pergunta, Sérgio Bidarra, que confessa que foi aluno da Susana Peralta, é uma reflexão longa que eu vou tentar aqui resumir. No fundo, envia duas perguntas sobre o momento político que Portugal e a Europa e o mundo ocidental vai atravessando. Pergunta o Sérgio Bidarra se concordam com a visão dele de que vivemos cada vez mais num mundo onde se prioriza a forma em detrimento do conteúdo e, em caso de resposta positiva da tua parte, Nuno, como podemos chegar a um mundo mais informado, com menos intrigas e telenovelas políticas, que no entender do Sérgio, o facto de os grandes protagonistas políticos não darem respostas mais assertivas e serem mais titubeantes na forma como abordam os problemas, isso empurra as pessoas para os extremos, onde há resposta e solução para todos os problemas, basta estalar os dedos. Que resposta tens para o Sérgio Bidarra, Nuno?
Eu concordo com ele, não sou eu otimista sobre a solução. Repare, eu acho que há dois problemas que se complementam aqui. Um: há um problema, obviamente, da forma em si mesmo, que tem a ver com as técnicas de comunicação hoje em dia. Quer dizer, nós não temos agora ciclos de notícias de três a quatro dias, os ciclos são muito curtos. As rádios, as televisões, a internet tem que estar permanentemente a dar notícias e portanto isso cria ciclos muito curtos e havendo quem tenha ciclos curtos, é normal que a forma sobreponha a substância. Acho que isso não é surpreendente e acho que isso não é surpreendente que esteja em todos os países, já nem digo só nos ocidentais, mesmo fora dos países ocidentais, exceto nos países autoritários, onde se continua a controlar o fluxo de informação, obviamente. Mas onde esse fluxo de informação não é controlável, o problema está lá e não vou culpar as redes sociais, simplesmente é a forma como nós vivemos hoje em dia. Quer dizer, hoje em dia nós temos um aparelho à nossa frente, na nossa mão, todos os dias estamos a ver notícias a qualquer segundo. Não é como há apenas 30 anos, em que íamos ver o noticiário das 20:00. E portanto, sempre foi aquela coisa complicada. E havia aquele velho dizer, que eu aprendi há 30 anos: a televisão anunciava, a rádio dizia e depois os jornais explicavam qualquer coisa que tinha a ver com isso, que era a sequência da notícia. Hoje em dia, como é evidente, nada disso tem qualquer conteúdo.
Tudo está muito diluído, sim.
Exatamente. E portanto, eu acho que essa questão não é ultrapassável. O outro problema, que eu acho que é um problema que está a acontecer na Europa e nos Estados Unidos, e em Portugal também, é que, infelizmente, os problemas que nós estamos a enfrentar são complexos. E, em geral, a mensagem política complexa não passa. Quer dizer, as pessoas querem mensagens simples. A classe média, que no fundo é quem decide eleições, quer ouvir mensagens simples e principalmente quer ouvir que os problemas têm alguma solução. Porque há coisa que um político vir dizer é que o problema não tem solução, ou como dizia, por exemplo, o ministro Castro Almeida esta semana, que só daqui a 20 anos é que talvez consigamos chegar à média europeia, que eu até acho que ele provavelmente está a ser otimista, mas realmente ele está a falar há 20 anos, quando estamos a falar desta média europeia, pelo menos há outros 40 para trás, desde 86, quando aderimos à União Europeia. Portanto, ninguém quer saber de um ciclo de 60 anos. E portanto, eu acho que há aqui um problema que é a forma de fazer comunicação hoje em dia versus a complexidade dos problemas. E a complexidade dos problemas, infelizmente, não se compadece com os ciclos de notícias. E portanto, eu acho que nós já vimos isso em governos anteriores, estamos a ver neste governo, mas estamos a ver no presidente dos Estados Unidos ao mesmo tempo, esta necessidade de estar todos os dias a fazer intervenções, de estar a comentar coisas todos os dias, de estar supostamente a fazer coisas todos os dias. Quer dizer, não há um ministro que possa vir dizer: “Olha, eu estou a preparar uma reforma X, mas só vou apresentar daqui a um ano. E vocês não me façam perguntas durante um ano, porque durante um ano estou a organizar essa reforma.” Não é, quer dizer, os ministros todos os dias têm que estar a dizer coisas e todos os dias têm que estar a reagir àquilo que é o episódio do dia. Quer dizer, a notícia do dia: “Pois, eu já tenho uma solução, esperem lá, já vou anunciar.” E eu acho que isso, infelizmente, queiramos ou não, é parte do problema e não vejo uma solução fácil para isso. Esta ideia de que havia uma geração de políticos muito sérios e umas pessoas muito sisudas, muito pensadoras e que tinham soluções para os problemas, porque estavam ali a pensar, penso que isso passou. Quer dizer, nem sei se essas pessoas hoje voltassem, teriam o marketing eleitoral que tiveram há 20 ou há 30 ou há 40 anos, quando esse tipo de político era valorizado.
Obrigado, Nuno.
Eu é que agradeço.
É muito fácil fazer perguntas ou comentários aqui no “Fora do Baralho”, ouvintes, basta escrever para o foradobaralho@observador.pt. As respostas são dadas aos domingos de manhã na rádio e ficam disponíveis em podcast. Bom fim de semana e um abraço, Nuno.

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