Sintra. Lagarde aponta que juros não irão subir bruscamente
▲Tal como tem acontecido nos últimos anos, o Fórum BCE em Sintra foi marcado por vento forte.
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A economia europeia está mais resiliente a choques e, por isso, eventuais “ajustes” na taxa de juro por parte do BCE serão “comedidos“. O sinal foi dado por Christine Lagarde nesta segunda-feira, no discurso de abertura oficial do Fórum BCE, que anualmente reúne em Sintra os principais banqueiros centrais de todo o mundo e académicos desta área. Comparando com a grande subida dos juros de 2022/2023, Lagarde afirma que “já não temos necessidade de agir com a mesma força“.
No discurso feito durante o jantar que abre o evento anual, no resort Penha Longa, em Sintra, Christine Lagarde defendeu que a política monetária do Banco Central Europeu entrou numa nova fase, marcada por um regresso ao “essencial”: controlar a inflação através das taxas de juro, deixando para segundo plano os instrumentos extraordinários utilizados durante as sucessivas crises da última década e meia – que incluíram, por exemplo, programas de compra de títulos de dívida pública.A presidente do BCE sustentou que o contexto económico mudou, permitindo ao banco central atuar de forma mais gradual, com decisões tomadas reunião a reunião e dependentes dos dados disponíveis, sem recorrer à chamada forward guidance (orientação antecipada) que foi empregue em anos anteriores, quando a autoridade monetária sentiu necessidade de dar pistas sobre as decisões futuras para mais facilmente levar as taxas de juro de mercado (como as Euribor) para os níveis que queria, em cada momento.Segundo Lagarde, esta mudança tornou-se possível porque a zona euro é hoje mais resiliente. A responsável referiu que as reformas introduzidas após a crise das dívidas soberanas, o reforço da supervisão bancária e, mais recentemente, a criação de instrumentos como o Mecanismo de Proteção da Transmissão (TPI), ao abrigo do qual se pode voltar a comprar dívida pública se for necessário, explicam porque é que a zona euro tem resistido melhor aos últimos choques como a guerra no Irão.
“Esta resiliência tem sido claramente visível nos últimos anos“, afirmou Christine Lagarde. “A falência do Silicon Valley Bank [nos EUA] não desestabilizou os bancos da zona euro. A zona euro também superou o maior aumento das tarifas dos EUA em quase um século, bem como o que a Agência Internacional de Energia denominou a maior interrupção no fornecimento de petróleo da história”, notou, acrescentando que “os custos foram substanciais, mas a economia não descarrilou“.A convicção do BCE é que “as flutuações cíclicas permaneceram controladas, mesmo que alguns destes choques representem desafios para as perspetivas de crescimento a longo prazo da Europa”, afirma Lagarde, acrescentando que o Mecanismo Europeu de Estabilidade e o NextGenerationEU [o PRR] “reduziram os riscos de fragmentação financeira e permitem ao BCE ajustar as taxas de juro para combater a inflação sem receio de desencadear instabilidade nos mercados“. Além disso, a transição energética está a reduzir a vulnerabilidade da economia europeia aos choques nos preços da energia, considerou a presidente do BCE.Ao tornar a economia mais resiliente a choques, esta estrutura reduziu a necessidade de respostas políticas não convencionais ou agressivas, afirmou Lagarde.No entanto, apesar desta maior robustez, Lagarde alertou que o enquadramento internacional se tornou mais complexo e imprevisível. A economia europeia enfrenta, agora, maior risco de sofrer choques económicos que têm origem sobretudo na oferta, com destaque para as tensões geopolíticas, as restrições ao comércio, a energia e as matérias-primas críticas, fatores que podem alterar rapidamente as perspetivas económicas do bloco de países.
Como exemplos, Lagarde apontou o impacto das tarifas impostas pelos EUA e a volatilidade provocada pelo conflito no Médio Oriente, sublinhando que estes acontecimentos podem intensificar-se ou dissipar-se num curto espaço de tempo, tornando mais difícil a resposta da política monetária.A presidente do BCE explicou que, perante este novo contexto, a instituição que gere a política monetária na zona euro reforçou os seus instrumentos de análise, recorrendo a indicadores mais detalhados da inflação subjacente, a projeções económicas mais sofisticadas e a dados em tempo real – isto para evitar que se repita o que reconhece ter sido um “erro” na avaliação das circunstâncias no final de 2021 e 2022, quando as pressões inflacionistas já se estavam a enraizar.“Memória fresca” da crise inflacionista de 2022, os salários e as margens das empresas. Porque é que BCE achou tão “necessário” subir juros
Em linha com aquilo que tinha dito na última conferência de imprensa, a 11 de junho em Frankfurt, Lagarde rejeitou que a subida das taxas de juro decidida nesse dia tenha sido uma mera medida preventiva. A decisão, reiterou, resultou da avaliação de que a inflação global e subjacente continuava a aumentar e de que, sem um novo ajustamento da política monetária, a inflação permaneceria acima da meta de 2% também em 2027 e também em 2028, um horizonte considerado demasiado elevado e que, por isso, levou a que houvesse uma mexida.O BCE volta a reunir o seu Conselho a 23 de julho mas a perspetiva enraizada, neste momento, nos mercados, é que não deverá ser anunciada qualquer alteração nos juros. A haver uma subida, é mais provável que seja em setembro, quando é divulgado um novo conjunto de previsões macroeconómicas para a zona euro.O Fórum BCE deste ano conta com várias apresentações sobre temas como inovação, produtividade e Inteligência Artificial. Um dos pratos fortes surge na quarta-feira, último dia do evento, quando estará presente Kevin Warsh, novo governador da Reserva Federal dos EUA, que se estreia em Sintra e irá participar num debate com Christine Lagarde e outros banqueiros centrais.









