PS atrás dos desiludidos e a pedir "inversão de marcha" à AD
▲José Luís Carneiro fez a ligação SIntra-Lisboa, de comboio, esta manhã, no arranque das Jornadas Parlamentares do PS.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Logo de manhã, no comboio na linha de Sintra, José Luís Carneiro deu de caras com um desiludido com o PS. A situação era muito concreta (sobre os problemas de adaptação do posto de trabalho a alguém com deficiência) e o desgosto com os socialistas também. O líder socialista sabe que precisa de tempo para a reconquista dos eleitores perdidos em 2025 e espera que nada atrapalhe esse caminho, como fica claro quando confessa ter expectativa na “inversão de marcha” na política de alianças do Governo — uma mudança que afastaria do caminho uma crise política ou a perceção de que o PS é um partido que procura derrubar o Executivo.
Não há qualquer vertigem por uma crise política que possa levar o partido de regresso ao poder. Sendo muito incerto que isso seja possível no curto prazo, José Luís Carneiro tenta o trabalho de formiga, sobretudo junto de eleitores perdidos nos dois círculos eleitorais onde tem sofrido erosão: Lisboa e Setúbal. O líder socialista circulou por uma das ligações ferroviárias mais utilizadas e importantes da Área Metropolitana de Lisboa, visitou uma Unidade Local de Saúde, uma obra do PRR, uma instituição de trabalho social em Setúbal e ainda uma empresa portuguesa (DEIBA) de fertilizantes e adubos.O PS tenta, assim, correr atrás desse prejuízo com uma agenda voltada para “o custo de vida, o seu aumento e os seus impactos”. É uma tentativa de fazer prova de que é capaz de trazer respostas concretas às vidas das pessoas, como aquelas que Nelson Portinha diz a Carneiro, a bordo do comboio, que nunca lhe chegaram, quando a perda de visão o fez perder também a carreira como oficial de justiça. “Fico com uma certa aversão ao PS, que podia ter feito mais”, confidencia ao próprio líder que tem ali à sua frente logo pela manhã.A confissão pesa de forma particular sobre o secretário-geral nesta altura. As sondagens podem estar mais favoráveis para os socialistas, mas as últimas legislativas mostraram que o crescimento do Chega está fortemente ligado à absorção de habituais eleitores PS. Isso reforça a ideia de um segmento do eleitorado que está desiludido com os socialistas e que preferiu o Chega como alternativa.
É aqui que entra essa necessidade de dar resposta “eficaz” e “célere” às populações — e a alguns setores em particular. Não foi por acaso a passagem, ao final da manhã, por Loures, autarquia que o PS conquistou com maioria absoluta, onde o presidente da Câmara, Ricardo Leão, esteve ao lado de Carneiro a mostrar um edifício em obras: um projeto do PRR para alojar 21 agentes da PSP deslocados que acabam agora o curso.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA
Em Loures, Carneiro visitou uma obra para alojamento de PSP deslocados.Carneiro fez questão de sublinhar que tudo começou com governos socialistas, lembrando os contratos de financiamento assinados em 2023 e os projetos planeados pelo PS, para contestar “a tese de que apenas havia obras no papel”. Falou em concreto nos 250 novos alojamentos para polícias na Amadora e nos Olivais, e noutros 250 ainda em curso, numa tentativa de reclamar para o PS os créditos por aquilo que já sabe que será inaugurado e distribuído pelo Governo da AD.Ao mesmo tempo, José Luís Carneiro parece pouco interessado em criar ondas na frente política. Prefere antes colocar o PS como partido responsável, disponível para desbloquear a governação. Quer ser alicerce de estabilidade e não gatilho de uma crise política. Depois do desaire do Governo com o parceiro que escolheu para a reforma laboral, o Chega, o líder socialista lança um misto de expectativa e desafio ao Executivo de Luís Montenegro, pedindo que “faça a inversão de marcha, porque há muito tempo que está em contramão numa autoestrada e em grande velocidade e só pode dar mau resultado.”
E explicou, em declarações aos jornalistas na estação do Rossio, que a “prova” dessa “contramão” são as “manobras ideológicas que o Governo tem conduzido com o Chega”. Recorde-se que na última semana o PSD e o PS firmaram um acordo para viabilizarem no Parlamento a nova Prestação Social Única, depois de o Governo ter desistido de negociar com o Chega.O líder do PS parece querer aproveitar a aproximação na PSU para voltar a colocar em cima da mesa as medidas que já apresentou — e viu chumbadas — relativas ao custo de vida, com o aumento da inflação. Entre elas está o IVA zero para os bens alimentares essenciais, a redução do IVA sobre os combustíveis e também sobre a eletricidade e o gás, bem como apoios aos agricultores e aos pescadores nos seus custos produtivos. Já estão todos novamente entregues no Parlamento para serem debatidos e votados já na quinta-feira — porque o PS usou a prerrogativa do agendamento potestativo (obrigatório).Mas não deixa de atirar à “insensibilidade do Governo” em relação aos problemas da vida das pessoas, acusando Montenegro de estar apenas “preocupado com matérias ideológicas, sempre a procurar encontrar mecanismos de combate e de clivagem ideológica aliando-se para esse efeito com o partido da extrema-direita”.E um dos exemplos pelos quais puxou, para mostrar esse desligamento do Governo que quer provar, é o anúncio do fundo soberano, feito por Luís Montenegro no encerramento do Congresso do PSD: “Isto foi há oito dias, já ouviram mais falar desse assunto, desse tema? Talvez não tenha pegado”, ironiza chamando-lhe mesmo “OVNI do fundo soberano” e uma “manobra de diversão que faz com que as atenções mediáticas saiam daquilo que é o essencial”, ou seja, das questões do “custo de vida, da habitação, da saúde, dos rendimentos”.
A outra é a do Orçamento do Estado e tenta a todo o custo evitar entrar no debate (sobretudo interno) do viabiliza-não viabiliza. Há duas semanas, quando o PSD procurava o Chega para a reforma laboral, um antigo líder do PS, Eduardo Ferro Rodrigues, veio apressar o partido a dizer já que votaria contra o próximo Orçamento do Estado.Mas Carneiro não quer mesmo entrar por esse caminho, empurrando uma decisão para outubro, altura em que a proposta do Governo será entregue. Ferro acabou por desanuviar, por agora, esse ambiente quando, em entrevista à RTP2 na passada quinta-feira à noite, recuou na sua posição, tendo em conta os desenvolvimentos na PSU.“Ao falar do Orçamento, estamos a contribuir para que o Governo mantenha as atenções num ponto de fuga que não é o ponto de fuga que interessa às pessoas que estão lá em casa”, considera Carneiro que prefere pôr o foco noutro lado.As Jornadas são, assim, uma tentativa de começar a recuperar eleitores perdidos sem os assustar com a pressa de regresso ao poder — que teria de passar por uma nova crise política. Carneiro oferece o PS como parceiro de estabilidade e vai disputando com o Chega o espaço dos desiludidos com o seu partido.










