Há uma nova estação do ano, a "estação do perigo"?
▲A partir de quinta-feira, as máximas estarão entre os 35ºC e os 43ºC (ou mais) e as mínimas não descem dos 20ºC aos 27ºC. Em todo o país
Agência Lusa
As alterações climáticas não afetam todo o território da mesma forma. “O risco no sul do país é diferente do risco a norte. O risco no interior é diferente do risco no litoral”, lembra Miguel Telo de Arriaga. Os mapas do IPMA mostram isso de forma cada vez mais evidente: o interior do país, o Alentejo e algumas regiões do Algarve registam mais dias acima dos 35ºC, mais dias acima dos 40ºC, menor disponibilidade de água, maior evapotranspiração e maior número de dias de perigo máximo de incêndio. O próprio IPMA identifica o Nordeste Transmontano e o Alentejo como algumas das regiões que mais têm contribuído para o aumento do número de dias em onda de calor.
Mas as cidades enfrentam outro tipo de problema. As chamadas ilhas de calor urbanas fazem com que as temperaturas noturnas permaneçam elevadas, impedindo o arrefecimento dos edifícios e do próprio corpo humano. É precisamente nas cidades que o stress térmico pode atingir valores particularmente elevados. A World Weather Attribution concluiu esta semana que quase metade das cidades europeias bateu ou esteve perto de bater recordes de stress térmico durante a atual onda de calor. Os investigadores alertam que o perigo não está apenas na temperatura máxima, mas na combinação entre calor, humidade, radiação solar e incapacidade de arrefecimento do organismo. Algumas regiões portuguesas enfrentam ainda um problema adicional: a escassez de água.Segundo o estudo de García-Valdecasas Ojeda e colegas, a Península Ibérica deverá enfrentar secas mais longas, mais frequentes e mais severas, sendo mesmo identificado o tal risco significativo de eventos de megasseca até ao final do século. Tudo isto aponta para uma realidade cada vez mais desigual em Portugal.As ondas de calor deixaram de ser apenas um problema meteorológico e são também um problema de saúde pública, um problema energético, um problema de gestão da água e um problema de proteção civil. A atual onda de calor europeia mostrou-o: hospitais franceses atingiram a capacidade máxima, alertas vermelhos encerraram a maioria das escolas nos Países Baixos, alerta de calor extremo do serviço meteorológico alemão colocou todo o país sob regras estreitas, sem esquecer os eventos culturais e desportivos cancelados e as restrições ao consumo de álcool em alguns eventos para reduzir o risco de problemas médicos.Barbara Breuer, responsável por uma instituição de solidariedade em Berlim, resumiu a mudança em curso: “Nos últimos 30 ou 40 anos, a prática era prestar assistência às pessoas para as proteger do frio. A situação mudou drasticamente.” A frase talvez resuma uma das grandes questões que a Europa enfrenta: os países europeus, que passaram décadas a preparar-se para o frio, estarão agora preparados para um futuro cada vez mais quente?Em Portugal, o problema também preocupa. Aliás, para esta quarta-feira, a secretária de Estado da Saúde, a Direção-Geral de Saúde, a Direção Executiva do SNS, o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge (INSA) e o INEM vão dar uma conferência de imprensa conjunta sobre o Plano de Saúde para as ondas de calor. Além da preocupação com os dias que aí vêm, parece até um trabalho conjunto para uma Danger Season.Mas estará o país, até mais habituado ao calor, preparado para um verão em que o calor extremo, os incêndios, a seca e os problemas de saúde acontecem ao mesmo tempo?A Organização Mundial da Saúde fala de uma “emergência de saúde”. A Organização Meteorológica Mundial alerta para os impactos simultâneos na saúde, nos ecossistemas, na agricultura e na produtividade. O diretor-geral da OMS lembra que fenómenos que antigamente aconteciam uma vez por geração estão agora a repetir-se quase todos os anos. “O Mediterrâneo em si mesmo está a tornar-se uma das regiões mais vulneráveis às alterações climáticas”, considera Ricardo Trigo.As noites tropicais multiplicam-se. As ondas de calor tornam-se mais frequentes, mais longas e começam cada vez mais cedo no calendário. As mortes associadas ao calor continuam a aumentar. Portugal ainda não lhe chama Danger Season. Mas todos os anos junta calor extremo, secas, incêndios, mortalidade, pressão sobre os recursos hídricos e stress sobre os serviços de saúde. Riscos que se reforçam mutuamente.
Por isso, talvez a questão já não seja se Portugal tem ou não uma “estação do perigo”, mas sim há quantos anos entrámos nela sem lhe dar um nome. Porque, como resume Ricardo Trigo, “temos de olhar para estes fenómenos de forma conjunta” e perceber que muitos deles surgem hoje “em cascata, de forma amplificada”. O verão continua a existir. Mas o verão de risco parece estar a começar mais cedo, a acabar mais tarde e a tornar-se cada vez mais perigoso.









