Deixem as pessoas morrer em paz!
Houve um óbito na unidade onde trabalho.Quem lê esta frase poderá pensar: e então? Afinal, sou médica há muitos anos. Verifiquei e certifiquei inúmeros óbitos ao longo da minha vida profissional. O que tem este de especial?
A verdade é que cada morte é especial. Não porque a morte seja extraordinária — é a única certeza que todos temos — mas porque a vida que termina é sempre única. Cada luz que se apaga ilumina-nos de forma diferente.Costumo dizer que no dia em que um óbito deixar de me sensibilizar será o dia de arrumar o estetoscópio e procurar outra profissão. Sobretudo quando acompanhamos alguém durante meses ou anos. Não é possível assistir ao percurso de uma pessoa, conhecer-lhe os medos, as fragilidades, os afetos e depois permanecer completamente indiferente ao seu desaparecimento.Recordo muitas mortes. Mas a primeira ficou gravada para sempre.Era jovem médica, de urgência, numa daquelas madrugadas em que os corredores dos hospitais parecem mais escuros e silenciosos do que o habitual. Chamaram-me para verificar e certificar um óbito num dos pisos. Quando cheguei ao quarto, deparei-me com uma mulher exatamente da minha idade: 27 anos.
Ainda hoje lembro-me da sensação física. O coração acelerou imediatamente.Perguntei à equipa de enfermagem se se tratava de um óbito esperado, se a doente estava em cuidados de fim de vida ou se era candidata a manobras de reanimação. Disseram-me que estava há vários dias sob cuidados paliativos exclusivos.Impressionou-me ainda mais.Abri o processo clínico — na altura ainda eram enormes dossiês de papel — e rapidamente percebi que aqueles 27 anos tinham sido preenchidos por um sofrimento imenso. Compreendi racionalmente porque a vida desta jovem chegara ao fim tão cedo. Mas a razão pouco ajudou. Enquanto preenchia a certidão de óbito, as minhas mãos tremiam de forma incontrolável.
Nunca esqueci aquela jovem. O rosto dela continua nítido na minha memória. Há histórias que não abandonam os médicos. Esta é uma das minhas.Com o tempo aprendemos a relativizar muitas mortes. Talvez seja um mecanismo de sobrevivência. E, em alguns casos, quando testemunhamos sofrimento extremo, acabamos até por desejar que a morte chegue. Não por desistência, mas por compaixão.É precisamente por isso que o óbito recente de um doente da minha unidade me fez voltar a pensar nestas questões.Tinha mais de noventa anos. Sofria de uma doença oncológica terminal. O prognóstico era conhecido por todos. Ainda assim, continuava a ser levado semanalmente — por vezes várias vezes por semana — a consultas hospitalares.
As gotas para os olhos eram importantes. Os suplementos vitamínicos eram importantes. Cada consulta trazia uma nova prescrição. Nunca teve acompanhamento por cuidados paliativos.E a alimentação…Não podia beber leite. Nem lacticínios. Nem açúcar. Nem pão. Nem isto. Nem aquilo.Porquê?Porque “faz mal à saúde”, diziam os familiares.Sempre que ouço este tipo de raciocínio em contexto de fim de vida lembro-me de outra história que nunca consegui esquecer.Era uma enfermeira. Uma pessoa extraordinariamente educada, bem-disposta e delicada. Uma doença oncológica agressiva roubou-lhe o futuro apesar de todos os tratamentos, cirurgias e esforços. Numa fase já muito avançada da doença quis passar alguns dias em casa com os filhos. Estava extremamente emagrecida e praticamente não conseguia alimentar-se.
Numa lógica de conforto, incentivámos aquilo que verdadeiramente importa nos últimos dias: que comesse o que lhe apetecesse. Não para melhorar análises. Não para ganhar peso. Apenas para sentir prazer.Perguntámos o que lhe saberia bem.Respondeu: leite-creme.Foi feito com carinho.Mas quando chegou o momento de o provar, um dos filhos apareceu e disse que ela não podia comer porque tinha demasiado açúcar.No dia seguinte entrou em coma e poucos dias depois faleceu. Lembro-me de ter esperado ficar sozinha para chorar.Porque sim, os médicos choram. Alguns mais do que gostariam de admitir.E este doente recente fez-me recordar tudo isso.Enquanto os filhos defendiam restrições e regras alimentares, a esposa, discretamente, oferecia-lhe bolos de arroz e chocolates. E nós, talvez por sabermos distinguir o essencial do acessório, fingíamos não ver.
Porque no fim de vida o que realmente importa raramente está nas recomendações perfeitas.Importa o sabor de um doce que traz uma memória feliz.Importa uma conversa que ficou por ter.Importa pedir perdão.Importa agradecer.Importa dizer “amo-te”.Importa fechar capítulos.Importa partir em paz.Por isso, deixem as pessoas morrer em paz.Deixem-nas comer o que lhes apetece. Dizer o que lhes apetece. Fazer as pazes com a vida.No final, não serão as gotas dos olhos, as vitaminas, as consultas, as transfusões ou os tratamentos que ficarão na memória de quem parte ou de quem fica.
Será a humanidade com que permitimos que alguém viva os seus últimos dias.
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