CIÊNCIA

Moradores descontentes com novo centro de pernoita em Lisboa

Moradores da freguesia de São Vicente, em Lisboa, manifestaram-se esta terça-feira contra a instalação de um centro de pernoita para sem-abrigo em antigas garagens de dois prédios municipais, reclamando melhores condições para toda a população.
Segundo Miguel Canadas, a localização do centro de pernoita para sem-abrigo na Rua Álvares Fagundes para cerca de 100 utentes não é a correta, pois trata-se de uma “rua sem saída”, em que “os acessos são condicionados” e “não há transporte público de proximidade adequado”.“Temos aqui mesmo aqui ao lado um parque infantil, uma escola primária a poucos metros, um lar de idosos”, apontou o morador, de 60 anos, considerando que a instalação de uma estrutura de apoio a pessoas sem-abrigo nas traseiras de dois prédios da Gebalis, onde moram cerca de 100 pessoas, em habitação municipal, vai “trazer problemas para onde já há problemas”.Três dezenas de moradores das ruas Álvares Fagundes e General Justiniano Padrel e envolvente juntaram-se, ao final da tarde, em frente ao centro de pernoita, com duas faixas onde se lia “Moedas quer esconder os sem-abrigo”, perante a vigilância de vários polícias, para contestar a instalação do centro de pernoita pela Câmara de Lisboa.
“Estamos a mostrar o nosso desagrado com o presidente [da câmara] porque as áreas envolventes, como podem ver, não são requalificadas”, explicou Ana Gonçalves, 43 anos, promotora de um abaixo-assinado que reuniu 1.500 subscritores e nunca obteve resposta da autarquia.Para a moradora, só requalificaram os prédios por fora para a criação do centro de pernoita, que inicialmente se destinava também a apoio a toxicodependentes, mas que abriu na sexta-feira para pessoas sem-abrigo sem informação aos residentes na zona.Perante a falta de condições na envolvente, Ana Gonçalves salientou que os moradores pediram que o espaço se destinasse a “toda a população, fosse para jovens, para crianças ou idosos”.“Poderia ser utilizado a bem de toda a população, não só dos mais carenciados, porque nós aqui também somos pessoas carenciadas. São dois prédios camarários e há pessoas que vivem com dificuldades e essas pessoas também não são apoiadas nas condições que deviam”, apontou.
Apesar de concordar que “as pessoas precisam de ser apoiadas” e que é melhor estarem ali do que “na rua”, a moradora receia que a estrutura crie “muitos problemas”, pois “é muito fácil fazer tendas, começarem a acampar, como se vê dentro de Lisboa, em várias zonas”.“Não temos nada contra os sem-abrigo, portanto, as pessoas em condição de sem-abrigo merecem a nossa atenção, a cidade deve cuidar, mas deve encontrar as soluções mais adequadas para que a comunidade instalada, portanto, as pessoas que vivem nos sítios não sofram, portanto, com esta nova realidade”, frisou Miguel Canadas.Para o também primeiro subscritor de uma petição contra o centro de pernoita, “há sítios que reúnem melhores condições”, na sua globalidade, para instalar uma estrutura deste tipo numa zona já com problemas, nomeadamente de falta de limpeza e de acessibilidades.A Câmara de Lisboa, numa nota, assegurou na segunda-feira que a decisão de instalar um centro de pernoita na freguesia de São Vicente para pessoas em situação de sem-abrigo foi articulada com a comunidade local, inclusive respondendo a problemas na zona envolvente.
“Nesse sentido, estão já em curso várias intervenções municipais, e planeadas outras tantas, dirigidas à melhoria das condições urbanas, nomeadamente ao nível da iluminação pública, limpeza urbana, pavimentação, mobilidade, estacionamento e transportes”, afirmou a autarquia presidida por Carlos Moedas (PSD).A autarquia destacou ainda a requalificação do parque infantil na zona envolvente do centro de pernoita e o estudo de soluções que permitam melhorar os acessos e garantir condições adequadas para veículos de emergência.Relativamente à segurança e ao impacto na comunidade, a câmara informou que a instalação do centro de pernoita será acompanhada por um plano de segurança específico, em articulação com a Polícia Municipal, que prevê o acompanhamento regular da operação.Os moradores prometem continuar a luta e em breve devem ser ouvidos na Assembleia Municipal de Lisboa.

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