"Putin está a tentar escalar o conflito"
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Gabinete de Guerra na Rádio Observador, espaço em que analisamos os principais focos de conflito no mundo. Hoje com a Ana Cavalieri, especialista em relações internacionais. Boa noite, obrigada por ter aceitado o nosso convite. Hoje começamos pela Ucrânia. Esta madrugada, a Rússia levou a cabo um dos ataques já considerados mais mortíferos desde o início da guerra. Pelo menos 23 pessoas morreram e 100 ficaram feridas. Várias áreas na Ucrânia foram atingidas, áreas residenciais, tanto na capital como noutras zonas, para além também de algumas infraestruturas vitais. Acha que foi esta uma tentativa do Kremlin de demonstrar que continua com força e que o equilíbrio das forças não está a mudar, isto numa altura em que a Ucrânia tem, de facto, feito alguns danos substanciais em infraestruturas críticas russas?
Eu penso que é uma reação relativamente ao escalonar, não à intensidade daquilo que são os ataques a médio e longo alcance que Kiev tem conseguido fazer. A terminar a altura, a partir do momento em que Moscovo e São Petersburgo, que estão a vários milhares de quilómetros daquilo que é a fronteira entre a Rússia e a Ucrânia, começam a ser atingidos, o que significa que em termos visuais para as elites de Moscovo e São Petersburgo, o seu dia a dia, a realidade da guerra torna-se muito mais presente. Isso significa que Putin tem duas hipóteses: ou entrava em mesas de negociação, que para isso é impossível, na perspectiva dele, porque ele para conseguir sair desta guerra numa mesa de negociações, teria de conseguir pelo menos a Crimeia estabelecida ou bem formalizada como fazendo parte da Rússia, e também a zona do Donbass, nomeadamente Lugansk e Donetsk. Na parte de Donetsk, que é o principal, o facto de a Rússia não estar a conseguir avançar no território na área de Pokrovsk é problemático, porque milhares de soldados russos estão a perder a sua vida ou estão a ficar feridos, cerca de 30 mil por mês, a tentar conseguir avançar uma linha da frente que está ou estagnada ou até a Ucrânia está a conseguir recuperar. Então a hipótese de Putin não era negociar, mas nos termos que seria absolutamente um suicídio político para Putin, ou então escalar. E escalar, há vários meios para poder escalar. Pode ser ou através de maiores ataques com disrupções ao nível da infraestrutura e também ao nível de perdas de vidas civis para a parte da Ucrânia, para tornar aquilo que é o custo desta guerra ainda mais doloroso para a Ucrânia, ou então, e eu espero que isso não aconteça, seria uma arma nuclear tática. Uma arma nuclear tática são armas nucleares com um escopo mais limitado, normalmente a tentarem atingir logísticas militares, mas que em termos daquilo que seria o impacto, seria uma escalada, teria de certeza uma reação profunda da NATO. Eu penso que entre a hipótese de ir para a negociação ou a hipótese de escalar, eu penso que Putin está a tentar escalar, mas ainda dentro daquilo que é a esfera convencional.
Entretanto, o chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, veio já dizer que quanto mais Moscovo ataca civis, mais sanções têm de ser impostas. A União Europeia vai de facto continuar a reforçar estas sanções à Rússia, para além também do apoio financeiro à Ucrânia?
Eu penso que isso são as duas armas fundamentais que a União Europeia pode ter. A primeira teria sido aquilo que é o aumento do pacote de ajudas, não só aquilo que foi estabelecido, os 90 bilhões que foram conseguidos ser alocados para a ajuda do esforço de guerra ucraniano, mas também aquilo que são os investimentos no fundo EURL, que serve para depois comprar armamento e armas e munições aos Estados Unidos, porque nós sabemos que os Estados Unidos cessaram aquilo que é a ajuda financeira. Relativamente às sanções, é algo que é fundamental, não só os vários pacotes de sanções que já foram aprovados a empresas russas e também à elite política russa, mas também a tudo aquilo que são os intermediários que conseguem, através da sua cadeia de abastecimento, providenciar ao exército russo os componentes militares para determinado armamento, para determinada substituição de equipamentos. E isso é algo que atinge a China e outros países que ainda conseguem dar, através dessas empresas, ajuda à Rússia. Então as sanções têm de ser mais apertadas, são mais difíceis de serem executadas na medida em que há uma network, uma rede extensa de empresas fantasma que conseguem, por vias ilegais, muitas vezes, fornecer à Rússia esses componentes, mas isso também é fundamental. Isto porque não basta só passar as sanções. Tudo o que é a concretização e a execução das sanções, que é muitas vezes aquilo que é o mais difícil de controlar, é preciso ser efetivado. E eu acho que a Europa e também o Reino Unido, a União Europeia, portanto, mas o Reino Unido tem sido também um dos países que mais tem sido preponderante ou intenso nas sanções que tem passado. Os Estados Unidos, houve momentos aqui no mandato de Trump em que eles passaram sanções a duas empresas muito importantes petrolíferas, e também sanções secundárias, por exemplo, à Índia, naquilo que seriam as transações que fizessem de compra de petróleo e gás natural da Rússia. Mas isto da Guerra de Israel fez também aliviar um pouco esse pacote de sanções. E então eu acho que em termos diplomáticos, a União Europeia quer continuar a avançar por esse caminho e também tentar persuadir os Estados Unidos. Os Estados Unidos aqui são uma peça fundamental na execução e monitorização de conseguir passar essas sanções.
Vamos olhar agora para o Médio Oriente. Os Estados Unidos avisaram os Houthi de que a paciência de Donald Trump não é ilimitada. O aviso vem pelo embaixador norte-americano junto da ONU, que garantiu também que Washington não vai permitir que a República Islâmica continue a manter a economia mundial refém. São avisos referentes ao Estreito de Ormuz e ao impasse que se vive em relação às tarifas, mas queria que nos explicasse que impacto é que esta situação está a ter, de facto, em muitas das economias mundiais.
Por um lado, Jay Evans, que é quem está a liderar este processo negocial ligado ao memorando de entendimento, fez uma entrevista penso que há dois dias, que foi muito relevante, em que referiu que este memorando de entendimento era, no fundo, o caminho possível para a diplomacia conseguir resolver este conflito e tentar naturalmente cumprir os objectivos americanos de conseguirem que o Irão abandone o seu programa nuclear e deixe de ter a ambição de ter uma arma nuclear, mas também relativamente aos mísseis balísticos e ao financiamento de proxies terroristas, sendo certo que os mísseis balísticos e os proxies terroristas não estavam a ser mencionados no memorando de entendimento. Isso é um problema em termos da perspectiva americana, ou pelo menos dos críticos americanos a este memorando de entendimento, desse documento. Mas o Jay Evans disse que se isso não resultar, ou seja, se esta via diplomática sustentada pelo memorando de entendimento não resultar, ao menos este compasso de espera serve para duas coisas. Primeiro, conseguir voltar a ter o stock de interceptores e mísseis que os Estados Unidos precisam, ou seja, houve uma delapidação com os interceptores dos sistemas de defesa antiaérea, nomeadamente os sistemas de defesa antiaérea que os americanos providenciam ao Qatar, ao Kuwait, ao Bahrein, à Arábia Saudita e aos Emirados Árabes Unidos, no fundo aos aliados do Golfo, que os Estados Unidos têm de proteger de possíveis retaliações iranianas. E para isso é preciso muitos interceptores, esses interceptores são muito caros. Ligando aqui também à componente ucraniana, é preciso referir que agora são os Estados Unidos que estão a pedir ajuda ucraniana, porque são eles que estão a desenvolver a tecnologia de ponta de conseguir fazer a intercepção de drones a um baixo custo, porque os sistemas de defesa antiaérea americanos são muito caros. Mas então Jay Evans basicamente diz que dá tempo de respirar um pouco e conseguir produzir uma maior quantidade de interceptores e de mísseis que são necessários e também de aliviar o mercado de petróleo e então haver outra vez uma maior oferta em termos daquilo que é o mercado global de petróleo em bruto e isso fazer com que se estabilize algumas economias, principalmente as economias asiáticas. Ou seja, a economia americana, os preços de combustível. Eu estou neste momento nos Estados Unidos e é interessante ver que, comparativamente às minhas últimas visitas, é certo que os preços dos combustíveis aqui aumentaram. Mesmo assim estão a metade do preço, por exemplo, dos combustíveis em Portugal, daquilo que nós portugueses pagamos quando estamos em Portugal. Mas isso, mesmo estando em metade desse preço para os americanos, já é incomportável esta subida de preços. Agora estão um pouco a descer, mas não à velocidade que o petróleo em bruto está a descer nos mercados. Há poucos dias já estava a $69, o que é um preço razoável. Mas os americanos nunca terão o perigo de ter falta de gasóleo, gasolina ou gás natural, porque os americanos são produtores e até produzem com excedentes para depois exportar. Os americanos são afectados com o nível de preço, mas as economias asiáticas têm um problema já de escassez. E muito daquilo que era o petróleo que eles tinham, ou com o qual se abastecem, vem do Estreito de Hormuz e vem da zona do Golfo. E também aquilo que são as economias para os americanos, que são aliados dos americanos, ou seja, as economias do Golfo, da Arábia Saudita, dos Emirados Árabes Unidos, isso tudo depende, naturalmente, de eles terem a capacidade de poderem exportar. E então aí a dor económica tem de ser aliviada. Então para os Estados Unidos, aquilo que é a perspectiva americana, são aquilo que são os seus parceiros asiáticos, nomeadamente o Japão, Filipinas e também os países do Médio Oriente, que estão a ter agora algum respiro com este cessar-fogo mais alargado através deste memorando de entendimento.
As cerimónias fúnebres de Ali Khamenei começam daqui a dois dias, dia 4 de julho, e prolongam-se até dia 9. O filho, líder supremo do Irão, já fez saber que não vai marcar presença no funeral do pai, por questões de segurança. O Irão também já deixou um aviso aos Estados Unidos e a Israel contra eventuais ataques durante o funeral. As autoridades iranianas estimam que participem nas cerimónias entre 15 a 20 milhões de pessoas. Parece-lhe que é a oportunidade perfeita para um ataque de Washington e Telavive, numa altura em que o cessar-fogo está bastante frágil, ou podemos esperar que os Estados Unidos e Israel respeitem de alguma forma esta cerimónia?
Eu penso que vão respeitar, até porque estrategicamente não é uma grande mortandade que os Estados Unidos e Israel querem propor ou querem alcançar. Aquilo que Israel provavelmente gostaria era haver novas linhas de decapitações de liderança, tanto política como militar, nomeadamente eliminar o Wahidi e Jalili, que são os líderes da Guarda Revolucionária, que têm sido o contraponto mais radical a Raisi e Ghalibaf, que são o braço político talvez mais pragmático nestas negociações. Não interessa fazer um ataque a larga escala, naturalmente. E também é interessante que o atual Khamenei, ou seja, o atual líder dos aiatolás, provavelmente nem vivo está, ou se está vivo, está inconsciente, se está consciente, está altamente desfigurado e não se pode apresentar. O que significa que este regime jurídico e político do Irão conhecido por Velayat-e Faqih, que é liderado supostamente pelo grande legislador religioso na figura do aiatolá, neste momento não está a operar dessa maneira. Está agora uma luta, um conflito mais entre a arma da Guarda Revolucionária, mais entre o braço da arma revolucionária e também aquilo que é as lideranças políticas mais concentradas em Ghalibaf. E eu penso que neste momento vai haver aquilo que é um cessar-fogo, um respiro. E eu penso que neste sentido será mais essa linha sustentada, não só porque também é o 4 de Julho nos Estados Unidos da América. Ou seja, há aqui também essa necessidade de haver uma certa tranquilidade, principalmente na altura em que há festejos dos 250 anos aqui nos Estados Unidos.
Obrigada pela sua análise. O nosso tempo chegou ao fim, mas muito obrigada, Ana Cavalheiro, especialista em Relações Internacionais.
Muito obrigada.









