Tokarczuk: "A literatura é perigosa para mulheres"
▲"Escrever sempre foi, de alguma forma, obsessivo. A escrita para mim é muito instintiva, ninguém nos ensina, não existem escolas que ensinem este artesanato”, disse a escritora
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Foi precisamente para desafiar esta hegemonia que Tokarczuk escreveu Empúsio (2023), romance que descreve como uma intervenção crítica e uma resposta direta a essa exclusão histórica. “Não se pode escrever um livro tão grande, em dois volumes, sem mulheres”, apontou, num registo de diálogo simbólico com o passado: “Ouso, neste livro, sentar-me à mesa de Thomas Mann, nos anos 20, e dizer algo da minha parte”, disse. Em Empúsio (tal como os restantes livros da autora em Portugal, é editado pela Cavalo de Ferro), um grupo de homens num sanatório na Silésia, em 1913, conversam e criam uma forma de “fazer uma espécie de paródia, de paráfrase, da Montanha Mágica, dando voz às mulheres”.
Integrada no festival Babell, a sessão — que começou com cerca de 15 minutos de atraso — confirmou o estatuto da escritora como uma das vozes mais magnéticas do pensamento ecofeminista contemporâneo. A cumplicidade com o público portuense fez-se sentir logo na abertura, quando a moderadora Marta Bernardes surpreendeu a assistência com um apelo emotivo: “Expliquem à Olga como é receber alguém que se ama”, sucedendo numa forte ovação.










