CIÊNCIA

Durão: "Portugal tem uma relação natural com o Sul Global"

José Manuel Durão Barroso disse nas jornadas parlamentares da AD que a eleição de Portugal para o Conselho de Segurança da ONU “demonstra que o país tem uma relação mais natural do que outros com o Sul Global”. O antigo Presidente da Comissão Europeia reconheceu que as Nações Unidas estão atualmente “bloqueadas”, mas defendeu que Portugal deve manter a sua “vocação atlântica” em tempos de “grande volatilidade, incerteza e polarização” geopolítica.
“Somos naturalmente europeus, naturalmente atlânticos e devemos afirmá-lo com convicção neste momento em que alguns duvidam disso”, disse aos deputados do PSD e CDS. “Portugal foi grande quando foi aberto ao mundo, foi pequeno quando se fechou. Portugal tem uma goodwill e um softpower que não é inferior a outros países europeus”, acrescentou.Durão Barroso apelou aos sociais-democratas para lembrarem aos portugueses do papel que a UE teve no desenvolvimento nacional. “Temos uma dívida para com a Europa, mas não fomos para a Europa apenas com uma visão instrumental. Quisemos reafirmar a nossa vocação europeia e euro-atlântica.”Em dia de jogo da Seleção Nacional no Mundial, o antigo primeiro-ministro contou uma história que exemplifica a proximidade de Portugal ao Sul Global. “Estava cá um amigo meu, uma grande personalidade espanhola, que estava um bocado desiludido e disse-me: ‘Vocês estavam todos contra a Espanha, estavam por Cabo Verde’. E eu disse: ‘Tens de compreender uma coisa, vocês são nuestros hermanos, eles são nossos filhos”, referiu, provocando risos entre a plateia.
Durão Barroso também comentou a atualidade política nacional, elogiando a “belíssima decisão do Governo” de criar uma comissão de celebração dos 900 anos da fundação de Portugal. O antigo primeiro-ministro disse que Portugal deve reforçar o “sentimento de comunidade nacional”, mas sem xenofobia. Durão Barroso assinalou que a crise democrática criou uma necessidade de imigrantes, mas sublinhou que existe uma “tolerância limitada para uma sociedade multicultural”.O ex-presidente da Comissão Europeia defendeu que a promoção desse sentimento nacional deve ser feita com sentido de abertura e sem chauvinismo. “Temos o dever de reforçar os sentimentos de comunidade nacional, que alguns procuram pôr em causa. Podemos dizer que o patriotismo não é o nacionalismo, o nacionalismo é o ódio dos outros, o patriotismo é o amor do que é nosso.”Durão Barroso terminou com uma reflexão sobre o papel da Europa no mundo, defendendo nomeadamente uma “europeização” da NATO. “Faz sentido nós, europeus, assumirmos mais o apoio à Ucrânia. É um país europeu. Se Putin ganhasse a guerra na Ucrânia teria todos os incentivos para tentar o mesmo num país da NATO ou da UE. Se se quer a paz, temos de estar preparados para a guerra. Independentemente da posição americana, essa deve ser a posição portuguesa.”
Por fim, o antigo primeiro-ministro lamentou que, para a Europa, “parece ser preciso olhar o abismo para reagir”. Isto porque os europeus são “sempre melhores a realizar o diagnóstico do que a aplicar soluções”, explica. Durão Barroso disse que chegou a hora da Europa “acordar, se assumir como tal e deixar de ser o adolescente geopolítico que tem sido”, perante “uma Rússia muito mais agressiva, uma China muito mais assertiva, e uns EUA muito mais imprevisíveis”.Para tal, não chega responsabilizar Trump pelos males europeus; “É muito fácil hoje dizer que a culpa é de Trump, mas não é por causa de Trump que a Europa não acabou o seu mercado interno, não é por causa de Trump que a Europa não tem união bancária, não é por causa de Trump que a Europa não tem uma união de mercado de capitais, é porque nós não fizemos ainda o nosso trabalho”, concluiu.

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