"O Eusébio cantava o hino da Croácia"
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Quem recorda a carreira de Eusébio fala tendencialmente do Benfica, da seleção portuguesa e da aventura pelos Estados Unidos da América. Mas, em 1976, está uma das páginas mais bonitas da carreira do Pantera Negra. Eusébio jogou em Toronto, numa equipe croata, integrou-se na comunidade e até quis aprender a cantar o hino da Croácia. Foi o líder de uma equipe que se estreava no Campeonato da América do Norte e conquistou o título, que foi festejado com champanhe dos adversários e com milhares de pessoas nas ruas de Toronto. Aconteceu nos Toronto Metros Croatia, um clube que já não existe. O Observador conversou com quem jogou ao lado de Eusébio. Falamos com amigos que fez na cidade e escutamos a voz orgulhosa do homem que lutou até onde conseguiu para manter viva a lenda deste clube da comunidade croata. Para compreendermos a origem desta equipe, temos de falar de política e geografia. No século XX, o país que hoje se apresenta como Croácia fazia parte da Jugoslávia, um Estado que juntava os territórios que hoje são da Bósnia-Herzegovina, da Macedônia, de Montenegro, da Sérvia, da Eslovênia e da Croácia. Foi nesse período que milhares de pessoas deixaram a região devido às crises econômicas e à instabilidade política depois das guerras mundiais. O Canadá foi um dos principais destinos. As dezenas de comunidades imigrantes que se estabeleceram em Toronto levaram com elas a cultura, a gastronomia, a língua e o desporto. Portugueses, italianos, sérvios, croatas e outras comunidades quiseram jogar futebol em Toronto e rapidamente se organizaram para criar equipes e jogarem entre si. Foi assim que nasceu, em 1956, um clube chamado Toronto Croatia. Algumas destas equipes tinham jogadores que tinham representado grandes clubes na Europa. Os Toronto Croatia jogaram inicialmente em várias ligas amadoras e em 1962 integraram a liga profissional. Os imigrantes viam o clube como a seleção da Croácia, que nesta altura ainda não era um país. No início dos anos 70, já dominavam o campeonato. Em 75, surgiu uma oportunidade de ouro. A equipe de Toronto, que jogava no Campeonato da América do Norte, entrou em dificuldades financeiras. Chamavam-se Toronto Metros e estavam prontos para vender o franchise. Os Toronto Croatia decidiram investir e propuseram uma fusão. Tinham apenas duas condições: a equipe tinha de ter Croatia no nome e o equipamento tinha de ter as cores da Croácia. Nasceram assim os Toronto Metros Croatia. Foi a primeira e única equipe da história da liga norte-americana com o nome de origem étnica. A partir daqui, foi preciso fortalecer a equipe. Primeiro, a direção do novo clube recrutou alguns dos melhores jogadores do campeonato canadiano. Depois, olhou pra Europa. E é aí que entra o nome de Eusébio.
Naquela altura, o Eusébio estava a jogar noutra equipe da América do Norte. O nosso presidente era o Dick Basik. De alguma forma, ele entrou em contato com o Eusébio. Eu lembro-me dessa reunião. Foi provavelmente no salão croata, aqui em Toronto. Estavam lá umas 500 ou 600 pessoas. Quando ele anunciou que podíamos trazer o Eusébio para o clube, toda gente ficou incrédula. Ninguém acreditou. “Vais trazer mesmo? Isso é possível?” E ele disse: “Isto é possível se juntarmos US$ 30 mil.” O contrato dele era de apenas US$ 30 mil por temporada. É inacreditável.
Joe Pavicic fazia parte da estrutura dos Toronto Metros Croácia e lembra-se perfeitamente do momento em que Eusébio aterrou em Toronto para falar com o clube.
Fizemos um grande banquete no salão croata com cerca de 500 pessoas. Quando promovemos que o Eusébio vinha, foi como um feriado pro nosso povo. Ele era um homem modesto, simplesmente um homem modesto.
Um dos reforços dos Toronto Metros Croácia foi Roberto Ieruci, conhecido como Bob Ieruci. Tinha 21 anos, foi contratado a um clube da comunidade italiana. Ao Observador, descreve o dia especial em que viu Eusébio pela primeira vez.
Eu não sabia. Estava sentado no balneário, pronto para o treino no Lamport Stadium, um campo de relva artificial no centro de Toronto. Eu estava sentado e de repente a porta abriu-se. O Aldo Príncipe entrou e atrás dele vinha um homem bonito e elegante, com óculos de aviador. Ele parecia um deus. Olhei para ele e depois olhei para o meu amigo Carmen e disse: “Meu Deus, é o Eusébio. É verdade?” Ele foi apresentado à equipe nessa mesma manhã.
E ele treinou?
Sim, treinou.
Como é que foi esse treino?
Foi um sonho. Estar em campo com o Eusébio foi um sonho, porque me lembrava de o ver quando era miúdo, no Mundial de 66 e nos jogos do Benfica contra o Manchester United na Taça dos Campeões Europeus nos anos 60. Eu segui sempre o Eusébio. Naquela altura, ele era como o Pelé ou logo a seguir ao Pelé, o melhor jogador do mundo.
Nesse primeiro treino, percebeu que ele ia fazer a diferença?
Sim, meu Deus, eu até tive dificuldade em concentrar-me, porque ficava só a olhar pra ele
Queria saber como ele andava, como se movia, como mantinha a cabeça erguida, como se comportava e como falava. Eu estudei tudo sobre ele.
E como é que foi no treino? O Bob era defesa. Teve de se marcar o Eusébio?
Não, mas também não teria sido muito agressivo contra ele naquele momento. Mas se fosse ele, percebia e era muito amável. Tornamo-nos muito bons amigos. Ele adorava os jovens, adorava Toronto, o Toronto Metros Croácia e o povo croata. Ele era uma pessoa incrível.
A aventura de Eusébio com os Toronto Metros Croácia não começou com brilho. Eusébio teve uma má relação com o treinador, Markovitch, e a crise estalou no jogo mais importante da temporada. Os Toronto Metros Croácia iriam receber no Canadá o New York Cosmos, o clube de Pelé. Markovitch sentou Eusébio no banco. Foi a gota de água. Markovitch foi despedido e chegou um novo croata, Kapetanovic. Este homem colocou Eusébio como capitão. O clube começou a vencer e iria mesmo chegar aos playoffs. Foi nesse período que Eusébio se passou a integrar cada vez mais na comunidade croata. Bob Iarucci tornou-se um dos grandes amigos.
Nós íamos a restaurantes portugueses durante a semana e a restaurantes croatas ao fim de semana. Depois dos jogos, ele estava sempre rodeado de fãs croatas e falava um pouco de inglês, português e até algumas palavras em croata. Ele até aprendeu o hino nacional da Croácia. Nós tínhamos jantares antes dos jogos no restaurante croata em Mississauga e antes de servirem o jantar, levantávamo-nos todos e cantávamos os hinos do Canadá e da Croácia. O Eusébio e o Ivair Ferreira, um brasileiro chamado Príncipe do Brasil, porque o rei era o Pelé e Ivair era o príncipe. Ele e o Eusébio tornaram-se melhores amigos e estávamos sempre os três juntos.
E nos jantares, o Eusébio cantava?
Cantava o hino do Canadá e o hino da Croácia. Mas lembrem-se que naquela altura a Croácia fazia parte da Jugoslávia e nós nem nos dávamos conta durante a época, mas éramos um símbolo da independência croata. O Toronto Metros Croácia representava a comunidade croata de Toronto e da América do Norte.
Para além de se integrar na comunidade croata, Eusébio também passava muito tempo com os portugueses e um dos pontos que visitava era a Casa do Benfica. Jorge Ribeiro, que era sócio desta Casa na altura e que depois chegou a ser presidente, recorda as visitas do Pantera Negra.
Era muito agradável. O Eusébio não se via todos os dias, porque o clube em que ele estava envolvido necessitava de muito tempo. É como um jogador hoje que joga no Benfica ou noutro clube qualquer. Tem as suas limitações de envolvimento com outras organizações, incluindo sendo a Casa de Benfica, um clube que estava ligado ao Benfica em Lisboa, mas há sempre certas limitações e ele só aparecia nessa altura na Queen Street, uma vez por acaso.
Mas quando esteve cá, chegou a ir à Casa de Benfica.
Claro que chegou a ir à Casa de Benfica.
Como é que era?
Era uma festa, logicamente. É de se bater a pala, como se costuma dizer à velha maneira de falar. E era simpático. Ele sempre foi simpático no falar de pessoa a pessoa. Portanto, logicamente que todas as pessoas gostavam de falar com ele, de estar naquele bocadinho de tempo a falar e nós às vezes até exageramos na maneira de fazer perguntas: “E vamos fazer isto e vamos fazer aquilo, e aquele golo”. Houve sempre uma paixão pelo Eusébio.
Completamente integrado na comunidade imigrante de Toronto, Eusébio assumiu um papel fundamental no clube croata. A equipa apurou-se para os playoffs e primeiro bateu o Rochester Lancers por 2 x 1 a jogar em casa. Depois, a jogar fora, eliminaram o Chicago Sting nas grandes penalidades e assim chegaram à final da Conferência Este. Aconteceu frente aos campeões do ano anterior, os Tampa Bay Rowdies. Bob Iarucci explica que houve um momento, no relvado, antes do jogo, que motivou a equipa.
Tinham cerca de 45 mil pessoas no estádio. Eles estavam a promover a oferta de bilhetes para a final em Seattle antes de jogarem conosco. Já imaginaste isto? Como assim? Bum, Eusébio marcou. Bum, Ivair marcou. Vencemos por 2 x 0 com gols de Eusébio e Ivair. Tivemos de ir de Tampa diretamente para Seattle e nem tínhamos roupa para mudar. Nós não sabíamos de nada.
O que começou por ser um pequeno clube croata dos bairros de Toronto tornou-se num campeão de conferência Que assim teria a oportunidade de discutir a Soccer Bowl. A final jogou-se a 28 de agosto de 1976, em Seattle. Os Toronto Metros Croácia mediram força com os Minnesota Kicks. 25 mil adeptos nas bancadas. Eusébio era a maior estrela naquele estádio, mas entrou no balneário com balizes.
Tiveram de lhe dar uma injeção de cortisona no joelho esquerdo, porque ele estava a coxear no balneário e nem sabíamos se ia jogar. Tiveram de pôr cortisona naquele joelho.
Eusébio jogou, marcou um golo de livre direto e assistiu para o outro. Os Toronto Metros Croácia venceram com gols de Eusébio, Luka Acević e Ivair Ferreira. Foi a primeira vez que uma equipe canadiana conquistou a liga norte-americana. Eusébio terminou a época com 16 gols e quatro assistências em 21 jogos. Bobby Arrucci, o grande amigo, foi o único jogador que participou em todos os minutos dos 24 jogos da temporada. Joe Pavicevic conta que a festa começou ainda no estádio.
Os Minnesota achavam que iam ganhar facilmente e trouxeram champanhe para depois do jogo. Nós batemos por 3 x 0 e depois do jogo acabar, os jogadores do Minnesota Kicks trouxeram todo o champanhe que tinham e deram à nossa equipe porque disseram: “Vocês merecem e vocês é que têm de celebrar isto”.
Bobby Arrucci lembra-se perfeitamente de receber estas garrafas de champanhe.
Foi muito simpático. Tivemos champanhe. Tenho uma foto no meu telemóvel do Eusébio a deitar champanhe na minha boca. Incrível.
Os bairros das comunidades imigrantes em Toronto ficaram radiantes e receberam a equipe em festa. Os Toronto Metros Croácia foram também recebidos na Câmara Municipal.
Deram-nos a chave da cidade. Foi o Eusébio que a carregou. Ele foi tratado como realeza. E ele era.
Com 34 anos, depois de conquistar a Europa, Eusébio conquistou a América do Norte. O jogador português deixou este clube depois do título. Os Toronto Metros Croácia acabaram também por ser vendidos e a Croácia, o país, tornou-se independente nos anos 90 e passou a ter uma seleção nacional. No Canadá, Joe Pavicevic ainda segurou o pequeno clube de bairro. De 2006 a 2020, foi presidente dos Toronto Croácia, mas depois reformou-se e voltou para a terra natal. Pelo caminho, batalhou para que o clube nunca fosse esquecido. E conseguiu.
Tenho pele de galinha, vê? Trabalhei nisso durante muito tempo com as pessoas do Hall of Fame e eles aceitaram em 2010. Estou tão orgulhoso. Foi a maior coisa que alcancei com a equipe. Agora podes ler que uma das melhores equipes da história do Canadá foi o Toronto Metros Croácia.
Liderados por Eusébio, há 50 anos, os croatas conquistaram a América do Norte.










